NADA  ETERNO
Sidney Sheldon

PRLOGO

So Francisco
Primavera de 1995

O que no se pode curar com medicamentos, cura-se com a faca; o que a faca no consegue curar, cura-se com o ferro cauterizador; e tudo o que isto no consegue curar deve ser considerado incurvel.

HIPCRATES, SCULO V A.C.

Existem trs classes de seres humanos: homens, mulheres e mdicas.

SIR WILLIAM OSLER

O autor deseja expressar os seus mais sinceros agradecimentos a todos os mdicos, enfermeiras e pessoal que  com ele partilharam os seus conhecimentos. O promotor pblico Carl Andrews estava furioso: 
- Que raio se passa aqui? - perguntou. - Temos trs mdicas a viverem juntas e a trabalhar no mesmo hospital. Uma delas quase consegue fechar um hospital inteiro, a segunda mata um doente por um milho de dlares e a terceira  assassinada! 
- Interrompeu-se para tomar flego : - E todas so mulheres !
Trs malditas mdicas ! A comunicao social trata-as como celebridades. So vistas  em todos os canais. O Sessenta Minutos mostrou um programa sobre elas. Barbara Walters fez um especial sobre elas. No consigo pegar num jornal ou revista sem ver a fotografia ou ler artigos sobre elas. O Two to one, de Hollywood, vai fazer um filme sobre elas e transformar as putas numa espcie de heronas! No me espantava nada que o Governo pusesse a cara delas em selos de correio, tal como Presley. Ora, valha-me Deus, eu no suporto isso! - Deu um murro na fotografia da mulher da capa de uma revista Time. A legenda dizia: "Dra. Paige Taylor Anjo da Misericrdia ou Discpula do Diabo?" - Doutora Paige Taylor - disse o promotor pblico cheio de asco. Voltou-se para Gus Venable, o seu melhor advogado de acusao: - Vou entregar-te este caso, Gus. Quero uma condenao. Assassnio de primeiro grau! Cmara de gs! - No te preocupes - disse Gus Venable, baixinho - Eu tratarei disso.
Sentado na sala do tribunal a olhar para a Dra. Paige Taylor, Gus Venable pensou: "Ela   prova de jri." Depois, sorriu-se: "Ningum   prova de jri." Era alta e esbelta, com penetrantes olhos castanhos num rosto plido. Um observador desinteressado t-la-ia considerado uma mulher atraente. Outro mais atento teria notado algo mais - que  todas as diferentes fases da sua vida coexistiam nela. Notava-se a alegria da infncia, sobreposta pela incerteza tmida da adolescncia e a sabedoria e dor da mulher adulta. Exibia um aspecto inocente. " o tipo de rapariga", pensou cinicamente Gus Venable, "que um homem apresentaria com orgulho  me. Se a me apreciasse assassinas a sangue-frio." Notava-se um ar longnquo, quase misterioso, nos seus olhos, um olhar que dizia que a Dra. Paige Taylor, bem l no ntimo, se tinha retirado para um lugar diferente, numa poca diferente, longe da fria e assptica sala de tribunal onde estava encurralada. O julgamento tinha lugar no velho Palcio da Justia de So Francisco, na Bryant Street. O edifcio, que albergava o Tribunal Superior e a Cadeia Municipal, era uma construo de mau aspecto, com sete andares e feito de blocos quadrados de pedra cinzenta. Os visitantes do tribunal tinham de passar  por postos de segurana electrnicos. Em cima, no terceiro andar, encontrava-se o Tribunal Superior. Na Sala 121, onde se julgavam os assassnios, a cadeira do juiz estava encostada  parede traseira, com uma bandeira americana como pano de fundo.  esquerda da cadeira encontrava-se a bancada do jri e ao centro estavam duas mesas separadas por uma passagem:  uma para o advogado de acusao e a outra para o advogado de defesa.
 A sala de tribunal estava repleta de jornalistas e do tipo de espectadores amantes de acidentes de viao fatais e de julgamentos por assassnio. Relativamente aos julgamentos por assassnio, este era espectacular. Gus Venable, o advogado de acusao, era por si s um espectculo. Era um homem gordo, muito gordo, de cabelo grisalho comprido, pra e os modos caractersticos de um fazendeiro do Sul. Nunca esteve no Sul. Exibia um ar desgrenhado, mas o crebro de um computador. A sua marca registada, quer no Vero quer no Inverno, era um fato branco com uma camisa antiquada de colarinho engomado. O advogado de Paige Taylor, Alan Penn, era o oposto de Venable, um tubaro compacto e enrgico, que criou a fama de conseguir a absolvio para os seus clientes. Os dois homens j se tinham enfrentado antes e o relacionamento entre eles era de respeito relutante e desconfiana total. Para surpresa  de Venable, Alan Penn tinha-o ido visitar uma semana antes de o julgamento ter incio. 
- Vim c para te fazer um favor, Gus.
"Cuidado com os advogados de defesa que levam presentes. ,
- O que  que tens em mente, Alan?
- Ouve com ateno... Ainda no discuti isto com a minha cliente, mas supe, supe apenas... que consigo persuadi-la a confessar-se culpada para reduzir a pena e poupar ao Estado o custo de um julgamento...
- Ests a pedir-me para negociar?
- Sim.
Gus Venable dirigiu-se  secretria para procurar algo. - No encontro o raio do meu calendrio. Sabes que dia  hoje?
- Um de Junho. Porqu?
- Por um minuto, pensei que j estvamos no Natal, ou no me pedirias tal presente.
- Gus... - Venable inclinou-se na cadeira 
- Sabes, Alan, normalmente sentir-me-ia inclinado a concordar contigo. Para dizer a verdade, neste preciso momento gostaria de estar no Alasca a pescar. Mas a resposta  no. Ests a defender uma assassina a sangue-frio que, por dinheiro, matou um doente indefeso. Vou exigir a pena de morte.
- Penso que ela est inocente, e eu...
Venable soltou uma enorme gargalhada:
- No, no pensas nada. E ningum mais pensa assim. Este  um caso de abrir e fechar. A tua cliente  to culpada quanto Caim.
- S ser quando o jri o decidir, Gus.
- Decidi-lo-. - Fez uma pausa. - Decidi-lo-.
Depois de Alan Penn ter sado, Gus Venable sentou-se a pensar na conversa. A visita de Penn era sinal de fraqueza. Penn sabia que no tinha hipteses de ganhar o julgamento.  Gus Venable pensou nas provas irrefutveis que possua e nas testemunhas que iria chamar, e sentiu-se satisfeito. No havia qualquer dvida. A Dra. Paige Taylor iria para a
cmara de gs. No foi fcil escolher o jri. O caso tinha ocupado as primeiras pginas durante meses. O sangue-frio da assassina havia desencadeado uma onda de fria. A juza era Vanessa Young, uma inflexvel e brilhante jurista negra que, segundo constava, era a prxima indigitada para o Tribunal Supremo dos Estados Unidos. Sabia-se que era pouco tolerante com os advogados e temperamental. Havia um adgio entre os advogados de So Francisco: "Se o teu cliente  culpado e pretendes pedir clemncia, mantm-te afastado da sala de tribunal da juza Young." No dia anterior ao incio do julgamento, a juza Young chamou os dois advogados ao seu gabinete. - Senhores, vamos estabelecer algumas regras bsicas. Devido  grave natureza deste caso, estou disposta a fazer determinadas concesses para que a r obtenha um julgamento justo. Mas aviso-vos de que no podem aproveitar-se disso.
Entenderam bem?
- Sim, meritssima.
- Sim, meritssima.
Gus Venable estava a terminar o discurso de abertura:
- E assim, senhores jurados, o Estado ir provar, sim, provar sem a mnima dvida - que a doutora Paige Taylor matou o seu doente, John Cronin. E no s cometeu assassnio, mas f-lo por dinheiro... muito dinheiro. Matou John Cronin por um milho de dlares. "Acredito que depois de considerarem todas as provas, no vos ser difcil declarar a doutora Paige Taylor culpada de assassnio em primeiro grau. Obrigado. O jri ficou silencioso, imvel mas expectante. Gus Venable voltou-se para a juza:
- Meritssima, se me permitir, gostaria de chamar Gary Williams como primeira testemunha de acusao. - Aps o juramento da testemunha, o advogado perguntou:
- Voc  funcionrio do Embarcadero County Hospital?
- Sim, sou.
- Estava a trabalhar na ala trs quando John Cronin deu entrada, no ano passado?
- Sim.
- Pode dizer-nos quem era o mdico encarregado deste caso ?
- A doutora Taylor.
- Como descreveria o relacionamento entre a doutora Taylor e John Cronin ?
- Protesto! - Alan Penn levantou-se. - Ele est a obrigar a testemunha a tirar concluses.
- Concedido.
- Permita-me que pergunte de outra maneira. Alguma vez ouviu qualquer conversa entre a doutora Taylor e John Cronin?
- Certamente. No pude evitar. Trabalhei sempre nessa ala.
- Pode descrever essas conversas como amigveis?
- No, senhor.
- Verdade? Porque diz isso?
- Bem, lembro-me que no primeiro dia em que o senhor Cronin deu entrada e a doutora Taylor comeou a examin-lo, ele disse-lhe... - hesitou. - No sei se posso repetir a linguagem.
- Continue, senhor Williams. Penso que no h crianas nesta sala de tribunal.
- Bem, ele disse-lhe que tirasse a merda das mos dela de cima dele.
- Ele disse isso  doutora Taylor?
- Sim, senhor.
- Por favor diga ao tribunal tudo o que viu ou ouviu.
- Bem, ele tratava-a sempre por "aquela puta". No queria que ela se aproximasse dele. Sempre que entrava no quarto, dizia-lhe coisas como "Aqui vem de novo aquela puta!" e "Digam quela puta para me deixar em paz" e "Porque  que no me mandam um verdadeiro mdico?".
Gus Venable fez uma pausa, a fim de olhar para onde a Dra. Taylor estava sentada. Os olhos dos jurados seguiram-no. Venable abanou a cabea como se tivesse ficado triste e, em seguida, voltou-se novamente para a testemunha: 
- Parecia-lhe que o senhor Cronin era uma pessoa que queria dar um milho de dlares  doutora Taylor?
Alan Penn levantou-se de novo:
- Protesto! Mais uma vez, ele est a pedir uma opinio.
A juza Young respondeu:
- Rejeitado. A testemunha pode responder  pergunta.
Alan Penn olhou para Paige Taylor e voltou a sentar-se: - Diabo, no. Ele odiava-a.
O Dr. Arthur Kane estava no banco das testemunhas. Gus Venable disse:
-Doutor Kane, o senhor era o mdico de servio quando se descobriu que John Cronin tinha sido assass...
- olhou para a juza Young. -. . morto com insulina por via intravenosa. Est correcto?
- Sim.
- E, subsequentemente, o senhor descobriu que a mdica era a responsvel.
- Correcto.
- Doutor Kane, vou mostrar-lhe a certido de bito do hospital, assinada pela doutora Taylor. - Pegou numa folha de
papel e entregou-a a Kane. - Por favor, leia-a em voz alta.
Kane comeou a ler:
- "John Cronin. Causa da morte: A paragem respiratria ocorreu como resultado de um enfarte do miocrdio originado por uma embolia pulmonar."
- E em linguagem corrente?
- O relatrio diz que o doente morreu de ataque cardaco.
- E o papel est assinado pela doutora Taylor?
- Sim.
- Doutor Kane, foi essa a verdadeira causa de morte de John Cronin ?
- No. A injeco de insulina foi a causa da morte.
- Ento a doutora Taylor administrou uma dose fatal de insulina e depois falsificou o relatrio.
- Sim.
- E o senhor comunicou-o ao doutor Wallace, administrador do hospital, que por sua vez alertou as autoridades.
- Sim. Julguei ser o meu dever. - A voz soou indignada.
- Sou mdico. No acredito ser possvel tirar a vida de outro ser humano, qualquer que seja a circunstncia.
A testemunha seguinte foi a viva de John Cronin.
Hazel Cronin era quase quarentona, de cabelos cor de fogo e um corpo voluptuoso que o vestido preto no conseguia  dissimular. Gus Venable disse:
- Sei o quo doloroso isto deve ser para si, senhora Cronin, mas tenho de lhe pedir que descreva ao jri o seu relacionamento com o seu falecido marido.
A viva Cronin limpou os olhos com um enorme leno rendado:
- Era um homem maravilhoso. Dizia muitas vezes que eu lhe tinha dado a nica e verdadeira alegria que ele jamais sentira.
- Quantos anos esteve casada com John Cronin?
- Dois anos, mas John dizia sempre que eram como dois anos no paraso.
- Senhora Cronin, o seu marido alguma vez lhe falou da doutora Taylor? Que grande mdica ele pensava que ela era? Ou como ela lhe tinha sido prestvel? Ou o quanto gostava dela?
- Ele nunca falou dela.
- Nunca?
- Nunca.
- Alguma vez John disse que a iria retirar a si e aos seus irmos do testamento?
- Absolutamente, no. Ele era o homem mais generoso do mundo. Dizia-me sempre que no havia nada que eu no pudesse ter e que, quando morresse... - soluou, - que quando  morresse, eu seria uma mulher rica e... - no conseguiu continuar.
A juza Young interveio:
- Faremos um intervalo de quinze minutos.
Sentado no fundo da sala de tribunal encontrava-se Jason Curtis, cheio de fria. No acreditava no que as testemunhas estavam a dizer sobre Paige. "Trata-se da mulher que eu amo", pensou. "A mulher com quem vou casar." Logo aps a priso de Paige, Jason Curtis foi visit-la  cadeia.
- Vamos lutar - garantiu-lhe. - Vou arranjar-te o melhor advogado criminal do pas. - Veio-lhe imediatamente um nome  memria. Alan Penn. Jason foi visit-lo.
- Tenho seguido o caso atravs dos jornais - disse Penn. - A imprensa j a julgou e condenou pelo assassnio de John  Cronin a troco de um punhado de notas. E mais, ela admite que o  matou.
- Eu conheo-a - disse-lhe Jason Curtis. - Acredite-me, em hiptese alguma Paige faria o que fez por dinheiro.
- Uma vez que ela admite que o matou - disse Penn -, ento estamos a lidar com um caso de eutansia.
As mortes misericordiosas so contra a lei na Califrnia,  como na maioria dos estados, mas h muitos sentimentos confusos sobre isso. Posso arranjar um caso muito bom sobre Florence Nightingale que ouvia uma voz superior e todas essas merdas, mas a questo  que a sua querida senhora matou um doente que lhe deixou um milho de dlares em testamento. O que  que surgiu primeiro, a galinha ou o ovo? Ela soube do milho  antes de o matar, ou depois?
- Paige nada sabia acerca do dinheiro - disse Jason com firmeza.
A voz de Penn no era condenadora:
- Certo. Foi apenas uma coincidncia feliz. O promotor pblico apela por assassnio em primeiro grau e quer a sentena de morte.
- Aceita este caso?
Penn hesitou. Era bvio que Jason Curtis acreditava na Dra. Paige. "Tal como Sanso acreditou em Dalila." Olhou para Jason e pensou: "Ser que o desgraado do filho da puta cortou o cabelo sem saber?" Jason esperava uma resposta. - Aceito, desde que saiba que  um caso complicado.  Vai ser difcil ganhar. A afirmao de Alan Penn acabou por ser demasiado optimista. Quando o julgamento recomeou na manh seguinte, Gus Venable chamou uma srie de novas testemunhas. Uma enfermeira depunha: 
"Ouvi John Cronin dizer "Sei que vou morrer na mesa de operaes. Voc vai matar-me. Espero que a condenem por assassnio." Chegou a vez de um advogado, Roderick Pelham, testemunhar. Gus Venable interrogou-o. 
- Quando informou a doutora Taylor sobre o milho de dlares de John Cronin, o que  que ela respondeu?
- Ela disse algo como "Parece contrrio  tica. Ele era meu doente.",
- Ela admitiu ser contrrio  tica?
- Sim.
- Mas concordou em ficar com o dinheiro?
- Oh, sim. Absolutamente.
Alan Penn estava a contra-interrogar.
- Senhor Pelham, a doutora Taylor esperava a sua visita?
- Porqu, no, eu...
- O senhor no lhe telefonou e disse "John Cronin deixou-lhe um milho de dlares"?
- No, eu...
- Ento, quando lhe disse, o senhor estava na verdade cara a cara com ela?
- Sim.
- Em posio de ver a reaco dela perante as notcias.
- Sim.
- E quando a informou do dinheiro, como  que ela reagiu ?
- Bem... ela... parecia surpreendida, mas...
- Obrigado, senhor Pelham.  tudo.
O julgamento estava agora na quarta semana. Tanto os assistentes como a imprensa achavam o advogado de acusao e  o advogado de defesa fascinantes de se ver. Gus Venable trajava de branco e Alan Penn de preto, e ambos movimentavam-se pela sala do tribunal como jogadores de uma partida de xadrez mortal e coreografada, sendo Paige Taylor o peo a  sacrificar. Gus Venable estava a unir as pontas soltas.
- Se me permitirem, gostaria de chamar Alma Rogers ao banco das testemunhas.
Depois do juramento da testemunha, Venable perguntou :
- Senhora Rogers, qual  a sua profisso?
- Miss Rogers.
- Peo-Lhe perdo.
- Trabalho na Corniche Travel Agency.
- A sua agncia reserva viagens para vrios pases, reserva hotis e presta outros servios aos vossos clientes?
- Sim, senhor.
- Quero que olhe para a r. J a tinha visto antes?
- Oh, sim. Ela veio  nossa agncia de viagens h dois ou trs anos.
- E o que queria?
- Disse estar interessada numa viagem a Londres e Paris e, julgo eu, a Veneza.
- Pediu informaes sobre pacotes de viagens?
- Oh, no. Ela disse que queria tudo em primeira classe: avio, hotel. Julgo que estava interessada em alugar um iate. A sala de tribunal ficou silenciosa. Gus Venable dirigiu-se  mesa da acusao e ergueu alguns desdobrveis. - A polcia encontrou estas brochuras no apartamento da doutora Taylor. Isto so itinerrios de viagem a Paris, Londres e Veneza, brochuras de hotis e linhas areas dispendiosos e uma delas contm uma lista de preos de  aluguer de iates privados. Levantou-se um murmrio na sala. O advogado de acusao abriu uma das brochuras.
- Aqui esto alguns dos iates listados para aluguer. - Leu em voz alta. - O Christina O... vinte e seis mil dlares por semana, mais despesas de navegao... o Resolute Time, vinte  e quatro mil e quinhentos dlares por semana... o Lucky Dream, vinte e sete mil e trezentos dlares por semana. - Olhou para cima. - H uma marca de verificao  frente do Lucky Dream. Paige Taylor j tinha seleccionado o iate de vinte e sete mil e trezentos dlares por semana. Mas ainda no tinha seleccionado a vtima. - Olhou para o jri e terminou:
- gostaramos que marcassem isto como prova A. - Virou-se para Alan Penn e sorriu.
Alan Penn olhou para Paige. Esta estava plida e cabisbaixa .
- A testemunha  sua.
Penn levantou-se, evasivo mas a pensar velozmente.
- Como vai actualmente o negcio das viagens, Miss Rogers ?
- Desculpe?
- Perguntei como ia o negcio. A Corniche  uma grande agncia de viagens?
-  bastante grande, sim.
- Imagino que muita gente entra para obter informaes sobre viagens.
- Claro.
- Diria cinco ou seis pessoas por dia?
- No! - respondeu, indignada. - Falamos com cerca de cinquenta pessoas por dia acerca de marcao de viagens.
- Cinquenta pessoas por dia? - Parecia impressionado. - E o dia de que estamos a falar foi h dois ou trs anos. Se multiplicar cinquenta por novecentos dias, d cerca de quarenta e cinco mil pessoas.
- Creio que sim.
- E, no entanto, no meio de toda essa gente, voc lembrou-se da doutora Taylor. Como?
- Bem, ela e as suas amigas estavam muito entusiasmadas com a ideia de viajarem para a Europa. Achei encantador. Pareciam garotas de escola. Lembro-me muito bem delas, em particular porque no pareciam ter condies para alugar um iate. - Entendi. Suponho que quem quer que entre e pea uma brochura vai viajar?
- Bem,  claro que no. Mas...
- Na realidade, a doutora Taylor no reservou qualquer viagem, no  assim?
- Bem, no. A ns, no. Ela...
- Nem a mais ningum. Ela simplesmente pediu para ver algumas brochuras.
- Sim. Ela...
- Isso no  o mesmo que ir a Paris ou a Londres, no  verdade?
- Bem, no, mas...
- Obrigado. Pode retirar-se.
Venable voltou-se para a juza Young:
- Gostaria de chamar o Dr. Benjamin Wallace ao banco das testemunhas...
- Doutor Wallace, o senhor  o responsvel pela administrao do Embarcadero County Hospital?
- Sim.
- Assim sendo, conhece bem a doutora Taylor e o seu trabalho?
- Sim, conheo.
- Ficou surpreendido quando foi acusada de assassnio ?
Penn ergueu-se :
- Protesto, meritssima. A resposta do doutor Wallace ser irrelevante.
- Se me permitirem - interrompeu Venable. - Ser bastante relevante, se me deixarem...
- Bem, vejamos no que  que isto ir desenvolver - concedeu a juza Young. - Mas sem disparates, senhor Venable.
- Permitam-me que faa a pergunta de outro modo - continuou Venable. - Doutor Wallace, todos os mdicos so obrigados a fazer o juramento hipocrtico, no  assim?
- Sim.
- E parte desse juramento ... - o advogado de acusao comeou a ler um papel que tinha nas mos - "Devo abster-me de qualquer acto de maldade ou corrupo"?
- Sim.
- Houve alguma coisa no passado da doutora Taylor que o levasse a pensar que ela seria capaz de quebrar o juramento hipocrtico?
- Protesto!
- Rejeitado.
- Sim, houve.
- Explique-se, por favor.
- Tivemos um doente que, segundo a deciso da doutora Taylor, precisava de uma transfuso sangunea. A famlia no quis autorizar.
- E o que aconteceu?
- A doutora Taylor tomou a deciso e, de qualquer modo, fez a transfuso de sangue.
- Isso  legal?
-  claro que no. No sem a deciso do tribunal.
- E depois, o que  que a mdica fez?
- Obteve mais tarde a ordem do tribunal e alterou a data que l constava.
-Ento, ela agiu ilegalmente e falsificou o registo hospitalar para o encobrir?
- Exactamente.
Alan Penn olhou furioso para Paige. "Que mais ter ela escondido de mim", pensou.
Se os assistentes estavam  procura de algum sinal revelador de emoo no rosto de Paige Taylor, ficaram desapontados. "Fria como gelo", pensava o primeiro jurado. Gus Venable voltou-se para a juza:
- Meritssima, como sabe, uma das testemunhas que esperava chamar  um tal doutor Lawrence Barker. Infelizmente, ainda est a sofrer os efeitos de um enfarte e no pode estar
presente nesta sala de tribunal para testemunhar. No seu lugar, irei interrogar algum pessoal do hospital que tem trabalhado com o doutor Barker. Penn levantou-se :
- Oponho-me. No vejo a relevncia. O doutor Barker no est aqui, nem sequer est a ser julgado. Se...
Venable interrompeu :
- Meritssima, garanto-lhe que o meu questionrio  bastante relevante para o testemunho que acabmos de ouvir. Est  tambm ligado  competncia da r como mdica.
A juza Young respondeu cptica:
- Vejamos. Isto  uma sala de tribunal e no um rio.
No irei permitir pescarias. Pode chamar as suas testemunhas.
- Obrigado.
Gus Venable voltou-se para o oficial de diligncias:
- Gostaria de chamar o doutor Mathew Peterson.
Um sexagenrio, de aspecto elegante, dirigiu-se ao banco das testemunhas. Fez o juramento e, quando se sentou, Gus Venable perguntou:
- Doutor Peterson, h quanto tempo trabalha no Embarcadero County Hospital?
- Oito anos.
- E qual  a sua especialidade?
- Sou cirurgio cardaco.
-E desde que trabalha no Embarcadero County Hospital, teve a oportunidade de trabalhar com o doutor Lawrence Barker?
- Muitas vezes.
- O que pensa dele?
- O mesmo que toda a gente. Provavelmente,  excepo de De Bakey e Cooley, o doutor Barker  o meIhor cirurgio do  mundo.
- Estava presente na sala na manh em que a doutora Taylor operou um doente chamado... - fingiu consultar uma folha de papel - Lance Kelly?
O tom de voz da testemunha alterou-se:
- Sim, estava.
-  capaz de descrever o que aconteceu nessa manh?
Peterson respondeu com relutncia:
- Bem, as coisas comearam a correr mal. Comemos a perder o doente.
- Quando diz "perder o doente..."...
- O corao dele parou. Estvamos a tentar reanim-lo e... - O doutor Barker tinha sido chamado?
- Sim.
- E ele entrou na sala de operaes enquanto a operao decorria?
- Prximo do fim. Sim. Mas j era tarde para fazer o que quer que fosse. No conseguimos reanimar o doente.
- E nessa altura, o doutor Barker disse alguma coisa  doutora Taylor?
-Bem, estvamos todos bastante transtornados, e... - Perguntei-lhe se o doutor Barker disse alguma coisa  doutora Taylor.
- Sim.
- E o que  que ele disse?
Houve uma pausa e, a meio desta, caiu l fora um relmpago, como se fosse a voz de Deus. Um instante mais tarde, rebentou a tempestade e a chuva batia fortemente no telhado do tribunal.
- O doutor Barker disse: "Mataste-o".
Houve um alvoroo entre os espectadores. A juza Young bateu com o martelo:
- Basta! Ser que vivem nas cavernas? Mais uma exploso como esta e sero todos postos l fora  chuva.
Gus Venable esperou que a barulheira terminasse.
Quando o silncio retornou, perguntou:
- Tem a certeza de que foi isso que o doutor Barker disse   Doutora Taylor? "Mataste-o".
- Sim.
- E o senhor testemunhou que o doutor Barker era um homem cuja opinio mdica tinha valor?
- Oh, sim.
- Obrigado.  tudo, doutor. - Virou-se para Alan Penn: - A testemunha  sua.
Penn ergueu-se e aproximou-se do banco das testemunhas.
- Doutor Peterson, nunca assisti a uma operao, mas imagino que existe muita tenso, em especial quando se refere a algo to srio quanto uma operao ao corao.
- Existe uma grande tenso.
- Num momento como esse quantas pessoas se encontram na sala? Trs ou quatro?
- No. Sempre meia dzia ou mais.
- Verdade?
- Sim. Normalmente esto dois cirurgies, um assistente, por vezes dois anestesistas, uma enfermeira para limpar e pelo menos uma enfermeira que circula de um para o outro lado.
- Entendi. Ento, deve haver muito barulho e excitao. Pessoas a dar instrues, etc.
- Sim.
- E, "pelo que sei,  prtica vulgar haver msica durante a operao.
- .
- Quando o doutor Barker entrou e viu que Lance Kelly estava a morrer, talvez isso tenha aumentado a confuso.
- Bem, todos estavam bastante ocupados a tentar salvar o doente.
- A fazer muito barulho?
- Havia muito barulho, sim.
- E contudo, no meio de tanta confuso e barulho, sem esquecer a msica, o senhor conseguiu ouvir o doutor Barker dizer que a doutora Taylor tinha morto o doente. Com tanta excitao, pode estar errado, no pode?
- No, senhor. No posso estar errado.
- Como  que pode ter tanta certeza?
O doutor Peterson suspirou:
- Porque eu estava mesmo ao lado do doutor Barker quando ele o disse.
No havia qualquer possvel sada airosa.
- No tenho mais perguntas.
O caso desmoronava-se e ele nada podia fazer. E estava prestes a piorar.
Denise Berry subiu ao banco das testemunhas.
- enfermeira no Embarcadero County Hospital?
- Sim.
- H quanto tempo trabalha l?
- Cinco anos.
- Durante esse tempo, alguma vez ouviu conversas entre a doutora Taylor e o doutor Barker?
- Sim. Vrias vezes.
-  capaz de repetir alguma delas?
A enfermeira olhou para a Dra. Taylor e hesitou:
- Bem, por vezes o doutor Barker era muito rspido...
- No foi isso que perguntei, enfermeira Berry. Pedi-lhe que nos contasse coisas especficas que tenha ouvido dizer  doutora Taylor.
Houve uma pausa prolongada:
- Bem, uma vez ele disse que ela era incompetente e...
Gus Venable mostrou-se surpreendido:
- A senhora ouviu o doutor Barker dizer que a doutora Taylor era incompetente?
- Sim, senhor. Mas ele estava sempre...
- Que outros comentrios o ouviu fazer acerca da doutora Taylor?
A testemunha estava relutante em falar:
- No consigo lembrar-me.
- Miss Berry, a senhora encontra-se sob juramento.
- Bem, uma vez ouvi-o dizer... - O resto da frase foi um murmrio.
- No conseguimos ouvi-la. Fale mais alto, por favor.
Ouviu-o dizer o qu?
- Disse... que no deixaria a doutora Taylor operar o co dele.
Houve uma exclamao colectiva na sala.
- Mas tenho a certeza que ele apenas queria dizer...
-Julgo que podemos deduzir que o doutor Barker queria dizer o que disse.
Todos tinham os olhos postos em Paige Taylor. O caso da acusao contra Paige parecia esmagador. Contudo, Alan Penn tinha a reputao de ser mestre da magia  na sala de tribunal. Era agora a sua vez de apresentar o caso da r. Conseguiria ele retirar outro coelho do seu chapu? Paige Taylor encontrava-se no banco das testemunhas, a ser questionada por Alan Penn. Este era o momento que todos esperavam.
-John Cronin era seu doente, doutora Taylor?
- Sim, era.
- E o que pensava dele?
- Gostava dele. Sabia que estava muito doente, mas era bastante corajoso. Tinha sido operado a um tumor cardaco.
- Foi a senhora quem procedeu  operao cardaca?
- Sim.
- E que descobriu durante a operao?
- Quando lhe abrimos o trax, descobrimos que sofria de melanoma, que se tinha disseminado por metstase.
- Por outras palavras, cancro que se tinha alastrado por todo o organismo.
- Sim. Tinha-se disseminado por metstase atravs de todas as glndulas linfticas.
- Isso significa que no havia esperana para ele? Nenhuma medida herica que pudesse faz-lo voltar a ser saudvel ?
- Nenhuma.
- John Cronin foi ligado a sistemas de suporte de vida?
- Sim, foi isso.
- Doutora Taylor, a senhora administrou deliberadamente uma dose fatal de insulina, a fim de acabar com a vida de John Cronin?
- Sim.
Houve um murmrio sbito na sala de tribunal. "Ela  mesmo fria", pensou Gus Venable. "Fala de uma maneira que at parece que lhe deu uma chvena de ch. 
-  capaz de dizer ao jri porque  que acabou com a vida de John Cronin?
- Porque ele me pediu. Ele implorou-me. Mandou-me chamar a meio da noite, sob dores terrveis. Os medicamentos que lhe dvamos j no actuavam. - A voz soava calma: - Disse que no queria sofrer mais. A sua morte s aconteceu alguns dias mais tarde. Implorou-me para que acabasse com a sua vida. Eu assim o fiz.
-Doutora, sentiu relutncia em deix-lo morrer? Qualquer sentimento de culpa? 
A Dra. Paige Taylor abanou a cabea:
- No. Se o tivessem visto... Simplesmente no havia razo para deixar que continuasse a sofrer.
- Como  que administrou a insulina?
- Injectei-lha nas veias.
- E isso causou-lhe qualquer dor suplementar?
-No. Simplesmente fechou os olhos para dormir.
Gus Venable levantou-se:
- Protesto! Penso que a r quer dizer que ele foi arrastado para a morte! Eu...
A juza Young bateu com o martelo na mesa:
- Doutor Venable, o senhor esgotou o seu tempo.
Ainda ter a oportunidade de contra-interrogar a testemunha. Sente-se. O advogado de acusao olhou para o jri, abanou a cabea e voltou a sentar-se. 
- Doutora Taylor, quando a senhora administrou insulina a John Cronin, sabia que ele a tinha includo no testamento e receberia um milho de dlares?
- No. Fiquei espantada quando o soube.
" "O nariz dela deveria crescer,", pensou Gus Venable. - At essa altura, nunca tinha falado de dinheiro ou presentes ou pedido alguma coisa a John Cronin? Um leve rubor atingiu-lhe as faces:
- Nunca!
-Mas tinha um relacionamento amigvel com ele?
- Sim. Quando um paciente est naquele estado, a relao mdico-doente muda. Falvamos de problemas relacionados com  os negcios e com a famlia dele.
- Mas tinha algum motivo para esperar algo dele?
- No.
- Ele deixou-lhe esse dinheiro por ter aprendido a respeit-la e a confiar em si. Obrigado, doutora Taylor.
- Penn voltou-se para Gus Venable: - A testemunha  sua.
Enquanto Penn regressava  mesa da defesa, Paige Taylor olhou para o fundo da sala. Ali estava Jason sentado, esforando-se por parecer encorajador. Ao seu lado encontrava-se Honey. Ao lado desta estava um desconhecido, sentado no lugar que deveria ser ocupado por Kat. "Se ela ainda fosse viva. Mas Kat morrera", pensou Paige. "Tambm a matei." Gus Venable levantou-se e dirigiu-se lentamente ao banco das testemunhas. Olhou para as fileiras da imprensa. No havia lugares vagos e todos os jornalistas estavam ocupados a escrever. "Vou dar-vos algo sobre o qual podero escrever",, pensou Venable. Permaneceu diante da r durante um longo momento, a estud-la. Depois disse casualmente:
- Doutora Taylor... John Cronin foi o primeiro doente que a
senhora matou no Embarcadero County Hospital?
Alan Penn ps-se em p, furioso:
- Meritssima, eu. . .
A juza Young j fizera soar o martelo:
- Protesto aceite! - Voltou-se para os dois advogados:
- Vamos fazer um intervalo de quinze minutos.
Quero reunir-me convosco no meu gabinete.
Quando os dois advogados j se encontravam no gabinete, a juza Young virou-se para Gus Venable:
- Voc tirou mesmo o curso de direito, ou no, Gus?
- Peo desculpa, meritssima. Eu...
- Viu alguma tenda l fora?
- Perdo ?
A voz soou zangada:
- A minha sala de tribunal no  um circo e no tenciono permitir que a transforme num. Com que direito faz uma pergunta to explosiva como essa?
- Peo desculpa, meritssima. Farei a pergunta de outro modo e...
- Ir fazer mais do que isso! - afirmou Young. - Vai mudar a sua atitude. Estou a avisar-lhe, d mais uma golpada destas e declaro o processo nulo.
- Sim, meritssima.
Quando regressaram  sala de tribunal, a juza Young disse ao jri:
- O jri ir ignorar completamente a ltima pergunta da acusao. - E, virando-se para o advogado de acusao: - Pode continuar. Gus Venable tornou a dirigir-se ao banco das testemunhas :
- Doutora Taylor, deve ter ficado muito surpreendida quando foi informada de que o homem que matou lhe tinha deixado um milho de dlares.
Alan Penn levantou-se:
- Protesto !
- Aceite. - A juza Young virou-se para Venable:
- O senhor est a testar a minha pacincia.
- Peo desculpa, meritssima. - Voltando-se de novo para a testemunha: - Deve ter tido uma relao muito amigvel com o seu doente. Quero dizer, no  todos os dias que uma pessoa quase totalmente estranha nos deixa um milho de dlares, no  assim? Paige Taylor corou ligeiramente:
- A nossa amizade acontecia apenas no contexto da relao mdico-doente.
- Ser que no foi algo mais do que isso? Um homem no retira a esposa e a famlia do testamento para deixar um milho de dlares a uma estranha, sem qualquer tipo de persuaso. As conversas sobre problemas de negcios que afirmou ter tido com ele...
A juza inclinou-se para a frente e disse em tom de aviso: 
- Doutor Venable... - O advogado ergueu as mos em sinal de rendio. Voltou-se de novo para a r:
- Assim, a senhora e John Cronin tiveram uma conversa amigvel. Ele contou-lhe coisas pessoais, gostava de si e respeitava-a. Diria que isto  um resumo justo, doutora?
- Sim.
- E por fazer isso, ele deu-lhe um milho de dlares?
Paige olhou para a sala de tribunal. Nada disse. No tinha resposta.
Venable comeou a caminhar em direco  mesa da acusao e, subitamente, tornou a virar-se para a r.
- Doutora Taylor, h pouco a senhora afirmou que desconhecia que John Cronin iria deixar-lhe dinheiro, ou que iria retirar a famlia do testamento.
- Sim, afirmei.
- Quanto ganha um mdico residente no Embarcadero County Hospital?
Alan Penn levantou-se:
- Protesto! No vejo...
-  uma pergunta correcta. A testemunha pode responder.
- Trinta e oito mil dlares por ano.
Venable replicou compreensivamente:
- No  muito para os dias de hoje, ou ? E desse valor so  deduzidos os impostos e as despesas do dia-a-dia. No poder  sobrar o suficiente para fazer uma viagem de luxo, digamos, a  Londres, Paris ou Veneza, no  assim?
- Suponho que no.
- No. Ento, a senhora no planeou fazer umas frias destas, porque sabia que no conseguia pag-las.
- Sim.
Alan Penn levantou-se novamente:
- Meritssima...
A juza Young voltou-se para o advogado de acusao:
- Aonde  que isto vai dar, doutor Venable?
- Quero apenas sublinhar que a r no podia planear uma viagem de luxo sem obter o dinheiro de algum.
- Ela j respondeu  pergunta.
Alan Penn sabia que tinha de fazer qualquer coisa. No sentia o que pensava, mas aproximou-se do banco das testemunhas, com o aspecto alegre de um homem que acabou de ganhar a lotaria.
- Doutora Taylor, lembra-se de ter ido buscar estas brochuras de viagens?
- Sim.
- Planeava ir  Europa ou alugar um iate?
-  claro que no. Tudo isso faz parte de uma espcie de brincadeira, de um sonho impossvel. Eu e as minhas amigas julgmos que nos iria levantar o esprito. Estvamos muito cansadas,... na altura, parecia uma boa ideia. - A voz foi-se extinguindo.
Alan Penn olhou disfaradamente para o jri. Os rostos registavam a descrena total. Gus Venable questionava a r num novo exame:
- Doutora Taylor, conhece o doutor Lawrence Barker?
A imagem veio-lhe subitamente  memria. "Vou matar Lawrence Barker. F-lo-ei lentamente. Deix-lo-ei sofrer primeiro... e depois mat-lo-ei."
- Sim, conheo o doutor Barker.
- Com que ligao?
- Eu e o doutor Barker trabalhmos muitas vezes juntos durante os ltimos dois anos.
- Diria que ele  um mdico competente?
Alan Penn deu um salto da cadeira:
- Oponho-me, meritssima. A testemunha...
Mas, antes de poder acabar ou a juza Young determinar, Paige respondeu:
-  mais do que competente.  brilhante.
Penn voltou a sentar-se, demasiado estupefacto para falar.
- Importa-se de se explicar?
- O doutor Barker  um dos mais famosos cirurgies cardiovasculares do mundo. Tem uma enorme actividade privada mas dispensa trs dias por semana ao Embarcadero County Hospital.
- Ento, a senhora tem em grande considerao os juzos emitidos pelo doutor Barker relativamente a assuntos mdicos.
- Sim.
- Acha que ele seria capaz de julgar a competncia de outro mdico ?
Penn esperou que Paige respondesse "No sei".
Ela hesitou:
- Sim.
Gus Venable virou-se para o jri: 
- Ouviram a r dizer que tinha em grande considerao os juzos mdicos do doutor Barker. Espero que ela tenha  escutado atentamente o juzo do doutor Barker sobre a sua prpria
competncia... Ou a falta dela. Alan Penn levantou-se, furioso:
- Objeco !
- Concedida.
Mas j era tarde. O mal estava feito. No intervalo seguinte, Alan Penn empurrou Jason para a casa de banho dos homens.
- Em que  que me meteste? - perguntou Penn zangado. - John Cronin odiava-a, Barker odiava-a. Insisto que os meus  clientes me digam a verdade, toda a verdade. S assim os posso ajudar. Bem, no posso ajud-la. A tua  amiga encarregou-me de um trabalho sobre neve to profunda que preciso de esquis. Sempre que abre a boca, coloca mais um prego no caixo dela. A merda deste caso est em queda livre. Nessa tarde, Jason Curtis foi visitar Paige. 
- Tem uma visita, doutora Paige.
Jason entrou na cela de Paige.
- Paige...
Voltou-se para ele, tentando esconder as lgrimas: 
- Est feito, no est?
Jason esboou um sorriso:
- Conheces aquele provrbio... "At ao lavar dos cestos  vindima".
- Jason, tu no acreditas que matei John Cronin por dinheiro, acreditas? O que fiz, fi-lo apenas para o ajudar.
- Acredito em ti - disse Jason, baixinho. - Amo-te.
Tomou-a nos braos. "No quero perd-la", pensou Jason.
"No posso. Ela  a melhor coisa da minha vida - Tudo h-de acabar bem. Prometi-te que ficaramos juntos para sempre. Paige abraou-o com fora e pensou: "Nada  eterno. Nada. Como  que tudo comeou a correr to mal... to mal... to mal...".


So Francisco
Julho de 1990

- Hunter, Kate.
- Presente.
- Taft, Betty Lou - Estou aqui.
- Taylor, Paige.
- Presente.
Elas eram as nicas mulheres entre o enorme grupo de residentes do primeiro ano, reunidos no amplo e enfadonho auditrio do Embarcadero County Hospital. O Embarcadero County era o hospital mais antigo de So Francisco e de todo o pas. Durante o terramoto de 1989, Deus pregou uma partida aos habitantes de So Francisco e deixou o hospital de p. Era um complexo " feio que ocupava mais de trs quarteires, com edifcios de tijolo e pedra j escurecidos pela sujidade acumulada durante anos. No interior da entrada dianteira do edifcio principal encontrava-se uma enorme sala de espera, com bancos de  madeira para doentes e visitas. As paredes escamavam devido a demasiadas dcadas de camadas de tinta e os corredores  estavam gastos e irregulares devido aos milhares de doentes em cadeiras de rodas e muletas. Todo o complexo estava coberto pela ptina bolorenta do tempo. O Embarcadero County Hospital era uma cidade dentro da cidade. Mais de nove mil pessoas trabalhavam no hospital, incluindo quatrocentos mdicos internos, cento e cinqenta mdicos voluntrios em tempo parcial, oitocentos residentes, trs mil enfermeiras, mais os tcnicos, unidades auxiliares e outro pessoal ajudante. Os andares superiores continham um complexo de doze salas de operaes, abastecimento central, banco de ossos, central de programao, trs enfermarias de urgncia, uma enfermaria de PRIMEIRos socoRRos e mais de duas mil camas. No primeiro dia da chegada dos novos residentes, em Julho, o Dr. Benjamin Wallace, administrador do hospital, ergueu-se para lhes dirigir a palavra. Wallace era um poltico  perfeito, um homem alto de aspecto impressionante, com conhecimentos gerais e charme suficiente para conseguir subir e ocupar a actual posio.
- Esta manh quero dar as boas-vindas a todos vs, novos residentes. Durante os dois primeiros anos na faculdade de medicina vocs trabalharam com cadveres.
Nos dois ltimos anos trabalharam com doentes hospitalizados, sob orientao de mdicos chefes. Agora, vocs mesmos sero  os responsveis pelos vossos doentes.  uma responsabilidade aterradora e  preciso dedicao e percia. O olhar percorreu o auditrio:
- Alguns de vs pretendem especializar-se em cirurgia.
Outros, em medicina interna. A cada grupo ser atribudo um residente mais antigo, que ir explicar-vos a rotina diria. De agora em diante, tudo o que possam fazer poder ser um  caso de vida ou de morte. Todos escutavam com a mxima ateno, procurando captar cada palavra dita.
- O Embarcadero  um hospital municipal. Isso significa que admitimos todos aqueles que nos batem  porta. A maior parte dos doentes so pobres. Vm aqui porque no podem pagar um hospital particular. As nossas salas de urgncia esto ocupadas vinte e quatro horas por dia. Iro ter muito  trabalho e sentir que so mal pagos. Num hospital particular, o vosso primeiro ano consistiria em trabalho de rotina de pouca importncia. No segundo ano, ser-vos-ia permitido fazer cirurgia menor, supervisionada. Bem, podem esquecer tudo  isso.
O nosso lema aqui  "Examinar, fazer, ensinar". "Temos muita falta de pessoal e quanto mais rpido vos conseguirmos meter nas salas de operaes, melhor. Alguma pergunta ? Havia milhares de perguntas que os novos residentes desejavam fazer.
- Nenhuma? Muito bem. Oficialmente, o vosso primeiro dia comea amanh. Tero de se apresentar ao balco da recepo principal, amanh de manh s cinco e meia. Boa sorte!
A reunio estava terminada. Houve um xodo geral em direco s portas e um murmurinho de conversas excitadas. As trs mulheres viram-se reunidas.
- Onde esto todas as outras mulheres?
- Penso que somos s ns.
-  muito parecido com a faculdade de medicina, oh?
O clube dos rapazes. Tenho a sensao de que este lugar pertence  Idade Mdia.
A pessoa que falava era uma perfeita e bela mulher negra, com cerca de um metro e setenta de altura, ossos largos, mas bastante graciosa. Tudo nela, o andar, a postura, o olhar  frio
e irnico que possua, transmitia uma mensagem de  indiferena.
- Chamo-me Kate Hunter. Todos me tratam por Kat.
- Paige Taylor. - Jovem e social, de olhar inteligente e segura de si.
Voltaram-se para a terceira mulher.
- Betty Lou Taft. Todos me tratam por Honey. - Falou com um ligeiro sotaque do Sul. Possua um rosto aberto e sincero, olhos cinzentos claros e um sorriso caloroso.
- De onde s? - perguntou Kat.
- Mnfis, Tennessee.
Olharam para Paige. Esta decidiu responder simplesmente :
- Bston.
- Minneapolis - disse Kat. "Fica suficientemente perto", pensou.
- Pelos vistos estamos todas longe de casa - observou Paige.
- Onde ests a viver?
- Estou num hotel barato - disse Kat. - Ainda no tive tempo de procurar um stio para morar.
Honey afirmou :
- Nem eu.
Paige alegrou-se :
Esta manh fui ver alguns apartamentos. Um deles era espantoso, mas est fora das minhas possibilidades. Tem trs quartos. Olharam umas para as outras.
- Se as trs o compartilhssemos... - disse Kat.
O apartamento situava-se no distrito da Marina, na Filbert Street. Era perfeito para elas. Trs quartos, duas casas de banho, sala, cozinha, lavandaria, parque de estacionamento. Era mobilado no estilo Sears Roebuck, mas estava bastante limpo. Quando as trs mulheres terminaram de o inspeccionar, Honey disse:
- Acho-o maravilhoso.
- Tambm eu! - concordou Kat.
Olharam para Paige.
- Vamos ficar com ele.
Nessa tarde mudaram-se para o apartamento. O porteiro ajudou-as a levar a bagagem para cima.
- Ento vocs vo trabalhar no hospital - disse.
- Enfermeiras, hem?
- Mdicas - corrigiu Kat.
Olhou para ela incrdulo:
-Mdicas? Quer dizer, como verdadeiras mdicas?
- Sim, verdadeiras mdicas - respondeu-lhe Paige.
Ele resmungou:
- Para dizer a verdade, se eu precisar de um mdico, penso que no havia de querer que uma mulher examinasse o meu  corpo.
- Teremos isso em mente.
- Onde est o aparelho de televiso? - perguntou Kat. - No vejo nenhum.
- Se quiserem um, tero de o comprar. Gozem o apartamento, senhoras enf..., doutoras. - Deu um risinho.
Elas ficaram a v-lo ir-se embora.
Kat disse, imitando-lhe a voz:
-Enfermeiras, eh? - Riu com desdm. - Macho chauvinista.
Bom, vamos escolher os nossos quartos.
- Qualquer um est bem para mim - disse gentilmente Honey. 
Examinaram os trs quartos. O quarto de casal era maior do que os outros dois.
Kat sugeriu :
- Porque no ficas tu com ele, Paige? Tu encontraste este lugar.
Paige abanou a cabea:
- Est bem.
Dirigiram-se todas aos respectivos quartos e comearam a arrumar as coisas. Cuidadosamente, Paige retirou da mala uma fotografia emoldurada de um homem com cerca de trinta anos. Era atraente e usava culos de armao preta, o que lhe dava um ar estudantil. Paige colocou a fotografia na cabeceira, juntamente com um monte de cartas. Kat e Honey entraram:
- Que tal sairmos para jantar qualquer coisa?
- Estou pronta - disse Paige.
Kat viu a fotografia:
- Quem ?
Paige sorriu :
-  o homem com quem vou casar.  um mdico que trabalha para a Organizao Mundial de Sade. Chama-se Alfred Turner.
Neste momento est em frica, mas h-de vir a So Francisco para estarmos juntos.
- Sorte a tua - disse Honey, tristonha. -  bonito.
Paige olhou para ela:
- Ests envolvida com algum?
- No. Acho que no tenho muita sorte com os homens.
- Talvez a tua sorte mude no Embarcadero - disse Kat. 
As trs jantaram no Tarantino's, prximo do apartamento.  Durante o jantar conversaram sobre o passado e a vida de cada uma, mas sentia-se inibio na conversa, uma barreira. Eram trs estranhas a examinar e conhecerem-se cuidadosamente umas s outras. Honey falou pouco. " envergonhada,", pensou Paige. "E vulnervel. Provavelmente algum homem de Mnfis despedaou-lhe o corao." Paige olhou para Kat. "Segura de si. Muita dignidade.
Gosto do modo como fala. V-se que ven de boas famlias. ", Entretanto, Kat estava a estudar Paige. "Uma rapariga rica que nunca teve de lutar por nada na vida.  isso que aparenta ser. Honey estava a olhar para as outras duas. "So to confiantes, to seguras de si mesmas. Ser-lhes- fcil adaptarem-se a esta vida." Todas estavam erradas. Quando regressaram ao apartamento, Paige estava demasiado excitada para adormecer. Deitou-se na cama a pensar no  futuro. L fora, na rua, ouviu-se o estrondo de um acidente de automvel e depois pessoas a gritar, mas, na mente de Paige, tudo se dissolveu na lembrana de nativos africanos a gritar  e a cantar melancolicamente enquanto se disparavam tiros. Foi transportada pelo tempo para a pequena aldeia da selva da frica Oriental, no meio de uma mortfera guerra tribal. Paige estava aterrorizada: 
- Vo-nos matar!
O pai abraou-a:
- Querida, ningum ir fazer-nos mal. Estamos aqui para os ajudar. Eles sabem que somos amigos.  E, sem aviso prvio, o chefe de uma das tribos penetrou na cabana...
Honey deitou-se, pensativa: "Isto  realmente muito longe de Mnfis, Tennessee, Betty Lou. Acho que nunca mais vou  poder voltar para l. Nunca mais." Ainda ouvia a voz do xerife a
dizer-lhe:
- Por respeito  famlia dele, vamos declarar a morte do reverendo Douglas Lipton como "suicdio por razes desconhecidas",, mas sugiro que saias imediatamente desta cidade e no voltes nunca mais...
Kat olhava para a janela do quarto, escutando os rudos da cidade. Conseguia ouvir a chuva murmurar: "Conseguiste... Conseguiste... Provaste a todos que estavam enganados. Queres
ser mdica? Uma mdica negra? E as rejeies das faculdades  de medicina". "Obrigada por nos ter enviado a sua proposta. Desta vez, infelizmente, as matrculas esto completas."; "Tendo em conta o seu passado, pensamos que talvez se sentisse melhor numa universidade mais pequena." Tinha tido notas elevadas mas, das vinte e cinco escolas a que concorreu, s uma a aceitou. O reitor da escola tinha-lhe dito :
- Nos dias de hoje,  bom ver algum com um passado normal e decente.
"Se ele tivesse sabido a terrvel verdade." s cinco e meia da manh seguinte, quando os novos residentes deram entrada, j l se encontravam membros do pessoal hospitalar a fim de os conduzir aos respectivos encargos. Mesmo quela hora da manh j havia confuso. Os doentes deram entrada durante toda a noite, chegando de ambulncia, carros da polcia e a p. O pessoal chamava-os de "N's e A's" - os nufragos e despojados que corriam para as salas de urgncia, feridos e a sangrar, vtimas de tiros e facadas e acidentes de automvel, os feridos na carne e esprito, os desalojados e indesejveis, o fluxo e refluxo da
humanidade que corriam pelos esgotos escuros de qualquer cidade grande. Tinha-se uma profunda sensao de caos organizado, movimentos frenticos e sons esganiados e dzias de crises inesperadas que tinham de ser atendidas de imediato. Os novos residentes mantiveram-se em grupo preventivo, procurando familiarizar-se com o novo ambiente e escutando os misteriosos sons  sua volta. Honey levantou a cabea e disse:
- Sou eu.
O residente sorriu e estendeu a mo:
-  uma honra conhec-la. Pediram-me que a procurasse. O nosso chefe de pessoal diz que a senhora tem as notas mais altas de medicina desde sempre neste hospital. Estamos satisfeitos por a termos c. Honey sorriu, embaraada:
- Obrigada.
Kat e Paige olharam para Honey, boquiabertas. "Nunca pensei que fosse assim to brilhante, pensou Paige.
-Est a pensar seguir medicina interna, doutora Taft?
- Sim.
O residente voltou-se para Kat - Doutora Hunter?
- Sim.
- A senhora est interessada em neurocirurgia.
- Sim, estou.
Consultou uma lista:
- Ficar ao servio do doutor Lewis. - Voltou-se para Paige:
- Doutora Taylor?
- Sim.
- A senhora vai seguir cirurgia cardaca.
- Sim.
- Certo. Iremos integr-la a si e  doutora Hunter nas rondas operatrias. Podem dirigir-se ao gabinete da enfermeira-chefe, Margaret Spencer. Ao fundo do vestbulo.
- Obrigada.
Paige olhou para as colegas e respirou profundamente:
- Aqui vou eu! Desejo boa sorte a todas ns!
Margaret Spencer era mais um tanque de guerra do que uma mulher, de aspecto pesado e severo, com modos bruscos. Estava ocupada atrs do balco da enfermaria quando Paige se aproximou.
- Por favor. . .
A enfermeira Spencer levantou a cabea:
- Sim ?
- Mandaram-me apresentar aqui. Sou a doutora Taylor.
A enfermeira Spencer consultou uma folha de papel:
- Um momento. - Entrou por uma porta e regressou um minuto mais tarde com alguns artigos de limpeza e uma capa branca.
- Aqui est. Os artigos so para utilizar na sala de operaes e sobre ferimentos. E quando estiver de servio, cubra-os com uma capa branca.
- Obrigada.
- Oh. E isto aqui. - Baixou-se e entregou a Paige uma placa metlica que dizia "Paige Taylor, M. D. - Eis a placa com o seu nome, doutora.
Paige segurou-a na mo e olhou para ela durante um longo perodo de tempo. "Paige Taylor, M. D. Teve a sensao de que lhe tinham dado a medalha de honra. Todos os longos e duros anos de trabalho e estudos tinham-se resumido naquelas breves palavras: "Paige Taylor, M. D. A enfermeira Spencer olhava para ela:
- Sente-se bem?
- Estou bem. - Paige sorriu. - Estou bem, obrigada. Onde posso...
- O vestirio dos mdicos fica ao fundo do corredor,  esquerda. Ir fazer rondas e, por isso, querer trocar de roupa.
- Obrigada.
Paige percorreu o corredor, admirada com a grande actividade  sua volta. O corredor estava cheio de mdicos, enfermeiras, ajudantes e doentes, que se dirigiam com rapidez para vrios destinos. As insistentes chamadas do sistema de altifalantes aumentavam a algazarra. "Doutor Keenan... SO Trs... Doutor Keenan... SO Trs; "Doutor Talbot... Sala de Urgncias Um. Stat... Doutor Talbot... Sala de Urgncias Um. Stat; "Doutor Engel... Quarto 212... Dr. Engel... Quarto 212. Paige aproximou-se de uma porta onde se lia vEstIRIO DOS
MDICOS e abriu-a. No interior encontrava-se uma dzia de mdicos a trocar de roupa, uns mais despidos que outros. Dois deles estavam completamente nus. Voltaram-se para olharem para Paige quando a porta se abriu. - Oh! Peo... Peo desculpa - murmurou Paige, fechando a porta  pressa. Permaneceu ali, sem saber o que fazer. Alguns metros mais abaixo viu uma porta onde se lia VESTIRIO DAS ENFERMEIRAS. Encaminhou-se para ela e abriu a porta. L dentro, vrias enfermeiras vestiam o uniforme. Uma delas olhou para cima:
- Ol.  uma das enfermeiras novas?
- No - respondeu Paige, envergonhada. - No sou. - Fechou a porta e regressou ao vestirio dos mdicos. Permaneceu ali  por um momento, em seguida respirou fundo e entrou. A conversa parou.
Um dos homens observou:
- Desculpa, querida. Este quarto  para mdicos.
- Eu sou mdica - respondeu Paige.
Olharam uns para os outros:
- Oh? Bem, hum... bem-vinda.
- Obrigada. - Hesitou um momento e depois dirigiu-se a um cacifo livre. Olhou por um instante para os homens e depois, lentamente, comeou a desabotoar a blusa. Os mdicos ali ficaram, sem saber o que fazer. Um deles disse:
-Talvez devssemos hum... dar  senhorinha um pouco de privacidade, meus senhores.
A senhorinha !
- Obrigada - agradeceu Paige. Ali ficou,  espera, enquanto os mdicos acabavam de se vestir e abandonavam o quarto. 
"Terei de passar por isto todos os dias?", interrogou-se. Nas rondas hospitalares existe uma formao que nunca varia. O mdico de servio est sempre  cabea, seguido do  residente chefe, depois os outros residentes e um ou dois estudantes de medicina. O mdico de servio a quem Paige fora atribuda era o Dr. William Radnor. Paige e cinco outros residentes estavam reunidos no vestbulo,  espera dele. No grupo encontrava-se um jovem mdico chins. Estendeu a mo:
- Tom Chang - disse. - Espero que todos estejam to nervosos quanto eu.
Paige gostou imediatamente dele. Um homem aproximou-se do grupo:
- Bom dia - disse. - Sou o doutor Radnor. - Era uma pessoa de falas mansas e cintilantes olhos azuis. Cada um dos residentes apresentou-se.
- Este  o vosso primeiro dia de rondas. Quero que prestem muita ateno a tudo o que virem e ouvirem, mas, ao mesmo tempo,  muito importante que tentem parecer calmos. Paige fez um apontamento mental: Presta muita ateno, mas tenta parecer calma.
- Se os doentes notarem que esto tensos tambm ficaro tensos e, provavelmente, pensaro que esto a padecer de alguma doena que vocs lhes querem omitir. - "No tornes os  doentes tensos." - Lembrem-se, daqui em diante sero  responsveis pela vida de outros seres humanos. Agora s responsvel por outras vidas. Oh, meu Deus! Quanto mais o Dr. Radnor falava, mais nervosa Paige ficava e, quando este terminou, a sua autoconfiana tinha desaparecido totalmente. No estou pronta para isto! pensou. No sei o que estou a fazer. Quem disse que eu podia ser mdica? E se eu matar algum? O Dr. Radnor continuou:
-Ficarei  espera de relatrios pormenorizados de cada um dos vossos doentes... anlises, electrlitos, tudo.
Entendido?
Houve um murmrio de "Sim, doutor."
- H sempre trinta a quarenta doentes operados de cada vez.
 vosso dever certificarem-se de que tudo est devidamente organizado para eles. Vamos agora dar incio  ronda da  manh.  tarde repetiremos a ronda. Tudo parecia ser to fcil na faculdade de medicina. Paige pensou nos quatro anos que ali passou. Eram cento e cinquenta estudantes, entre os quais apenas quinze muLheres. Nunca mais iria esquecer a primeira aula de Anatomia Macroscpica. Os estudantes tinham entrado numa enorme sala  de azulejos brancos, com vinte mesas dispostas em filas, cada  uma das quais coberta com uma toalha de papel amarelo. A cada grupo de cinco estudantes fora atribuda uma mesa. O professor disse:
- Bom, retirem as toalhas.
E ali,  frente de Paige, encontrava-se o seu primeiro cadver. Ela temia desmaiar ou sentir-se indisposta, mas sentira-se estranhamente calma. O cadver tinha sido conservado, o que de certo modo o tinha afastado um passo da humanidade. No incio, os estudantes tinham procurado ser silenciosos e respeitosos no laboratrio de anatomia. Mas, incrivelmente para  Paige, ao fim de uma semana comiam sanduches durante as dissecaes e faziam brincadeiras atrevidas. Era uma forma de autodefesa, uma recusa da sua prpria mortalidade. Davam  nomes aos cadveres e tratavam-nos como velhos amigos. Paige esforou-se por agir do mesmo modo que os outros alunos, mas foi-lhe difcil. Olhou para o cadver sobre o qual trabalhava e pensou: "Eis aqui um homem que tinha casa e famlia. Ia diariamente para um escritrio e, uma vez por ano, gozava frias com a mulher e os filhos. Provavelmente adorava o desporto e gostava de cinema e teatro, e ria e chorava, e via os filhos crescerem e partilhava as alegrias e tristezas deles, e tinha grandes e maravilhosos sonhos. Espero que os tenha realizado a todos..." Uma tristeza agridoce apoderara-se dela, pois ele estava morto e ela estava viva. Com o tempo, at mesmo para Paige as dissecaes se tornaram rotina. "Abram o trax, examinem as costelas, os pulmes, o pericrdio que envolve o corao, as veias, as artrias e os nervos. Grande parte dos primeiros dois anos de medicina foram passados a memorizar longas listas, a que os alunos se referiam como recital orgnico. Primeiro, os nervos  cranianos: olfactrio, ptico, oculomotor, troclear, trifacial, abducente, facial, auditivo, glossofarngeo, vago, requidiano e hipoglssico. Os alunos utilizavam menemnicas para os ajudar a lembrar. Uma das clssicas era: "Ora olhem os tpicos topos alvos, feitos de argila e granito, das velhas runas holandesas.", A moderna verso masculina era: "Oh, oh, oh, tomar e tocar a fofa aba gorda vaginal da rapariga do hospital. Os dois ltimos anos de medicina foram mais interessantes, com cursos de medicina interna, cirurgia, pediatria e obstetrcia, e a trabalharem no hospital local. "Lembro-me da altura...,", pensava Paige.
- Doutora Taylor... - O residente chefe olhava para ela. Paige avanou. Os outros j iam a meio do corredor. - Vou j - respondeu precipitadamente.
A primeira paragem foi numa ala ampla e rectangular, com fileiras de camas em ambos os lados do quarto e um pequeno estrado prximo de cada cama. Paige esperara ver cortinas a separar as camas, mas aqui no havia privacidade. O primeiro doente era um homem idoso de tez plida. Estava a dormir e respirava profundamente. O Dr. Radnor aproximou-se dos ps da cama, estudou o grfico ali colocado, em seguida dirigiu-se para o lado do doente e, suavemente, tocou-lhe no ombro:
- Senhor Potter?
O doente abriu os olhos:
- Huh?
- Bom dia. Sou o doutor Radnor. Estou apenas a verificar como vai o senhor. Passou bem a noite?
- Foi razovel.
- Sente dores?
- Sim. Di-me o peito.
- Deixe-me ver. - Quando terminou o exame, disse:
- Est a recuperar bem. Mandarei a enfermeira dar-Lhe qualquer coisa para as dores.
- Obrigado, doutor.
- Logo  tarde voltaremos a v-lo.
Afastaram-se da cama. O Dr. Radnor voltou-se para os residentes :
- Procurem fazer perguntas que obtenham como resposta um sim ou um no, para que o doente no se canse.
E procurem anim-lo. Quero que estudem o grfico e faam apontamentos. Voltaremos aqui esta tarde para ver como ele est. Mantenham um registo constante das queixas mais importantes de cada doente, a actual doena, doenas anteriores, historial familiar e historial social. Bebe,  fuma, etc.? Quando tornarmos a fazer a ronda, tero de me entregar um relatrio do progresso de cada doente. Avanaram para a cama do doente seguinte, um homem com cerca de quarenta anos.
- Bom dia, senhor Rawlings.
- Bom dia, doutor.
- Esta manh sente-se melhor?
- Nem por isso. Durante a noite, acordei vrias vezes.
Di-me o estmago.
O Dr. Radnor voltou-se para o residente chefe:
- O que  que a proctoscopia mostrou?
- No h sinais de qualquer problema.
- Faa-lhe um enema a brio e um GI superior, stat.
O residente chefe anotou no bloco.
O residente que se encontrava ao lado de Paige segredou-lhe ao ouvido:
- Julgo que sabe o que significa stat. eShake that ass, tootsie!", cuja traduo  Mexe-me esse cu, filho!
O Dr. Radnor ouviu:
- Stat vem do latim, statim. "Imediatamente".
Nos anos futuros, Paige iria ouvi-lo muitas vezes.
O doente seguinte era uma mulher idosa que tinha sido submetida a uma operao de by pass.
- Bom dia, senhora Turkel.
- Quanto tempo iro manter-me aqui?
- No muito tempo. A operao foi um xito. Em breve ir para casa.
E dirigiram-se ao doente seguinte.
Repetiram a rotina vezes sem conta e a manh passou rapidamente. Viram trinta doentes. Aps cada doente, os residentes escreviam freneticamente notas, esperando ser capazes de as decifrar mais tarde. Uma doente era um quebra-cabeas para Paige. Parecia estar de perfeita sade. Quando se afastaram desta, Paige perguntou:
- Qual  o problema dela, doutor?
O Dr. Radnor suspirou:
-No tem qualquer problema. Ela  uma smsu.
E para aqueles que esqueceram o que lhes foi ensinado na faculdade, smsu  um acrnimo de "Sai da minha sala de urgncias!" Os smsus so pessoas que gostam de ter uma m sade.  o seu passatempo favorito. Dei-lhe baixa seis vezes no ano passado. Avanaram para o doente seguinte, uma idosa com mscara respiratria que estava em coma.
-Teve um ataque cardaco massivo - explicou o Dr. Radnor aos residentes. - Est em coma h seis semanas. Os sinais vitais esto a enfraquecer. Nada mais podemos fazer por ela. Esta tarde vamos desligar a mquina.
Paige olhou chocada para ele:
- Desligar?
O Dr. Radnor disse, gentilmente:
- A comisso de tica do hospital tomou a deciso esta manh. Ela  um vegetal. Tem oitenta e sete anos e est cerebralmente morta.  uma crueldade mant-la viva e, por outro lado, est a acabar com as finanas da famlia. V-los-ei a todos na ronda desta tarde. Ficaram a v-lo afastar-se. Paige voltou-se para olhar novamente para a doente. Ela estava viva. "Dentro de algumas horas estar morta. Iremos desligar a mquina esta tarde.", isso  assassnio!", pensou Paige.
Nessa tarde, depois de a ronda terminar, os novos residentes reuniram-se na saleta do andar superior. A sala continha oito mesas, um velho televisor a preto e branco e duas mquinas  que forneciam sanduches j ressequidas e caf amargo. As conversas de cada mesa eram quase idnticas. Um dos residentes disse:
- Examinem a minha garganta, por favor. Est inflamada?
- Penso que tenho febre. Sinto-me mal.
- O meu abdome est inchado e mole. Sei que tenho apendicite.
-Sinto uma dor esmagadora no peito. S peo a Deus para que no esteja a ter um ataque cardaco!
Kat sentou-se a uma mesa com Paige e Honey:
- Como  que correu? - perguntou.
- Penso que correu tudo bem - respondeu Honey.
Ambas olharam para Paige:
- Eu estava tensa, mas relaxada. Estava nervosa, mas aparentei calma. - Suspirou: - Foi um dia longo. Ficarei  feliz
por sair daqui e ir divertir-me logo  noite.
- Tambm eu - concordou Kat. - Que tal jantarmos e depois irmos ao cinema?
- Parece-me bem.
Um funcionrio aproximou-se da mesa:
- Doutora Taylor?
Paige levantou a cabea:
- Sou eu a doutora Taylor.
- O doutor Wallace quer v-la no gabinete dele.
O administrador do hospital! "O que  que eu fiz?"
pensou Paige.
O funcionrio ficou  espera:
- Doutora Taylor...
- Vou j. - Respirou profundamente e levantou-se:
- Vejo-vos mais tarde.
- Por aqui, doutora.
Paige seguiu o funcionrio. Entraram no elevador e subiram at ao quinto andar, onde se situava o gabinete do Dr. Wallace. Benjamin Wallace estava sentado  secretria. Levantou a cabea quando Paige entrou: 
- Boa tarde, doutora Taylor.
- Boa tarde.
Wallace suspirou:
- Bem!  o seu primeiro dia e j causou uma enorme impresso.
Paige olhou para ele, intrigada:
-No... No compreendo.
- Soube que esta manh teve um pequeno problema no vestirio dos mdicos.
- Oh. - "Ento  este o problema!"
Wallace olhou para ela e sorriu:
- Suponho que tenho de organizar alguma coisa para si e para as outras raparigas.
-Ns... "Ns no somos raparigas",, - comeou Paige a dizer. - Ficar-lhe-amos muito gratas.
- Entretanto, se no quiser vestir-se com as enfermeiras...
- No sou enfermeira - respondeu Paige com firmeza. - Sou mdica.
- Claro, claro. Bem, iremos tratar das vossas acomodaes, doutora.
- Obrigada.
Entregou a Paige uma folha de papel:
- Entretanto, este  o seu horrio. Ficar de servio nas prximas vinte e quatro horas, a comear a partir das seis.
- Olhou para o relgio. - O que quer dizer, daqui por meia hora.
Paige olhou para ele, boquiaberta. O dia dela tinha-se iniciado s cinco e meia da manh: - "Vinte e quatro horas?"
- Bom, trinta e seis, na verdade. Uma vez que, de manh, ir fazer novamente a ronda.
"Trinta e seis horas! Ser que irei aguentar?"
Em breve iria saber.
Paige foi procurar Kat e Honey.
- Vou ter de esquecer o jantar e o cinema - disse Paige.
- Estou de servio por trinta e seis horas.
Kat abanou a cabea:
- Acabmos de receber as nossas ms notcias. Eu estarei de servio amanh e a Honey na quarta-feira.
- No vai ser assim to mau - respondeu Paige, mais animada. 
- Soube que existe um quarto de dormir para quem est deservio. Vou gostar disto.
Estava errada.
Um funcionrio acompanhou Paige ao longo do corredor. 
- O doutor Wallace informou-me que estarei de servio durante trinta e seis horas - disse Paige. - Todos os residentes trabalham durante tantas horas?
- Apenas nos primeiros trs anos - garantiu-lhe o funcionrio.
- "Que ptimo!"
- Mas ter muitas oportunidades para descansar, doutora.
- Terei?
- Aqui. Este  o quarto de quem est de servio. - ' Abriu a
porta e Paige entrou. O quarto fazia lembrar a cela de um
monge nalgum mosteiro muito pobre. Continha nada mais do que
uma maca com um colcho aos altos e baixos, um lavatrio
rachado e uma mesinha-de-cabeceira onde se encontrava um
telefone. - Pode dormir aqui, nos intervalos das chamadas.
- Obrigada.
As chamadas comearam quando Paige se encontrava na
cafetaria, mal tinha comeado a jantar.
- Doutora Taylor... SU Trs... Doutora Taylor... SU
Trs.
E estava sempre a ser perseguida por enfermeiras.
- Temos um doente com uma costela partida...
- O senhor Henegan queixa-se de dores no peito...
- O doente da ala dois est com dores de cabea.
Posso dar-lhe acetominofena...?
 meia-noite, Paige tinha acabado de adormecer quando o
telefone tocou.
- Apresente-se na SU Um. - Tratava-se de um ferimento
causado por faca e, quando Paige acabou de o tratar, j era
uma e meia da manh. s duas e um quarto foi novamente
acordada.
- Doutora Taylor... Sala de Urgncias Um. Stat.
Paige respondeu, ensonada:
- Tudo bem. - "O que  que ele disse que significava? Mexe
esse cu, filho." Fez um esforo por se levantar e percorrer o
corredor at  sala de urgncias. Tinha dado entrada um 
doente
com a perna partida. Este gritava de dores.
- Faam uma radiografia - ordenou Paige. - E dem-lhe
Demerol, cinquenta miligramas. - Poisou a mo no ombro do
doente. - Vai ficar bom. Procure descansar.
No sistema de altifalantes, uma metlica voz desincorporada
disse:
- Doutora Taylor... Ala Trs. Stat.
Paige olhou para o doente queixoso, sem vontade de o deixar.
Tornou-se a ouvir a voz:
- Doutora Taylor... Ala Trs. Stat.
-J vou - murmurou Paige. Apressou-se a sair e atravessou o
corredor a correr, at  Ala Trs. Um doente tinha vomitado,
aspirado e estava engasgado.
- Ele no consegue respirar - disse a enfermeira.
- Faam-lhe uma suco - ordenou Paige. Enquanto verificava
o doente a recuperar a respirao, ouviu novamente o seu nome
no sistema de altifalantes:
- Doutora Taylor... Ala Quatro. Ala Quatro.
Paige abanou a cabea e correu para a Ala Quatro, para um
doente que gritava de espasmos abdominais. Paige fez-Lhe um
exame rpido.
- Pode ser uma disfuno intestinal. Faam uma ecografia
- disse Paige.
Quando voltou para junto do doente com a perna partida, o analgsico j tinha actuado. Mandou que o levassem para a  sala de operaes e tratou-lhe da perna. Quando estava a terminar, ouviu de novo o seu nome:
- Doutora Taylor, dirija-se  Sala de Urgncias Dois. Stat.
- A lcera gstrica da Ala Quatro est a causar dores... s trs e meia da manh:
- Doutora Taylor, o doente do quarto 310 est com uma hemorragia...
Houve um ataque cardaco numa das alas e Paige ouvia, nervosa, a batida cardaca do doente quando escutou o seu  nome a ser chamado no sistema de altifalantes:
- Doutora Taylor... SU Dois. Stat... Doutora Taylor... SU  Dois. Stat. "No posso entrar em pnico", pensou Paige. "Devo manter-me calma." Estava assustada. Quem era mais importante, o doente que estava a examinar ou o doente seguinte? - Fique aqui - disse futilmente. - J volto. Quando Paige se dirigia  SU Dois, ouviu de novo o seu nome:
- Doutora Taylor... SU Um. Stat... Doutora Taylor...SU Um. Stat.
"Oh, meu Deus!", pensou Paige. Teve a sensao de ter sido apanhada no meio de um terrvel e interminvel pesadelo. Durante o que sobrou da noite, Paige foi acordada para atender um caso de intoxicao alimentar, um brao partido, uma hrnia hiatal e uma costela partida. Quando conseguiu regressar ao quarto dos mdicos de servio, estava to  exausta
que mal conseguia mexer-se. Cambaleou at  maca e mal  fechara os olhos o telefone tocou. Pegou nele, com os olhos fechados:
- Es... t...
- Doutora Taylor, estamos  sua espera.
- O qu? - Permaneceu deitada, tentando lembrar-se de onde estava.
- A sua ronda est a comear, doutora.
- A minha ronda? - "Esta  uma espcie de brincadeira de mau gosto", pensou Paige. " desumano. No podem obrigar ningum a trabalhar assim!" Mas estavam  sua espera.
Dez minutos mais tarde, Paige estava de novo a fazer a ronda, meio adormecida. Deu um encontro no doutor Radnor: 
- Perdo - murmurou -, mas no consegui dormir...
Este deu-lhe umas palmadinhas amigveis no ombro:
- Ir habituar-se a isso.
Quando finalmente Paige saiu de servio, dormiu durante catorze horas seguidas. A presso intensa e o ritmo de trabalho provaram ser de mais para alguns dos residentes, os quais simplesmente desapareceram do hospital. "Isso no ir acontecer comigo,", jurou Paige. A presso era implacvel. No final de uma das rendies de Paige, aps trinta e seis esgotantes horas, estava to  exausta que no fazia ideia de onde se encontrava. Cambaleou para o elevador e permaneceu ali, com a mente entorpecida. Tom Chang aproximou-se dela:
- Sente-se bem?
- Estou bem - murmurou Paige.
- Est com mau aspecto - observou ele.
- Obrigada. Porque  que agem assim connosco? - perguntou Paige.
Chang deu um risinho:
- A teoria  a de que isso nos mantm em contacto com os nossos doentes. Se formos para casa e os deixarmos aqui, no sabemos o que se passa com eles enquanto estivermos fora.
- Tem lgica - anuiu ela. No tinha nenhuma. - Como  que podemos cuidar deles se estamos a dormir em p?
Chang tornou a rir-se:
- No sou eu que imponho as regras.  assim que todos os hospitais trabalham. - Olhou para Paige de perto:
- Vai conseguir chegar a casa?
Paige olhou para ele e afirmou arrogantemente:
- Claro que sim.
- Passe bem. - Chang desapareceu pelo corredor abaixo.
Paige esperou que o elevador chegasse. Quando finalmente chegou, ali estava ela em p, a dormir profundamente. Dois dias mais tarde, Paige tomava o pequeno-almoo com Kat:
- Queres ouvir uma confisso terrvel? - perguntou Paige.
- Por vezes, quando me acordam s quatro da manh para dar uma aspirina a algum, vou a cambalear pelo corredor abaixo ainda meio a dormir e passo pelos quartos onde todos os doentes esto bem aconchegados e a ter uma boa noite de sono  e fico com vontade de atirar com todas as portas e gritar "Toca a acordar!" Kat estendeu-lhe a mo:
-Junta-te ao clube.
Os doentes eram de todos os feitios, tamanhos, idades e raas. Uns estavam assustados, outros eram corajosos, gentis, arrogantes, exigentes, compreensivos. Eram seres humanos que sofriam. A maioria dos mdicos eram dedicados aos pacientes. Tal como em qualquer profisso, havia bons mdicos e maus mdicos. Eram jovens e idosos, desajeitados e competentes, atenciosos e desagradveis. Alguns deles, numa ou noutra altura, assediaram sexualmente Paige. Alguns eram subtis, outros rudes. - de noite, nunca se sente sozinha? Eu sei que eu sinto. Ser que...
-Estas horas matam-nos, no concorda? Sabe que descobri o que me d energia? Uma boa vida sexual. Porque  que ns...?
- A minha mulher foi passar uns dias fora da cidade.
Tenho uma cabana prximo de Carmel. Este fim-de-semana podamos...
- E os doentes.
- Ento, a senhora  que  a minha mdica, hem? Sabe o que havia de me curar...?
- Aproxima-te da cama, querida. Quero ver se isso a  verdadeiro...
Paige cerrava os dentes e ignorava-os a todos. "Quando eu e o Alfred nos casarmos, isto ir parar." O simples facto de pensar em Alfred deixou-a radiante. Iria regressar de frica em breve. Em breve.
Uma manh, antes da ronda, Paige e Kat conversaram sobre o assdio sexual de que estavam a ser alvo.
- Grande parte dos mdicos comportam-se como perfeitos cavalheiros, mas alguns deles parecem julgar que somos gratificaes ligadas  profisso e que estamos aqui para os servir - disse Kat. - No h semana em que pelo menos um dos mdicos no me faa convites. "Porque no vem beber um copo a minha casa? Tenho alguns CD's ptimos." Ou que na sala de operaes, quando estou a ajudar, o cirurgio esfrega o brao no meu peito.
Um tarado disse-me: "Sabe, sempre que peo frango, prefiro a carne escura." Paige suspirou:
- Julgam que nos esto a lisonjear tratando-nos como objectos sexuais. Antes nos tratassem como mdicas.
- Muitos deles nem sequer nos querem por perto. Ou querem-nos foder ou nos querem foder. Sabes, no  justo. 
As mulheres so consideradas inferiores at provarem o contrrio, e os homens so considerados superiores at provarem ser os merdas que so.
-  a velha teoria machista - disse Paige. - Se fssemos mais, poderamos iniciar uma nova teoria feminina.
Paige ouvira falar de Arthur Kaine. Era o assunto da bisbilhotice constante do hospital. Tinha a alcunha do "Dr. 007-autorizado a matar". Para ele, a soluo para qualquer problema era operar e a sua taxa de operaes era superior  de qualquer outro mdico do hospital. Tambm lhe pertencia a maior taxa de mortalidade. Era careca e baixo, tinha nariz de papagaio e dentes manchados pelo tabaco e bastantes quilos a mais. Incrivelmente, julgava-se desejado pelas mulheres. Gostava de considerar as novas enfermeiras e residentes femininas como "carne nova". Paige Taylor era carne nova. Viu-a na saleta do andar superior e sentou-se  sua mesa, sem ter sido convidado. 
- Tenho-a tido debaixo de olho.
Paige levantou a cabea, espantada:
- Como?
- Sou o doutor Kane. Os meus amigos tratam-me por Arthur.
- A voz soou maliciosa.
Paige pensou em quantos amigos poderia ele ter.
- Como se tem adaptado a isto aqui?
A pergunta apanhou Paige desprevenida:
- Eu... Bem, penso eu.
Ele inclinou-se para a frente:
- Este  um hospital grande.  fcil perdermo-nos aqui.
Percebe o que quero dizer?
Paige respondeu cautelosamente:
- No entendi muito bem.
- Voc  demasiado bonita para ser apenas mais um rosto no meio da multido. Se quiser dirigir-se a qualquer lugar, ir precisar que algum a ajude. Algum que conhea os caminhos.
A conversa estava a tornar-se cada vez mais desagradvel.
- E o senhor gostaria de me ajudar.
- Correcto. - Mostrou os dentes manchados pelo tabaco.
- Porque no falamos disso ao jantar?
- Nada tenho para falar, doutor Kane - respondeu Paige.
- No estou interessada.
Arthur Kane, con uma expresso malfica no rosto, ficou a ver Paige levantar-se e ir embora.
Os residentes do primeiro ano de cirurgia encontravam-se em regime de rotao por dois meses, alternando entre obstetrcia, ortopedia, urologia e cirurgia. Paige aprendeu que era perigoso entrar num hospital de treino durante o Vero devido a doena grave, uma vez que muitos dos mdicos internos se encontravam de frias e os doentes ficavam  merc dos jovens e inexperientes  residentes. Quase todos os cirurgies gostavam de ter msica na sala de operaes. Um dos mdicos foi alcunhado de Mozart e outro de Axl Rose, devido aos respectivos gostos musicais. Por algum motivo, as operaes pareciam causar sempre fome a todos. Falavam constantemente de comida. Um cirurgio podia estar a meio da remoo de uma vescula biliar gangrenada de um doente e dizer: 
- Ontem jantei muito bem no Bardelli's. A melhor comida italiana em toda a So Francisco.
-J experimentaste os bolos de caranguejo do Cypress Club?
- Se gostas de um bom bife, experimenta a House of Prime Rib, na Van Ness.
Entretanto, uma enfermeira estaria a limpar o sangue do doente. Quando no falavam de comida, os mdicos discutiam basebol ou raguebi.
- Viste o jogo do quarenta e nove no domingo passado? Aposto que sentem a falta de Joe Montana. Ele entrava sempre nos  dois ltimos minutos de jogo. E l sairia um apndice rebentado.
"Kafka", pensou Paige. "Kafka teria gostado disto.  s trs da manh, quando Paige dormia no quarto dos mdicos de servio, foi acordada pelo telefone. Uma voz grossa disse:
- Doutora Taylor... Quarto quatrocentos e dezanove... um ataque cardaco. Ter de se apressar! - A linha caiu.
Paige sentou-se na borda da cama, lutando contra o sono e procurando erguer-se. "Ter de se apressar!" Foi para o corredor, mas no havia tempo para esperar pelo elevador. Subiu apressadamente as escadas e atravessou a correr o corredor do quarto andar at ao quarto 419, o corao quase a sair-lhe pela boca. Abriu a porta e ali ficou, a olhar. O quarto 419 era uma arrecadao. Kat Hunter estava a fazer a ronda com o Dr. Richard Hutton, um quarento brusco e rpido. No ficava mais de dois a trs minutos com cada doente, estudando o grfico para depois dar ordens aos residentes cirrgicos, de uma forma disparada, de tipo staccato.
- Verifiquem a hemoglobina dela e marquem a operao para amanh...
- Estejam atentos ao grfico de temperaturas dele...
- Comparem quatro anlises sanguneas...
- Retirem estes pontos...
- Faam algumas radiografias ao trax...
Kat e os outros residentes estavam ocupados a anotar tudo, esforando-se por o acompanharem. Aproximaram-se de um doente com febres altas, que tinha dado entrada no hospital h uma semana e sido submetido a uma  srie de anlises, sem qualquer resultado.
Quando se encontravam no corredor, Kat perguntou: 
- O que se passa com ele?
-  um "SDS" - disse um residente. - "S Deus sabe." Fizemos radiografias, ecografias, MRIs, exames  coluna, biopsia ao fgado. Tudo. Desconhecemos que doena ter.
Avanaram para uma ala onde um jovem, com a cabea ligada depois de ter sido operado, se encontrava a dormir. Quando o Dr. Hutton comeou a retirar as ligaduras, o doente acordou, sobressaltado:
- O que... O que se passa?
- Sente-se - disse o Dr. Hutton em tom brusco.
O jovem comeou a tremer.
"Nunca tratarei assim os meus doentes", pensou Kat. O doente seguinte era um homem de cerca de setenta anos, de aspecto saudvel. Assim que o Dr. Hutton se aproximou da  cama, o doente gritou:
- Gonzo! Vou process-lo, seu grandessssimo filho da puta. 
- Bem, senhor Sparolini...
-No me chame senhor Sparolini! Voc transformou-me na merda de um eunuco!
" um oximoro", pensou Kat.
- Senhor Sparolini, o senhor anuiu em fazer-se a vasectomia e...
- Essa ideia foi da minha mulher. Grande cabra! Esperem at que eu regresse a casa.
Deixaram-no a resmungar sozinho.
- O que  que ele tem? - perguntou um dos residentes.
- O problema dele  ser um velho rabugento. A sua jovem esposa j tem seis filhos e no quer ter mais.
A seguir, era uma rapariga de dez anos. O Dr. Hutton olhou para o grfico dela:
- Vamos dar-te uma injeco para os bichos maus se irem embora.
Uma enfermeira encheu a seringa e dirigiu-se  rapariga.
- No! - gritou ela. - Vais magoar-me!
Isto no magoa, querida - garantiu-lhe a enfermeira.
As palavras soaram a eco escuro na mente de Kat.
"Isto no magoa, querida...". Era a voz do padrasto a sussurrar-lhe na escurido assustadora.
- Isto  bom. Afasta as pernas. Vamos, sua putinha! - Afastou-lhe as pernas e penetrou nela,  fora, o seu membro masculino, tapando-lhe a boca a fim de evitar que gritasse de dor. Ela tinha treze anos. Depois disso, as visitas dele transformaram-se num ritual nocturno aterrorizante. 
- Tens sorte em ter um homem como eu para te ensinar a foder - dizia-lhe ele. - Sabes o que significa Kat? Significa gato... que persegue ratinhas. E eu quero a tua. - Depois caa-lhe em cima e prendia-a, sem que o choro ou os apelos o fizessem parar. Kat nunca conheceu o pai. A me era uma mulher-a-dias que trabalhava num edifcio de escritrio, prximo do seu minsculo apartamento em Gary, Indiana. O padrasto de Kat era um homem grande que se aleijara num acidente num moinho de  ao e passava a maior parte do tempo em casa, a beber. uma noite, quando a me de Kat saa para o trabalho, ele entrava no quarto:
- Dizes alguma coisa  tua me ou ao teu irmo, e eu mato-o - disse a Kat. "No posso deixar que ele magoe Mike", pensou Kat. O irmo era cinco anos mais novo e Kat adorava-o. Ela cuidava dele, protegia-o e at lhe resolvia as brigas. Ele  era o seu nico motivo de alegria. Uma manh, aterrada como estava devido s ameaas do padrasto, decidiu que tinha de contar  me tudo o que estava a acontecer. A me iria pr um fim, iria proteg-la.
- Mam, o teu marido vem todas as noites para a minha cama enquanto ests fora e obriga-me a ter relaes.
Por um momento, a me ficou a olhar para ela e depois deu-Lhe uma bofetada na cara.
- Como te atreves a inventar mentiras dessas, sua peste!
Kat nunca mais tocou no assunto. Apenas ficou em casa por Mike. "Sentir-se-ia perdido sem mim", pensou ela. Mas quando soube que estava grvida, fugiu para casa de uma tia que  vivia em Minneapolis. A partir de ento, a sua vida mudou completamente.
- No precisas de me contar o que aconteceu - dissera-lhe a tia Sophie. - Conheces aquela cano que eles cantam na  Sesame Street? "No  Fcil Ser Verde"? Bem querida, mas tambm no  fcil ser negro. Tens duas escolhas. Continuas a fugir, a esconder e a culpar o mundo dos teus problemas, ou levantas-te sozinha e decides ser algum importante.
- O que  que tenho de fazer?
- Tens de saber que s importante. Primeiro, crias na tua mente uma imagem de quem gostarias de ser e o que gostarias  de ser, filha. E depois esforas-te por te tornares nessa  pessoa.
- No quero ter este beb - decidiu Kat. - Quero fazer um aborto.
Este foi calmamente efectuado durante um fim-de-semana, por uma parteira amiga da tia de Kat. Quando tudo acabou, Kat pensou ferozmente: "Nunca mais deixarei que um homem me
toque. Nunca mais!"
Para Kat, Minneapolis era um pas de fadas. Prximo de quase todas as casas havia lagos, fontes e rios. E havia mais de  320  hectares de zonas verdes. Velejou nos lagos da cidade e fez passeios de barco no Mississpi. Visitou o Great Zoo com a tia Sophie e passou vrios domingos no Valleyfair Amusement Park. Participou em corridas de sacos no Cedar Creek Farm e viu combates de cavaleiros com armadura no Shakopee Renaissance Festival. A tia Sophie olhou para Kat e pensou: "Esta mida nunca teve uma infncia". Kat estava a aprender a divertir-se mas a tia Sophie sentia que bem l no ntimo da sobrinha, havia um lugar que ningum conseguia alcanar, uma barreira que ela mesma levantara para no voltar a sofrer. Fez amizades na escola. Mas nunca com rapazes. As amigas saam com rapazes, mas Kat era uma solitria e demasiado orgulhosa para explicar a algum o porqu. Olhou para a tia, de quem gostava muito. Kat estava pouco interessada na escola ou em ler livros, mas a tia Sophie alterou tudo isso. A casa estava repleta de livros e o entusiasmo de Sophie relativamente a eles era contagiante. 
- Ali h palavras maravilhosas - disse  rapariga.
- L e ficars a saber de onde vens e para onde irs.
Tenho o palpite de que um dia sers famosa, querida. Mas primeiro ters de estudar. Isto  a Amrica. Podes vir a ser tudo o que quiseres. Podes ser negra e pobre, mas tambm o eram algumas das nossas congressistas e estrelas de cinema, cientistas e heris desportistas. Um dia teremos um  presidente negro. Podes ser tudo o que quiseres. Tudo depende de ti.  Era o comeo. Kat tornou-se na melhor aluna da turma. Era uma leitora vida. Um dia, na biblioteca da escola, pegou por acaso numa cpia de Arro"smith, de Sinclair Lewis, e ficou fascinada com a histria do jovem e dedicado mdico. Leu Promises to Keep de Agnes Cooper, que lhe abriu um mundo  novo. Descobriu que neste mundo havia pessoas que se dedicavam a ajudar os outros, a salvar-lhes a vida. Um dia, quando Kat regressou da escola, disse  tia Sophie: 
- Vou ser mdica. E famosa.
Na segunda-feira de manh, os grficos de trs doentes de Paige tinham desaparecido e ela foi dada como culpada. Na quarta-feira, Paige foi acordada s quatro da manh. Sonolenta, pegou no telefone:
- Doutora Taylor...
Silncio.
- Est?... Est?...
Ouvia a respirao de algum no outro lado da linha. Em seguida, ouviu um click. Paige permaneceu acordada durante o resto da noite. De manh, disse a Kat:
- Ou estou a ficar paranica ou algum me odeia. - E contou-lhe o que se passara.
- Por vezes, os doentes guardam rancor aos mdicos - disse Kat. - Sabes de algum que...?
Paige lamentou:
- Dzias.
- Tenho a certeza de que no  caso para te preocupares.
Paige desejou poder acreditar nisso. Nos finais do Vero chegou o telegrama mgico. Ali ficou  espera que Paige chegasse ao apartamento, j noite adiantada. Dizia: "Chego So Francisco ao meio-dia de domingo. Anseio ver-te. Amor. Alfred." Finalmente regressava para junto dela! Paige leu o telegrama vezes sem conta, ficando cada vez mais animada. Alfred! O nome dele evocava um caleidoscpio confuso de recordaes excitantes... Paige e Alfred cresceram juntos. Os pais faziam parte de uma equipa de mdicos da oMs que viajara para pases do Terceiro Mundo, a fim de lutarem contra doenas exticas e virulentas. Paige e a me acompanharam o Dr. Taylor, que chefiava a equipa. Paige e Alfred tiveram uma infncia de fantasia. Na ndia, Paige aprendeu a falar hindi. Aos dois anos, sabia que o nome
para a cabana de bambu onde viviam era basha. O pai era gorashaib, homem branco, e ela era nani, irmzinha. Tratavam  o pai de Paige como abadhan, o chefe, ou baba, pai. Quando os pais de Paige no estavam por perto, ela bebia bhanga, uma bebida intoxicante feita com folhas de haxixe, e comia chapati com ghi. Depois, foram para frica. Partiram para outra aventura. Paige e Alfred habituaram-se a nadar em rios onde havia crocodilos e hipoptamos. Os animais de estimao eram filhotes de zebras, chitas e cobras. Cresceram em cabanas redondas e sem janelas, feitas de adobe, com cho de terra batida e telhados cnicos de colmo. "Um dia", prometeu Paige a si prpria, "irei viver numa verdadeira casa no meio de uma bonita quinta, com relva verdinha e paliada branca." Tanto para os mdicos como para as enfermeiras, a vida era dura e frustrante, mas para as duas crianas, viver na terra dos lees, girafas e elefantes era uma aventura constante. Frequentaram escolas primitivas, feitas de adobes, e, quando no havia uma por perto, tinham preceptores. Paige foi uma criana inteligente e o crebro era uma esponja que absorvia tudo. Alfred adorava-a.
- Um dia casarei contigo, Paige - disse-lhe quando ela tinha doze anos e ele catorze.
- Tambm irei casar-me contigo, Alfred.
Eram duas crianas srias, determinadas em passar o resto da sua vida juntos.
Os mdicos da onZs eram homens generosos e dedicados e mulheres devotas ao seu trabalho. Muitas vezes trabalhavam em circunstncias quase impensveis. Em frica, tinham de competir com o zeogesha - praticantes de medicina nativa  cujos remdios primitivos foram transmitidos de pais para filhos, muitas vezes com efeitos letais. O remdio tradicional dos Masai para feridas abertas era o olkilorite, uma mistura de sangue de boi, carne crua e essncia de uma raiz misteriosa. O remdio dos Kikuyu para a varola era obrigar a doena a sair das crianas, batendo-as com paus.
- Tm de parar com isso - dizia-lhes o Dr. Taylor.
- Isso no ajuda.
-  melhor do que vos deixar espetar agulhas na nossa pele - respondiam eles.
Os dispensrios eram mesas alinhadas sob as rvores, onde se efectuavam as operaes. Os mdicos viam centenas de doentes por dia e havia sempre uma enorme fila  espera de serem vistos - leprosos, nativos com tuberculose, coqueluche, varola, disenteria. Paige e Alfred eram inseparveis. Quando cresceram, fizeram caminhadas at ao mercado, numa aldeia situada a alguns quilmetros. E conversaram sobre planos para o futuro de ambos. A medicina fez parte da vida de Paige, desde muito cedo. Aprendeu a cuidar de doentes, a dar injeces e a receitar medicamentos e antecipou formas de ajudar o pai. Paige gostava do pai. Curt Taylor era o homem mais cuidadoso e generoso que jamais conhecera. Gostava genuinamente das pessoas, dedicando a sua vida a ajudar os que precisassem dele; transmitiu essa paixo a Paige. Apesar das longas horas de trabalho, arranjava sempre tempo para estar com a filha. Tornou agradvel o desconforto dos lugares primitivos onde viveram. A relao de Paige com a me era algo diferente. Esta era uma beldade vinda de uma classe social abastada. A sua fria indiferena mantinha Paige afastada. Casar com um mdico que iria trabalhar para lugares distantes e exticos tinha-lhe parecido romntico, mas a realidade dura tornara-a numa pessoa amarga. No era uma mulher calorosa e meiga e, para Paige, parecia estar sempre a queixar-se. "Porque  que tivemos de vir para este lugar esquecido por Deus, Curt?"; "Aqui as pessoas vivem como animais. Vamos apanhar algumas das suas terrveis doenas"; "Porque  que no podes praticar medicina nos Estados Unidos e ganhar dinheiro como os outros mdicos?" E de muito mais se queixou ela. Quanto mais a me o criticava, mais Paige gostava do pai. Quando fez quinze anos, a me fugiu com o dono de uma grande plantao de cacau no Brasil.
- Ela no vai voltar, no ? - perguntou Paige.
- No, querida. Desculpa.
- Fico feliz! - No foi isso que quis dizer. Estava magoada por a me se ter preocupado to pouco com ela e com o pai, acabando por abandon-los.
A experincia fez com que Paige se aproximasse ainda mais de Alfred Turner. Jogavam e assistiam juntos a explicaes e at partilhavam os sonhos.
- Tambm vou ser mdico quando crescer - confidenciou
Alfred. - Havemos de nos casar e iremos trabalhar juntos.
- E teremos muitos filhos!
- Certo. Se tu quiseres.
Na noite em que Paige fez dezasseis anos, a sua perptua intimidade emocional atingiu uma nova dimenso. Numa pequena aldeia da frica Oriental, os mdicos tinham  sido chamados de urgncia devido a uma epidemia e s Paige, Alfred e uma cozinheira ficaram no acampamento. Jantaram e foram-se deitar. Mas, a meio da noite, Paige foi acordada pelo som distante e ensurdecedor de animais em fuga. Manteve-se deitada e,  medida que o tempo passava e o som se aproximava, comeou a sentir medo. A respirao tornou-se mais acelerada. Ningum sabia quando  que o pai e os outros iriam regressar. Sentou-se. A tenda de Alfred encontrava-se a poucos metros de distncia. Aterrorizada, levantou-se, afastou o pano da porta e correu para a tenda de Alfred. Este dormia.
- Alfred!
Sentou-se e despertou imediatamente:
- Paige? Aconteceu alguma coisa?
- Tenho medo. Posso deitar-me um bocado contigo?
- Claro. - Ficaram deitados a ouvir os animais a passarem a grande velocidade.
Em poucos minutos, o som comeou a desaparecer.
Alfred teve conscincia do calor emanado pelo corpo de Paige ali deitado junto ao seu.
- Paige, acho que  melhor regressares  tua tenda.
Paige sentiu a dureza do membro masculino pressionado contra si. Todas as necessidades fsicas que se foram formando dentro deles subiram rapidamente  superfcie.
- Alfred.
- Sim? - A voz soou rouca.
- Vamo-nos casar, no ?
- Sim.
- Ento no h problema.
Os sons da selva  sua volta desapareceram e comearam a explorar e descobrir um mundo que ningum mais possua seno eles. Eram os primeiros amantes do mundo e sentiram-se
glorificados com tal milagre. Ao amanhecer, Paige rastejou at  tenda dela e pensou, feliz: "J sou uma mulher". De tempos em tempos, Curt Taylor sugeria que Paige regressasse aos Estados Unidos para viver com o tio na sua bela casa de Deerfield, no norte de Chicago.
- Porqu? - perguntava Paige.
- Para que possas vir a ser uma senhorinha bem formada.
- Sou uma senhorinha bem formada.
-As senhorinhas bem formadas no brincam com macacos selvagens nem tentam montar zebras bebs.
A resposta dela era sempre a mesma:
- No vou deixar-te.
Quando Paige fez dezassete anos, a equipa da oMs foi para uma aldeia da selva na frica do Sul, a fim de lutarem contra uma epidemia de tifo. Para agravar a situao, pouco depois dos mdicos terem chegado rebentou a guerra entre duas tribos locais. Curt Taylor foi aconselhado a ir-se embora. 
- No posso, por Deus. Tenho doentes que morrero se eu os abandonar.
Quatro dias depois, a aldeia foi atacada. Paige e o pai esconderam-se na sua pequena cabana, ouvindo l fora a gritaria e a fuzilaria. Paige estava aterrorizada;
- Vo-nos matar!
O pai abraou-a:
- Eles no nos faro mal, querida. Estamos aqui para os ajudar. Sabem que somos amigos.
E tinha razo.
O chefe de uma das tribos entrara na cabana com alguns dos seus guerreiros:
- No se preocupem. Ns proteger-vos-emos. - E assim o fizeram.
As lutas e os tiros finalmente pararam, mas, de manh, Curt Taylor tomara uma deciso. Enviou um telegrama ao irmo: "Paige segue no prximo avio. Enviarei os pormenores. Por favor, vai busc-la ao aeroporto." Paige ficou furiosa quando soube da notcia. Soluava fortemente quando foi levada para o pequeno e empoeirado aeroporto onde um Piper Club esperava para a levar para uma cidade onde pudesse apanhar um avio para Joanesburgo.
- Ests a mandar-me embora porque queres ver-te livre de mim! - disse a chorar.
O pai abraou-a fortemente:
- Amo-te acima de tudo, querida. Vou sentir sempre a tua falta. Mas em breve regressarei aos Estados Unidos e  ficaremos juntos de novo.
- Prometes?
- Prometo.
Alfred tambm estava l para se despedir de Paige.
- No te preocupes - disse a Paige. - Irei buscar-te assim que puder. Esperas por mim?
Depois de tantos anos, era uma pergunta estpida.
-  claro que sim.
Trs dias depois, quando o avio aterrou no Aeroporto O'Hare de Chicago, l estava o tio Richard  espera de Paige. Esta ainda no o conhecia. Apnas sabia que era um homem de negcios muito rico cuja esposa tinha falecido h j muitos anos. " o membro da famlia mais bem sucedido", dizia-lhe sempre o pai. As primeiras palavras do tio deixaram Paige boquiaberta: 
- Paige, lamento ter de te dizer isto, mas acabei de saber que o teu pai foi assassinado numa luta nativa.
Num s instante, todo o seu mundo desaparecera.  A dor era to intensa que ela julgou no ser capaz de a suportar. "No deixarei que o meu tio me veja a chorar", decidiu Paige. "No deixarei. No devia ter sado de l. Vou regressar." No trajecto para casa, Paige viu atravs da janela o enorme trnsito da cidade.
- Detesto Chicago.
- Porqu, Paige?
-  uma selva.
Richard no permitiu que Paige regressasse a frica para assistir ao funeral do pai e isso enfureceu-a. Tentou que ela compreendesse:
- Paige, o teu pai j foi enterrado. No h motivo para regressares.
Contudo, havia um motivo: Alfred estava l. Alguns dias aps a chegada de Paige, o tio sentou-se com ela para falarem do futuro.
- Nada tenho para conversar - informou-lhe Paige.
- Vou ser mdica.
Aos vinte e um anos Paige terminou o liceu, concorreu a dez universidades de medicina e foi aceite por todas elas. Escolheu uma de Bston. Foram precisos dois dias para conseguir falar com Alfred, por telefone, no Zaire, onde trabalhava em tempo parcial numa unidade da oMs. Quando Paige Lhe deu as notcias, ele respondeu:
- Que bom, querida. J pouco falta para acabar o meu curso de medicina. Ficarei uns tempos com a onzs, mas dentro de alguns anos iremos exercer juntos a nossa profisso.
"Juntos.," A palavra mgica.
- Paige, estou ansioso por te ver. Se puder ausentar-me por alguns dias, poders encontrar-te comigo no Havai?
No houve a menor hesitao:
- Sim.
E ambos conseguiram. Mais tarde, Paige s imaginava o quo difcil deveria ter sido a viagem de Alfred, mas este nunca o mencionou. Passaram juntos trs incrveis dias num pequeno hotel de Havai, chamado Sunny Cove, e foi como se nunca tivessem  estado afastados um do outro. Paige pensou em pedir a Alfred que regressasse a Bston com ela, mas sabia que seria muito egosta se o fizesse. O trabalho que ele estava a fazer era demasiado importante. No ltimo dia que passaram juntos, quando se vestiam, Paige perguntou:
- Para onde sers enviado, Alfred?
- Gmbia, ou talvez Bangladesh.
"Para salvar vidas, para ajudar os que precisam desesperadamente dele." Abraou-se a ele com fora e fechou os olhos. No o queria deixar partir. Como se lhe tivesse lido os pensamentos, ele disse:
- Nunca irei permitir que me deixes.
Paige comeou a faculdade de medicina e tanto ela como Alfred correspondiam-se regularmente. Onde quer que  estivesse, Alfred conseguia telefonar a Paige no dia do aniversrio e no Natal. Prximo do Ano Novo, quando Paige estava no segundo  ano de medicina, Alfred telefonou:
- Paige?
- Querido! Onde ests?
- No Senegal. Calculo que so apenas cerca de treze mil quilmetros do Hotel Sunny Cove.
Foi preciso um minuto para que entendesse o significado.
- Quer dizer...?
- Podes encontrar-te comigo no Havai no Ano Novo?
- Oh, sim! Sim!
Alfred atravessou quase metade do mundo para se encontrar com ela e desta vez a magia foi ainda maior. ' O tempo parara para ambos.
- No prximo ano tomarei a direco da minha prpria equipa da oMs - disse Alfred. - Quando terminares os estudos, vamos casar...
Conseguiram juntar-se mais uma vez e quando isso no era possvel, as cartas encurtavam o tempo e o espao. Todos aqueles anos trabalhou como mdico nos pases do Terceiro Mundo, tal como o seu pai e o de Paige, fazendo o trabalho maravilhoso que eles tinham feito. Agora,  finalmente, regressava de vez para ela. Quando Paige leu pela quinta vez o telegrama de Alfred, pensou: " Vem para So Francisco! Kat e Honey estavam nos respectivos quartos, a dormir. Paige acordou-as:
- Alfred chega em breve! Falta pouco tempo! Estar aqui no domingo!
- Que maravilha - murmurou Kat. - Porque no me acordas s no domingo? Acabei de me deitar.
Honey reagiu melhor. Sentou-se e disse:
- Que bom! Estou ansiosa por o conhecer. H quanto tempo no o vs?
- Dois anos - respondeu Paige -, mas mantivemo-nos sempre em contacto.
- s uma rapariga sortuda - suspirou Kat. - Bem, j estamos todas acordadas. Vou fazer caf.
As trs sentaram-se  mesa da cozinha.
- Porque no fazemos uma festa ao Alfred? - sugeriu Honey.
- Uma espcie de festa de "Boas-vindas ao Noivo",?
-  uma boa ideia - concordou Kat.
- Vamos torn-la numa verdadeira celebrao... com bolo, bales... e at fogo de artifcio!
-Faremos aqui o jantar para ele - disse Honey. Kat abanou a cabea:
- J provei dos teus pratos. Vamos encomendar comida de fora.
Faltavam ainda quatro dias para o domingo e passaram todo o tempo livre a falar da chegada de Alfred. Por milagre, as  trs estavam de folga no domingo. No sbado, Paige conseguiu ir a um salo de beleza. Fez algumas compras e adquiriu, radiante, um vestido novo.
- Fico bem? Acham que ele ir gostar?
- Ficas sensacional! - garantiu Honey. - Espero que ele te merea.
Paige sorriu: - Espero que eu o merea. Vocs iro gostar dele. Ele  fantstico!
No domingo, o elaborado almoo que elas encomendaram estava disposto na mesa de jantar, com uma garrafa de champanhe gelado. Nervosas, as mulheres permaneceram  espera que  Alfred chegasse. s duas horas, a campainha tocou e Paige correu para a porta
e abriu-a. Ali estava Alfred. Com um aspecto um tanto cansado e ligeiramente mais magro. Mas era o seu Alfred. Ao seu lado encontrava-se uma morena que aparentava ter cerca de trinta anos. 
- Paige! - exclamou Alfred.
Paige atirou-se-lhe ao pescoo. Depois, voltou-se para Honey e para Kat e disse com orgulho:
- Este  Alfred Turner. Alfred, estas so as minhas companheiras, Honey Taft e Kat Turner.
- Muito prazer - disse Alfred, voltando-se para a mulher que estava ao seu lado. - E esta  Karen Turner, minha mulher.
As trs mulheres ficaram paralisadas. Paige disse lentamente:
- A tua mulher?
- Sim. - disse, franzindo as sobrancelhas. - No... no recebeste a minha carta?
- Carta?
- Sim. Enviei-a h vrias semanas.
- No...
- Oh. Eu... lamento sinceramente. Expliquei tudo na minha... mas  claro, se no a recebeste a... - A voz comeou a desaparecer. - Lamento sinceramente, Paige. Ns os dois estivemos tanto tempo afastados que eu... e  depois conheci a Karen... e sabes como ...
- Eu sei como  - respondeu Paige, ainda no refeita.
Voltou-se para Karen e forou um sorriso: - Eu... espero que ambos sejam felizes.
- Obrigada.
Houve um silncio embaraoso.
Karen disse:
- Acho que  melhor irmos embora, querido.
- Sim, acho melhor - respondeu Kat.
Alfred passou a mo pelos cabelos:
- Lamento muito, Paige. Eu... bem... adeus.
- Adeus, Alfred.
As trs mulheres ali ficaram a ver partir o casal recm-casado.
- Que grande filho da puta! - disse Kat. - Mas que acto de malvadez.
Os olhos de Paige encheram-se de lgrimas.
- Eu... ele no queria... quero dizer... deve ter explicado tudo na carta.
Honey abraou Paige:
- Devia haver uma lei que permitisse que todos os homens fossem castrados.
- Brindo a isso - afirmou Kat.
- Desculpem - disse Paige. Correu para o quarto e fechou a porta atrs de si.
No saiu de l o resto do dia. Durante os meses seguintes, Paige poucas vezes esteve com Kat e Honey. Tomavam juntas um pequeno-almoo rpido na cafetaria e s vezes cruzavam-se nos corredores. Comunicavam-se principalmente atravs de notas deixadas no apartamento. - O jantar est no frigorfico.
- O microndas est desligado.
- Desculpem, no tive tempo para limpar tudo.
- Que tal irmos as trs jantar fora no sbado?
O horrio impossvel continuou a ser castigador, pondo  prova a resistncia de todos os residentes. 
Paige agradeceu a presso. No lhe sobrava tempo para pensar em Alfred e no maravilhoso futuro que tinham planeado juntos. No entanto, no conseguia esquec-lo. O que ele fizera tinha-a enchido de uma dor que se recusava a abandon-la. Ela torturava-se com o jogo ftil de "e se?". E se eu tivesse ficado com o Alfred em frica? E se ele tivesse vindo para Chicago comigo? E se ele no tivesse conhecido a Karen? E se...? Uma sexta-feira, quando Paige foi ao vestirio para vestir a bata, nesta estava escrita a palavra "cabra" com marcador
preto. Na manh seguinte, quando Paige foi procurar o bloco de notas, no conseguiu encontr-lo. Todos os seus apontamentos tinham desaparecido. "Talvez o tenha pousado noutro lugar", pensou Paige. Mas no conseguia acreditar nisso. O mundo fora do hospital deixara de existir. Paige sabia que o Iraque estava a atacar o Kuwait e que isso tinha sido abafado pelos cuidados exigidos por um doente de quinze anos com leucemia. No dia em que as Alemanhas Oriental e Ocidental se uniram, Paige estava ocupada a tentar salvar a vida de um doente diabtico. Margaret Thatcher demitiu-se de primeira-ministro da Gr-Bretanha, mas, ainda mais  importante, o doente do 214 tinha voltado a andar. O que tornou tudo suportvel foram os mdicos com quem Paige trabalhava. Com algumas excepes, tinham-se dedicado a sarar os outros, aliviando-lhes as dores e salvando-lhes a vida. Paige assistiu aos milagres que eles efectuavam todos os dias e isso f-la sentir-se orgulhosa. A presso maior vinha da SU. A sala de urgncias estava constantemente cheia de pessoas, que sofriam de todas as formas imaginrias de traumas. As prolongadas horas no hospital e as presses causavam tenso nos mdicos e enfermeiras que ali trabalhavam. A taxa de divrcios entre os mdicos era extraordinariamente elevada e as relaes extraconjugais eram comuns. Tom Chang era um dos que tinham problemas. Falou disso a Paige durante a pausa para um caf. 
- Consigo suportar as horas - confidenciou Chang -, mas a minha mulher no consegue. Queixa-se que j no me v e que sou um estranho para a minha filhinha. Ela tem razo. No sei o que fazer.
- A tua mulher j visitou o hospital?
- No.
- Porque no a convidas para almoar, Tom? Deixa-a ver o que fazes aqui e a importncia que isso tem.
Chang animou-se:
- Boa ideia. Obrigado, Paige. Vou fazer isso. Gostaria que a conhecesses. Queres almoar connosco?
- Com todo o prazer.
A mulher de Chang, Sye, era uma encantadora jovem de beleza clssica. Chang mostrou-lhe o hospital e depois almoaram com Paige na cafetaria. Chang disse a Paige que Sye nascera e fora criada em Hong Kong.
- Gosta de So Francisco? - perguntou Paige.
Houve um breve silncio:
-  uma cidade interessante - respondeu Sye, delicadamente -, mas sinto-me como se fosse uma estranha aqui.  uma cidade demasiado grande e barulhenta.
- Mas, segundo me disseram Hong Kong tambm  grande e barulhenta.
- Sou de uma pequena aldeia situada a uma hora de Hong Kong. Ali no h barulho nem automveis e todos se conhecem uns aos outros. - Olhou para o marido:
- L, Tom, eu e a nossa filhinha ramos muito felizes.
Tudo  muito bonito na ilha de Lamma. Possui praias de areia branca e pequenas quintas e muito prximo encontra-se uma pequena aldeia de pescadores, Sak Kwu Wan.  muito pacfica.
- A voz soou muito nostlgica:
- Eu e o meu marido ficvamos juntos a maior parte do tempo, tal como deve estar uma famlia. Aqui, nunca o vejo. Paige respondeu:
- Senhora Chang, sei que neste momento tudo  difcil para si, mas dentro de alguns anos Tom poder abrir o seu prprio consultrio e ento tudo ser mais fcil.
Tom Chang pegou na mo da mulher:
- Vs? Tudo ficar bem, Sye. Ters de ter pacincia.
- Eu compreendo - respondeu ela, mas no havia convico na voz.
Enquanto conversavam entrou um homem na cafetaria e, quando este parou junto  porta, Paige apenas conseguiu ver-lhe a parte de trs da cabea. O corao comeou a bater mais depressa. Ele voltou-se. Era um completo estranho. Chang olhava para Paige:
- Sentes-te bem?
- Sim - mentiu Paige. "Tenho de o esquecer. Tudo acabou."
No entanto, as recordaes de todos aqueles maravilhosos  anos, o divertimento, a excitao, o amor que tinham um pelo outro... "Como  que eu esqueo tudo isso? Ser que consigo persuadir um dos mdicos daqui a fazer-me uma lobotomia? Numa das correrias, Paige encontrou-se com Honey no corredor. Esta arfava e parecia preocupada. 
- Est tudo bem? - perguntou Paige.
Honey tentou sorrir:
- Sim. Tudo bem. - E continuou a correr.
Recentemente, Honey fora designada para assistir um mdico de nome Charles Isler, conhecido no hospital como militar severo.
No primeiro dia de rondas de Honey, ele dissera:
- Tenho estado ansioso por trabalhar consigo, doutora Taft. O doutor Wallace falou-me do seu registo espectacular na escola de medicina. Foi-me dito que vai praticar medicina interna.
- Sim.
- Muito bem. Ento, t-la-ei aqui por mais trs anos.
Comearam a ronda.
O primeiro doente era um jovem mexicano. O Dr. Isler ignorou os outros residentes e voltou-se para Honey:
- Penso que este ser um caso interessante para si, doutora Taft. O doente possui todos os sinais e sintomas clssicos: anorexia, perda de peso, paladar metlico, fadiga, anemia, hiperirritabilidade e descoordenao. Como diagnosticaria? - sorriu, expectante.
Por um momento, Honey olhou para ele:
- Bem, podem ser uma srie de coisas, no  assim?
O Dr. Isler olhou para ela, confuso:
-  um caso claro de...
Um dos outros residentes interrompeu:
- Envenenamento por chumbo?
- Exacto - respondeu o Dr. Isler.
Honey sorriu:
- Claro. Envenenamento por chumbo.
O Dr. Isler voltou-se novamente para Honey:
- Como o trataria?
Honey respondeu evasivamente:
- Bem, existem vrios mtodos de tratamento, no  assim?
Um outro residente afirmou:
- Se o doente esteve exposto por muito tempo, dever ser tratado como um caso potencial de encefalopatia.
O Dr. Isler anuiu:
- Exacto.  isso que estamos a fazer. Estamos a corrigir a desidratao e os distrbios por electrlitos e a administrar-lhe terapia de quelao. O doente seguinte era um homem de cerca de oitenta anos. Tinha os olhos vermelhos e as plpebras praticamente coladas. 
- Daqui a pouco iremos tratar-Lhe dos olhos - garantiu-lhe o Dr. Isler. - Como se sente?
- Oh, no estou to mal assim para um velho.
O Dr. Isler puxou o cobertor a fim de destapar os joelhos e tornozelos inchados. Havia leses nas solas dos ps. Voltando-se para os residentes:
- O inchao  causado pela artrite. - Olhou para Honey: - Em combinao com as leses e a conjuntivite, tenho a certeza  que sabe qual  o diagnstico. Honey respondeu lentamente:
- Bem, pode ser... sabe...
-  a sndroma de Reiter - afirmou um dos residentes. - A causa  desconhecida. Normalmente  acompanhada de febres baixas. O Dr. Isler anuiu:
- Exactamente. - Olhou para Honey: - Qual  o seu prognstico?
- O prognstico?
O residente respondeu:
- O prognstico  incerto. Pode ser tratado com anti-inflamatrios.
- Muito bem - elogiou o Dr. Isler.
Visitaram uma dzia de doentes e, quando terminaram, Honey perguntou ao mdico:
- Poderei falar um momento a ss consigo, doutor Isler?
- Sim. Venha ao meu gabinete.
Quando j se encontravam comodamente sentados, Honey comeou:
- Sei que ficou desapontado comigo. 
- Admito que fiquei um pouco surpreendido por...
- Eu sei, doutor Isler. - interrompeu Honey. - No dormi a noite passada. Para dizer a verdade, fiquei to satisfeita  por trabalhar consigo que eu... no consegui dormir. Olhou para ela, surpreendido:
- Oh. Compreendo. Sabia que tinha de haver uma explicao para... quero dizer, o seu registo da faculdade de medicina era to fantstico. O que a fez decidir ser mdica?
Por momentos Honey baixou a cabea e depois respondeu, suavemente:
- Tive um irmo mais novo que ficou aleijado num acidente.  Os mdicos fizeram tudo o que puderam para o salvar... mas  vi-o morrer. Durou muito tempo e senti-me intil. Foi ento que decidi passar a minha vida a ajudar os outros a melhorar. 
- Os olhos encheram-se de lgrimas.
" to vulnervel",, pensou Isler.
- Estou satisfeito por termos tido esta conversa.
Honey olhou para ele e pensou: "Ele acreditou em mim.
Numa outra zona da cidade, jornalistas e pessoal da televiso esperavam na rua por Lou Dinetto quando este saiu  do tribunal, sorrindo e acenando de forma imponente para os que ali se encontravam. Estavam dois guarda-costas ao seu lado:  um alto e magro, conhecido por o Sombra, e o outro de aspecto pesado, chamado Rhino. Como sempre, elegante e dispendiosamente, Lou Dinetto vestia um fato de seda cinzenta com camisa branca, gravata azul e sapatos de pele de crocodilo. As suas roupas tinham de ser cuidadosamente talhadas para o fazerem parecer bem alinhado, uma vez que era baixo e corpulento, com pernas arqueadas. Tinha sempre um sorriso e um gracejo pronto para a imprensa e estes gostavam de o citar. Dinetto tinha sido indiciado e julgado trs vezes por acusaes que iam de incndio premeditado a chantagem e assassnio, livrando-se de todas elas. Naquele momento, quando ele saa do tribunal, um dos jornalistas gritou:
- Sabia que ia ser absolvido, senhor Dinetto?
Dinetto deu uma gargalhada:
- Claro que sabia. Sou um homem de negcios inocente. O Governo no sabe fazer mais nada seno perseguir-me. Essa  uma das razes por que os nossos impostos so to elevados.
Uma cmara de televiso estava apontada para ele. Ao saber-se focado, Lou Dinetto deixou de sorrir. 
- Senhor Dinetto, pode explicar porque  que duas testemunhas que iriam depor contra si no julgamento por assassnio no compareceram?
-  claro que posso - disse Dinetto. - Eram cidados honestos que decidiram no prestar falsos testemunhos.
- O Governo afirma que o senhor  o chefe da mafia da costa ocidental e que foi o senhor que organizou...
- A nica coisa que eu organizei foi o lugar onde as pessoas se sentam no meu restaurante. Quero que todos se sintam confortveis. - Sorriu para o grupo de jornalistas. - A propsito, esta noite esto todos convidados para jantar e beber  borla no restaurante. Avanou em direco ao passeio, onde uma limusina preta o esperava.
- Senhor Dinetto...
- Senhor Dinetto...
- Senhor Dinetto...
- Vejo-vos logo  noite no meu restaurante, rapazes e raparigas. Todos sabem onde fica.
E Lou Dinetto entrou no carro, acenando e sorrindo. Rhino fechou a porta da limusina e sentou-se no banco da frente. O Sombra sentou-se ao volante.
- Foi fantstico, patro! - disse Rhino. - O senhor sabe mesmo bem como manobrar-lhes o rabo.
- Aonde vamos? - perguntou o Sombra.
- Para casa. Sabia-me bem tomar um banho quente e comer um bom bife.
O carro partiu.
- No gostei daquela pergunta sobre as testemunhas - disse Dinetto. - Tm a certeza de que eles nunca...
- A no ser que consigam falar debaixo de gua, patro.
Dinetto anuiu:
- Muito bem.
O carro atravessou veloz a Fillmore Street. Dinetto perguntou:
- Viram o olhar do advogado de acusao quando o juiz se retirou...?
De repente, surgiu um pequeno co mesmo  frente da limusina. O Sombra virou rapidamente o volante para evitar atropel-lo e travou a fundo. O carro subiu o passeio e bateu num poste de electricidade. Rhino bateu com a cabea no pra-brisas.
- Que merda ests tu a fazer? - gritou Dinetto. - Ests a tentar matar-me?
O Sombra ficou a tremer:
- Desculpe, patro. Apareceu um co  frente do carro...
- E tu decidiste que a vida dele era mais importante do que a minha? Seu parvalho!
Rhino gemia. Voltou-se para trs e Dinetto viu sangue a correr de um corte grande na testa.
- Por amor de Deus! - gritou Dinetto. - V o que fizeste!
- Estou bem - murmurou Rhino.
- Uma merda  que ests! - Dinetto virou-se para o Sombra.
- Leva-o ao hospital.
O Sombra retirou o carro do passeio.
- O Embarcadero fica a alguns quarteires daqui. Vamos lev-lo s urgncias.
- Certo, patro.
Dinetto voltou a recostar-se no assento:
- Um co - disse desgostosamente. - Meu Deus! 
Kat estava nas urgncias quando Dinetto, o Sombra e Rhino entraram. Rhino sangrava muito. Dinetto chamou Kat:
- Hei, voc a!
Kat levantou a cabea:
- Est a falar comigo?
- Com quem julga que estou a falar? Este homem est a sangrar. Trate imediatamente dele.
- H meia dzia de pessoas  frente dele - disse rapidamente Kat. - Ter de esperar pela sua vez.
- No vai esperar nada - respondeu Dinetto. - Voc vai cuidar j dele.
Kat dirigiu-se a Rhino e examinou-o. Pegou num pedao de algodo e pressionou-o contra o corte.
- Mantenha-o a. J volto.
- Disse-lhe que cuidasse j dele - disse Dinetto bruscamente.
Kat voltou-se para Dinetto:
- Esta  a ala de urgncias do hospital. Sou a mdica de servio. Por isso, fique calado ou saia.
O Sombra disse:
- Minha senhora, no sabe com quem est a falar.
 melhor fazer o que lhe foi dito. Este  o senhor Lou Dinetto.
- Uma vez que as apresentaes terminaram - disse Dinetto, impacientemente -, cuide do meu homem.
- O senhor tem problemas de audio - respondeu Kat. - Vou dizer mais uma vez. Fique calado ou saia daqui. Preciso de trabalhar. Rhino afirmou:
- No pode falar com...
Dinetto voltou-se para ele:
- Cala-te! - Olhou novamente para Kat e o tom de voz mudou. - Ficar-lhe-ia grato se tratasse dele o mais depressa possvel.
- Farei os possveis. - Kat sentou Rhino numa maca. 
- Deite-se. Regressarei em breve. - Olhou para Dinetto. - H cadeiras ali ao canto.
Dinetto e o Sombra ficaram a v-la dirigir-se para a outra ponta da sala de urgncias para cuidar dos doentes que ali se encontravam  espera.
- Meu Deus! - disse o Sombra. - Nem sequer sabe quem  o senhor.
- Penso que no iria alterar nada. Ela tem tomates.
Quinze minutos mais tarde, Kat regressou para junto de Rhino e examinou-o.
- No h contusses - afirmou. - Teve sorte. Mas o corte  feio.
Dinetto ficou a ver Kat suturar habilmente a testa de Rhino.
Quando Kat terminou, disse:
- Deve sarar bem. Volte aqui dentro de cinco dias para retirar os pontos.
Dinetto aproximou-se e examinou a testa de Rhino:
- Ficou um ptimo trabalho.
- Obrigada - respondeu Kat. - Bem, se me derem licena...
- Espere um momento - disse Dinetto. Voltou-se para o Sombra. - D-lhe uma nota c.
O Sombra tirou do bolso uma nota de cem dlares:
- Tome.
- A Caixa fica l fora.
- Isto no  para o hospital.  para si:
- No, obrigada.
Dinetto ficou a ver Kat afastar-se e comear a tratar de outro doente.
O Sombra aventou:
- Talvez no seja o suficiente, patro.
Dinetto abanou a cabea:
- Ela  uma tipa independente. Gosto disso. - Ficou calado por momentos. - O doutor Evans vai-se reformar, no ?
- Sim.
- Certo. Quero que descubras tudo sobre esta mdica.
- Para qu?
- Influncia. Acho que ela poder vir a ser muito til.
Os hospitais so governados por enfermeiras. Margaret Spencer, a enfermeira-chefe, trabalhava no Embarcadero desde h vinte anos e sabia onde estavam enterrados todos os corpos - literal e figurativamente. A enfermeira Spencer estava encarregada do hospital e os mdicos que no aceitavam esse facto metiam-se em sarilhos. Sabia quais eram os mdicos que se drogavam ou bebiam, quais os incompetentes e quais os que mereciam o seu apoio.
Sob o seu controlo estavam todas as enfermeiras-estudantes, enfermeiras registadas e enfermeiras das salas de operaes. Era Margaret Spencer quem as designava para as vrias cirurgias e, dado que estas variavam entre indispensveis e incompetentes, era melhor que os mdicos se dessem bem com ela. Tinha poderes para designar uma auxiliar de limpeza para assistir a uma complicada remoo renal ou, se simpatizasse com o mdico, enviar a sua enfermeira mais competente para o ajudar numa simples tonsilectomia.
Entre os muitos preconceitos de Margaret Spencer, estava a antipatia para com mdicas e negros. Jat Hunter era uma mdica negra. Kat passava um mau bocado. Nada era abertamente dito ou feito e, contudo, a discriminao surgia de maneira demasiado subtil para ser apontada. As enfermeiras que mandava chamar no estavam disponveis e as que lhe eram designadas eram quase incompetentes. Frequentemente, Kat era enviada para examinar doentes clnicos masculinos com doenas venreas. Aceitou os primeiros casos como rotina, mas quando lhe foram dados meia dzia para examinar num nico dia, ficou desconfiada. Num intervlo para o almoo, disse a Paige:
-J assististe muitos homens com doenas venreas?
Por um momento, Paige ficou pensativa: - um, na semana passada. Um empregado do hospital. "Vou ter de resolver isto de alguma maneira" - pensou Kat. A enfermeira Spencer tinha planeado livrar-se da Dra. Hunter dificultando-lhe a vida de tal maneira que esta seria 
Obrigada a desistir, mas no contara com a dedicao ou a habilidade  de Kat. Pouco a pouco, Kat foi ganhando a confiana dos colegas com quem trabalhava e dos doentes. Mas a verdadeira oportunidade surgiu devido ao que acabou por ser conhecido no hospital como a famosa chantagem do sangue de porco. Um dia, durante a ronda da manh, Kat trabalhava com um residente chefe, chamado Dundas. Encontravam-se junto  cabeceira de um doente inconsciente. - O senhor Levy sofreu um acidente de automvel - informou Dundas aos residentes mais novos. - Perdeu muito sangue e necessita de uma transfuso imediata. Neste momento, o hospital no tem sangue suficiente. Este homem tem famlia mas esta recusa-se a doar-lhe sangue.  revoltante. Kat perguntou:
- Onde est a famlia dele?
- Na sala de espera das visitas - respondeu o Dr. Dundas.
- Permite-me que fale com eles? - perguntou Kat.
- No vai adiantar nada. J falei com eles. J tomaram a deciso.
Quando a ronda terminou, Kat dirigiu-se  sala de espera das visitas. A esposa do homem e filhos j grandes encontravam-se l. O filho vestia um solidu e trajes rituais judeus.
- Senhora Levy? - perguntou Kat, dirigindo-se  mulher. 
Esta levantou-se:
- Como est o meu marido? O mdico vai oper-lo?
- Sim - respondeu Kat.
- Bem, no nos pea para doarmos sangue. Actualmente  muito perigoso por causa da sida e tudo o mais.
- Senhora Levy - disse Kat -, no se apanha sida por doao de sangue. No  posssvel...
- No me diga! Eu leio os jornais. Sei o que .
Kat estudou-a por um momento:
- J percebi isso. Bom, est bem, senhora Levy. Neste momento o hospital no tem sangue suficiente, mas ns j solucionmos o problema.
- Que bom.
- Vamos dar ao seu marido sangue de porco.
Me e filho olharam chocados para Kat:
- O qu?
- Sangue de porco - disse Kat, alegremente. - Provavelmente no ir fazer-lhe mal. - E comeou a afastar-se.
- Um momento, por favor! - suplicou a mulher.
Kat parou:
- Sim?
- Eu, am... dem-nos algum tempo, por favor.
- Com certeza.
Quinze minutos mais tarde, Kat foi ter com o Dr. Dundas:
- No tem de se preocupar mais com a famlia do senhor Levy.
Todos eles esto dispostos a doar sangue. No hospital, a histria transformou-se imediatamente numa lenda. Os mdicos e enfermeiras que antes ignoravam Kat, arranjaram maneira de falar com ela.  Alguns dias mais tarde, Kat entrou no quarto particular de Tom Leonard, um doente com lcera. Este comia um enorme  almoo que trouxera consigo, depois de o ter adquirido numa casa de comestveis muito prxima. Kat aproximou-se da cama:
- O que est a fazer?
Ele ergueu a cabea e sorriu:
- A comer um almoo decente, para variar.  servida? H muito aqui.
Kat chamou uma enfermeira.
- Sim, doutora?
- Tire esta comida daqui. O senhor Leonard est sob dieta rigorosa do hospital. No leu o grfico?
- Sim, mas ele insistiu...
- Retire tudo, por favor.
- Eh! Espere um momento! - protestou Leonard.
- No consigo comer a papa que este hospital me d!
- Vai comer, se quiser livrar-se da sua lcera. - Kat voltou-se para a enfermeira: - Leve isto daqui.
Trinta minutos mais tarde, Kat foi chamada ao gabinete do administrador.
- Mandou-me chamar, doutor Wallace?
- Sim. Sente-se. Tom Leonard  um dos seus doentes, no  assim?
- Exacto. Hoje,  hora do almoo, apanhei-o a comer uma sanduche de carne muito condimentada com picles e salada de batata, cheia de especiarias, e...
- E tirou-a das mos.
- Claro.
Wallace inclinou-se na cadeira:
- Doutora, provavelmente no deu conta de que Tom Leonard faz parte do quadro supervisor do hospital. Queremos que ele se sinta bem. Percebe o que quero dizer?
Kat olhou para ele e disse, obstinadamente:
- No, senhor.
Ele pestanejou:
- O qu?
- Parece-me a mim que a maneira de manter Tom Leonard feliz  ajud-lo a ser saudvel. Nunca ficar curado se encher o estmago at rebentar. Benjamin Wallace forou um sorriso:
- Porque no o deixamos tomar essa deciso?
Kat levantou-se:
- Porque eu sou a mdica dele. Mais alguma coisa?
-Eu... hum... no.  tudo.
Kat saiu do gabinete.
Benjamin Wallace, abismado, manteve-se ali sentado. Mdicas!
Kat estava de servio  noite quando recebeu uma chamada:
- Doutora Hunter, acho melhor vir ao trezentos e vinte. 
- Vou j para a.
A doente do quarto 320 era a Sra. Molloy, uma doente cancerosa com cerca de oitenta anos, de prognstico muito fraco. Quando Kat se aproximava da porta ouviu vozes l dentro, a discutirem alto, mas ela entrou no quarto. A Sra. Molloy estava deitada, cheia de sedativos mas consciente. O filho e duas filhas encontravam-se no quarto. O filho disse:
- Acho que devemos dividir os bens por trs.
- No! - afirmou uma das filhas. - Laurie e eu  que cuidmos da mam. Quem tem estado a limpar e a cozinhar para ela? Ns! Bem, temos direito ao dinheiro dela e...
- Sou to carne e sangue dela como vocs! - gritou o homem.
A Sra. Molloy, indefesa, ouvia.
Kat estava furiosa:
- Com licena - disse ela.
Uma das mulheres olhou para ela:
-Venha mais tarde, enfermeira. Estamos ocupados.
Kat disse zangada:
- Esta  minha doente. Dou-vos dez segundos para sarem deste quarto. Podem aguardar na sala de espera.
Agora saiam, antes que chame a segurana para os tirar daqui para fora. O homem comeou a dizer qualquer coisa, mas o olhar de Kat f-lo interromper. Voltou-se para as irms e gesticulou:
- Podemos falar l fora.
Kat ficou a ver os trs abandonarem o quarto. Voltou-se para a Sra. Molloy e abanou a cabea:
- Eles no quiseram dizer isso - disse Kat, gentilmente.
Sentou-se na borda da cama, pegou na mo da velha e ficou a v-la chorar at adormecer.
"Todos ns estamos a morrer", pensou Kat. "Esqueam o que disse Dylan Thomas. O verdadeiro truque  entrar suavemente nesse sono eterno."
Kat estava a tratar um doente quando um empregado entrou na sala.
- H uma chamada urgente para si na secretaria, doutora.
Kat franziu as sobrancelhas:
- Obrigada. - Voltou-se para o doente, que tinha gesso em todo o corpo e as pernas suspensas por uma roldana: - Volto j. - No corredor, na rea das enfermeiras, levantou o telefone: - Estou?
- Ol, mana!
- Mike! - Ficou eufrica ao ouvi-lo, mas a excitao transformou-se logo em preocupao: - Mike, disse-te para nunca me procurares aqui. Tens o nmero do apartamento se...
- Eh, desculpa. Isto no podia esperar. Tenho um pequeno problema.
Kat sabia o que ia ouvir.
- Pedi dinheiro a algum para investir num negcio...
Kat nem quis saber que negcio era.
- E fracassou. Sim. E agora ele quer o dinheiro de volta.
- Quanto, Mike?
- Bem, se pudesses mandar cinco mil...
- O qu?
A enfermeira da secretaria olhava curiosamente para Kat.
Cinco mil dlares. Kat baixou a voz:
-No tenho essa quantia. Posso... Posso enviar-te metade agora e o restante dentro de algumas semanas. Est bem assim?
- Acho que sim. Detesto aborrecer-te, mana, mas sabes como .
Kat sabia exactamente como era. O irmo tinha vinte e dois anos e no raro envolvido em negcios misteriosos. Estava sempre metido no meio de gangs e s Deus sabia o que faziam, mas Kat sentia uma grande responsabilidade para com ele. " tudo por minha culpa", pensou Kat. "Se no tivesse fugido de casa, abandonando-o...
- No te metas em sarilhos, Mike. Gosto muito de ti.
- Tambm gosto de ti, Kat.
"De algum modo vou ter de arranjar esse dinheiro", pensou. "Mike  tudo o que possuo no mundo. O Dr. Isler estava ansioso por trabalhar novamente com Honey Taft. Tinha perdoado o seu comportamento absurdo e, na realidade, sentia-se lisonjeado com a admirao que esta nutria por ele. Mas desta vez, de novo a fazer a ronda, Honey ficou atrs dos outros residentes e nunca tentou adiantar-se na resposta s perguntas dele. Trinta minutos depois da ronda, o Dr. Isler estava sentado no gabinete de Benjamin Wallace.
- Qual  o problema? - perguntou Wallace.
-  a doutora Taft.
Wallace olhou para ele, verdadeiramente surpreendido:
- A doutora Taft? Tem as melhores recomendaes que jamais  vi.
- Isso  que me deixa intrigado - afirmou o Dr. Isler.
- Tenho recebido relatrios de alguns dos outros residentes.
Ela tem feito alguns diagnsticos errados e cometido alguns erros graves. Quero saber que raio se passa aqui.
- No compreendo. Ela frequentou uma ptima faculdade de medicina.
- Talvez fosse melhor ligar ao reitor da faculdade - sugeriu o Dr. Isler.
-  Jim Pearson.  um bom homem. Vou telefonar-lhe.
Alguns minutos mais tarde, Wallace falava ao telefone com Jim Pearson. Conversaram de banalidades e depois Wallace disse:
- Liguei por causa de Betty Lou Taft.
Houve um breve silncio:
- Sim?
- Estamos a ter alguns problemas com ela, Jim. Foi admitida aqui devido s tuas maravilhosas recomendaes.
- Exacto.
- Para ser franco, tenho o teu relatrio aqui  minha frente. Diz que ela foi uma das melhores alunas de sempre.
- Est correcto.
- E que ela seria um louvor para a profisso mdica.
- Sim.
- Houve alguma dvida sobre...
- Nenhuma - disse o Dr. Pearson com firmeza.
- Nenhuma mesmo. Talvez seja um tanto nervosa. Ela  muito sensvel, mas se lhe derem uma oportunidade, tenho a certeza que ficar bem.
- Bem, agradeo o conselho. Com certeza que iremos dar-lhe todas as oportunidades. Obrigado.
- De nada. - A linha caiu.
Jim Pearson ficou ali sentado, odiando-se pelo que acabara de fazer. "A minha mulher e os meus filhos esto em primeiro lugar." Honey Taft teve a pouca sorte de ter nascido no seio de uma famlia de bem-sucedidos. O seu vistoso pai era o fundador e presidente de uma grande empresa de computadores de Mnfis, Tennessee, a sua bela me era uma cientista de gentica e as irms gmeas mais velhas eram to atraentes, inteligentes e ambiciosas como os pais. Os Tafts encontravam-se entre as famlias mais proeminentes de Mnfis. Honey nascera inconvenientemente quando as irms tinham seis anos. 
- Honey foi o nosso pequeno acidente -" dizia a me s amigas. - Eu quis fazer um aborto, mas Fred foi contra. Agora est arrependido.
Onde as irms eram espantosas, Honey era vulgar. Onde elas eram brilhantes, Honey era mediana. As irms tinham comeado a falar aos nove meses. Honey s disse a primeira palavra quase aos dois anos. 
- Chamamos-lhe "a palerma" - troava o pai. - Honey  o patinho feio da famlia Taft. S que acho que ela nunca ir transformar-se num cisne.
No  que Honey fosse feia, mas tambm no era bonita. Tinha um aspecto vulgar, com um rosto magro e comprido, cabelo alourado e um corpo pouco invejvel. O que Honey realmente possua era uma extraordinria e doce disposio, qualidade no muito prezada numa famlia de pessoas competentes e bem-sucedidas. Honey lembrava-se que, desde muito cedo, o seu maior desejo era agradar aos pais e s irms, fazendo-os gostar dela. Foi um esforo ftil. Os pais estavam ocupados com as respectivas carreiras e as irms no tinham tempo para mais nada seno para concursos de beleza e bolsas de estudo. Para agravar a situao, Honey era invulgarmente envergonhada. Consciente ou inconscientemente, a famlia tinha-lhe incutido uma profunda  sensao de inferioridade. No liceu, Honey era conhecida como a Solitria. ia sozinha aos bailes escolares e festas, sorria e procurava esconder as suas tristezas para no estragar a festa dos outros. Via as irms sarem com os rapazes mais populares do liceu e, em seguida, subia para o seu solitrio quarto para se dedicar  aos estudos. E evitar chorar. Nos fins-de-semana e durante as frias de Vero, Honey juntava algum dinheiro cuidando de crianas. Gostava de  cuidar de crianas e estas adoravam-na. Quando Honey no estava a trabalhar, saa de casa e ia sozinha explorar Mnfis. Visitou Graceland, onde Elvis  Presley tinha vivido, e percorreu a Beale Street, onde os blues tiveram incio. Visitou o Pink Palace Museum e o Planetarium, com o seu rugidor e assustador dinossauro. Foi ao aqurio. E Honey estava sempre sozinha. No sabia que a sua vida estava prestes a sofrer uma mudana radical. Honey sabia que muitas das suas colegas tinham encontros amorosos. Falavam constantemente disso no liceu:
-J foste para a cama com o Ricky? Ele  o melhor...!
-Joe  o mximo em orgasmos...
- Ontem  noite sa com o Tony. Estou exausta. Que animal!
Logo  noite vou sair com ele outra vez...
Honey ali ficava a ouvir as conversas e sentia uma inveja doce-amarga e a sensao de que nunca iria saber como era o sexo. "Quem poder querer-me?,", perguntava-se a si prpria.
Numa sexta-feira, houve um baile no liceu. Honey no tencionava ir, mas o pai disse-lhe:
- Sabes, estou preocupado. As tuas irms disseram-me que s uma solitria e que no vais ao baile por no conseguires arranjar um par.
Honey corou:
- Isso no  verdade - disse. - Tenho um par e vou. - "No o deixes perguntar quem  o par,", rezou Honey.
Ele no perguntou.
Assim, Honey viu-se no baile sentada no canto habitual, a ver os outros danar e divertirem-se ao mximo. Foi ento que aconteceu o milagre. Roger Merton, o capito da equipa de futebol e o rapaz mais popular do liceu, estava na pista de dana a discutir com a namorada. Tinha estado a beber.
- Tu s um parvalho intil e egosta! - disse ela.
- E tu s uma cabra parva.
- Vai-te foder.
- No posso foder sozinho, Sally. S posso foder algum mais. Algum que eu queira.
- Ento vai! - Correu para fora da pista de dana.
Honey no pde deixar de ouvir.
Merton viu-a olhar para ele:
- Para onde pensas que ests a olhar? - perguntou em tom zangado.
- Nada - respondeu Honey.
- Vou mostrar quela puta! Julgas que no lhe mostro?
- Eu... sim.
- Podes ter a certeza. Vamos beber qualquer coisa.
Honey hesitou. Merton estava obviamente bbedo.
- Bem, eu no...
- ptimo. Tenho uma garrafa no carro.
- Acho que no devo...
Pegou no brao de Honey e puxou-a para fora da sala.
Ela seguiu-o, por no querer armar uma cena e deix-lo embaraado.
L fora, Honey tentou soltar-se:
-Roger, no penso que seja uma boa ideia. Eu...
- O que  que tens... medo?
- No, eu...
- Ento est bem. Vamos.
Levou-a at ao carro e abriu a porta. Honey manteve-se de p por um momento.
- Entra.
- S posso ficar um momento - disse Honey.
Entrou no carro porque no queria aborrecer Roger.
Ele sentou-se ao seu lado.
- Vamos mostrar quela cabra estpida, no vamos? - puxou de uma garrafa de usque. - Toma.
Honey j uma vez tinha provado uma bebida alcolica e detestara-a. Mas no quis magoar os sentimentos de Roger. Olhou para ele e, com relutncia, tomou um pequeno gole.
- Okay! - disse. - s nova no liceu, hem?
Honey fazia parte de trs das aulas dele:
- No - respondeu. - Eu...
Roger inclinou-se e comeou a brincar com os seios dela.
Espantada, Honey afastou-se.
- Eh! Vem c. No me queres agradar? - perguntou.
E essa foi a frase mgica. Honey queria agradar a todos, e se esta era a maneira de o fazer...
No desconfortvel banco de trs do carro de Merton, Honey teve relaes pela primeira vez e isso abriu um mundo incrivelmente novo para ela. No sentiu muito prazer com o acto sexual, mas isso no foi importante. O importante foi que Merton gostou. Na realidade,  Honey ficou admirada com a forma como ele tinha gostado. Parecia que o tinha deixado extasiado. Nunca vira ningum gostar tanto de algo. "Ento  assim que se satisfaz um homem...,", pensou Honey. Era uma manifestao divina. Honey no conseguia esquecer o milagre que lhe tinha acontecido. Deitou-se na cama, recordando a dureza do membro de Merton introduzido nela, movimentando-se cada vez mais depressa, e depois os gemidos: "Oh, sim, sim... Jesus, s fantstica, Sally..." E Honey nem sequer se tinha importado com isso. Tinha agradado ao capito da equipa de futebol! O rapaz mais  popular do liceu! "E eu na realidade nem sequer sabia o que estava a fazer", pensou ela. "Se eu soubesse bem como agradar a um homem..." Foi ento que Honey teve a sua segunda manifestao divina. Na manh seguinte, Honey dirigiu-se  Pleasure Chest, uma livraria pornogrfica da Poplar Street, e comprou meia dzia de livros erticos. Escondeu-os em casa e leu-os na privacidade do seu quarto. Ficou espantada com o que lia. Devorou as pginas de Jardim Perfumado e Kama Sutra, de Artes de Amar Tibetanas, de Alquimia do xtase e depois foi comprar mais. Leu as palavras de Gedun Chopel e os contos ocultos de Kanchinatha. Estudou as fotografias excitantes das trinta e sete posies para fazer amor e aprendeu o significado da meia lua e do crculo, da ptala de ltus e dos pedaos de nuvem e a forma de se mexer. Honey tornou-se perita nos oito tipos de sexo oral, nos caminhos dos dezasseis prazeres e no xtase dos vrios tipos de sexo. Sabia como ensinar um homem a fazer karuna para aumentar o prazer. Pelo menos teoricamente. Honey achou que estava apta a pr em prtica os conhecimentos. O Kama Sutra tinha vrios captulos sobre afrodisacos para excitar um homem, mas uma vez que Honey no sabia onde obter Hedysarum gangeticum, a planta kshirika ou Xanthochymus pictorius, inventou os seus prprios substitutos. Na semana seguinte, quando Honey encontrou Roger Merton na sala de aula, dirigiu-se a ele e disse: 
- Gostei muito da outra noite. Podemos repetir?
S passado um momento, percebeu quem Honey era.
- Oh. Com certeza. Porque no? Os meus pais vo sair logo  noite. Porque no apareces l por volta das oito horas?
Nessa noite, quando Honey chegou a casa de Merton levava consigo um pequeno frasco de xarope de bordo. 
- Para que  isso? - perguntou ele.
- J te mostro - respondeu Honey.
E mostrou-lhe.
No dia seguinte, Merton contou aos colegas do liceu tudo sobre Honey.
- Ela  incrvel - disse. - No imaginam o que ela  capaz de fazer com um pouco de xarope morno!
Nessa tarde, meia dzia de rapazes convidaram Honey para sair com eles. Da em diante, comeou a sair todas as noites. Os rapazes andavam satisfeitos e isso tornara Honey muito 
feliz. Os pais dela estavam encantados com a sbita popularidade da filha. 
- Foi preciso algum tempo para a nossa filha florescer - disse orgulhosamente o pai -, mas agora ela transformou-se numa verdadeira Taft!
Honey teve sempre notas baixas a matemtica e sabia que o teste final lhe tinha corrido mal. O professor de matemtica, o Sr. Janson, era solteiro e vivia perto do liceu. Uma tarde, Honey foi visit-lo. Ao abrir a porta ficou admirado de a  ver.
- Honey! O que fazes aqui?
- Preciso da sua ajuda - respondeu ela. - O meu pai vai matar-me se eu chumbar. Trouxe alguns problemas de matemtica e venho perguntar-lhe se me pode ajudar a resolv-los.
Ele hesitou um momento:
- Isto no  normal, mas... muito bem.
O senhor Janson gostou de Honey. No era como as outras raparigas da sua turma. Estas eram speras e indiferentes, enquanto Honey era sensvel e dedicada, sempre pronta a satisfazer. Desejou que ela tivesse mais aptides para matemtica. Janson sentou-se no sof ao lado de Honey e comeou a explicar as misteriosas complexidades dos logaritmos. Honey no estava interessada em logaritmos. Enquanto o professor falava, Honey foi-se aproximando cada vez mais  dele. Comeou a respirar para cima do pescoo e ouvido dele e, sem perceber o que estava a acontecer, o Sr. Janson deu com as calas desapertadas.
Ficou espantado a olhar para Honey:
- Que ests tu a fazer?
- Desejo-o desde o primeiro momento em que o vi - respondeu Honey. Abriu a bolsa e retirou uma pequena lata de natas batidas.
- O que  isso?
-J lhe mostro...
Honey obteve vinte valores em matemtica... No foram somente os acessrios que Honey utilizava que a tornaram popular, mas tambm os conhecimentos que obteve de todos os livros antigos sobre erotismo que leu. Ela satisfez os parceiros com tcnicas que eles nem sequer sonhavam, que tinham milhares de anos e estavam h muito esquecidas. Deu um novo significado  palavra "xtase". As notas de Honey melhoraram substancialmente e, de um momento para o outro, tornou-se ainda mais popular do que as irms quando andavam no liceu. Honey foi convidada para  jantar no Private Eye e no Bombay Bicycle Club, bem como no Ice Capades, em Memphis Mall. Os rapazes levaram-na a esquiar no Cedar Cliff e saltar de pra-quedas no Aeroporto Landis. Os ltimos anos de liceu foram igual e socialmente bem sucedidos. Uma noite, ao jantar, o pai disse:
- Em breve irs terminar o liceu. Est na hora de pensarmos no teu futuro. J sabes o que pretendes fazer da tua vida?
Ela respondeu de imediato:
- Quero ser enfermeira.
O rosto do pai ficou vermelho:
- Queres dizer mdica!
- No, pai. Eu...
- Tu s uma Taft. Se queres seguir medicina, sers uma mdica. estamos entendidos?
- Sim, pai.
Quando disse ao pai que queria ser enfermeira, Honey dizia a verdade. Gostava de cuidar das pessoas, de as ajudar e alimentar. Ficou assustada com a ideia de se tornar mdica e ser responsvel pela vida dos outros, mas sabia que no podia desapontar o pai. "Tu s uma Taft!, Conquanto as suas notas no fossem suficientemente boas para ingressar na faculdade de medicina, a influncia do pai era- o, dado que se tratava de um dos principais contribuintes da  Faculdade de Knoxville, Tennessee. Reuniu-se com o reitor, Dr. Jim Pearson.
- Est a pedir-me um grande favor - disse Pearson -, mas digo-lhe o que vou fazer. Vou admitir Honey numa base experimental. Se no fim de seis meses julgarmos que no est qualificada para continuar, teremos de a mandar embora.
-  justo. Ela ir surpreender-vos.
Ele teve razo.
O pai de Honey organizou tudo de forma a que ela ficasse em Knoxville na casa de um primo seu, o reverendo Douglas  Lipton. Douglas Lipton era padre na Igreja de So Joo Baptista. Tinha cerca de sessenta anos e era casado com uma mulher dez anos mais velha.
O padre ficou feliz por ter Honey em sua casa. - Ela  como uma lufada de ar fresco - disse  esposa. Nunca tinha visto ningum to ansioso por satisfazer. Honey saiu-se razoavelmente bem na faculdade de medicina, mas faltava-lhe a dedicao. Estava ali apenas para agradar  ao pai. Os professores simpatizavam com ela. Havia nela uma tal bondade genuna que os professores desejavam que tivesse xito. Por ironia, Honey era particularmente fraca em anatomia. Durnte a oitava semana, o professor da disciplina mandou-a chamar.
- Receio ter de a chumbar - disse com ar infeliz.
"No posso chumbar", pensou Honey. "No posso deixar o meu pai ficar mal. O que teria aconselhado Boccaccio?",
Honey aproximou-se do professor:
- Vim para esta escola por sua causa. Ouvi tanta coisa a seu respeito. - Aproximou-se ainda mais. - Quero ser como o senhor. - E ainda mais perto. - Ser mdica significa tudo  para mim. - E mais perto ainda. - Por favor, ajude-me. Uma hora mais tarde, quando Honey saiu do gabinete, tinha as respostas para o exame seguinte. Antes de Honey terminar a faculdade de medicina, seduziu vrios dos seus professores. Havia em si um ar de desamparo tal que ningum conseguia resistir. Todos tinham a impresso de que eram eles que a seduziam e sentiam-se culpados por abusarem da sua inocncia. O Dr. Jim Pearson foi o ltimo a sucumbir a Honey. Ficou intrigado com as informaes que ouviu acerca dela; rumores sobre as suas extraordinrias habilidades sexuais. Um dia, mandou chamar Honey para conversarem sobre as notas.  Esta levou consigo uma pequena caixa de acar em p e, antes da tarde terminar, o Dr. Pearson estava to engatado quanto os outros. Honey f-lo sentir-se jovem e insacivel. F-lo  pensar que era um rei que a tinha subjugado e tornado sua escrava. Ele procurou no pensar na mulher e nos filhos. Honey gostava genuinamente do reverendo Douglas Lipton e sentia-se aborrecida por a esposa ser uma mulher fria e frgida que estava sempre a critic-lo. Honey sentiu pena do padre. "Ele no merece isso", pensou. "Precisa de conforto. A meio da noite, quando a Sra. Lipton se encontrava de visita  irm, Honey entrou no quarto do padre. Estava nua. 
- Douglas...
Os olhos abriram-se:
- Honey? Sentes-te bem?
- No - respondeu. - Posso conversar consigo?
- Claro. - Estendeu o brao para acender o candeeiro.
- No acenda a luz. - Meteu-se na cama ao seu lado.
- O que se passa? No te sentes bem?
- Estou preocupada.
- Com qu?
- Consigo. O senhor merece ser amado. Quero fazer amor consigo.
Ele ficou totalmente desperto:
- Meu Deus! - disse. - Ainda s uma criana. No podes estar a falar a srio.
- Estou. A sua mulher no lhe d amor...
- Honey, isto  impossvel!  melhor regressares j para o teu quarto e...
Sentia o corpo dela contra o seu.
- Honey, no podemos fazer isto. Eu...
Os lbios dela estavam sobre os seus e o corpo em cima do seu, deixando-o completamente extasiado. Honey passou a noite na cama dele. s seis da manh, a porta para o quarto abriu-se e a Sra. Lipton entrou. Permaneceu ali, a olhar para os dois e seguidamente saiu sem dizer uma palavra. Duas horas mais tarde, o reverendo Douglas Lipton suicidou-se na garagem. Quando Honey soube da notcia, ficou devastada e incapaz de acreditar no que sucedera. O xerife foi l a casa e teve uma conversa com a viva. Quando terminou, foi procurar Honey:
- Por respeito  famlia, vamos declarar a morte do reverendo Douglas Lipton como "suicdio por razes desconhecidas", mas sugiro que deixe imediatamente a cidade e nunca mais c volte. Honey foi para o Embarcadero County Hospital, em So Francisco. Com as brilhantes recomendaes do Dr. Jim Pearson. Para Paige, o tempo tinha perdido todo o significado. No havia princpio nem fim e os dias e as noites sucediam-se no mesmo ritmo. O hospital tinha-se transformado em toda a  sua vida. O mundo exterior no era mais do que um planeta  estranho e distante. O Natal chegou e passou, dando incio ao Ano Novo. No mundo exterior, as tropas americanas tinham libertado o Kuwait dos Iraquianos. Nunca mais ouvira nada de Alfred. "Ele h-de descobrir que cometeu um erro", pensou Paige. H-de regressar para mim." As irritantes chamadas telefnicas matinais tinham parado to repentinamente como haviam comeado. Paige sentia-se aliviada por nunca mais se ter visto envolvida em incidentes misteriosos ou ameaadores. Era quase como se tivessem sido apenas um pesadelo... excepto,  claro, o facto de no ter sido assim. A rotina continuou a ser frentica. No havia tempo para conhecer melhor os doentes. Eram simplesmente vesculas ou fgados rebentados, fmures fracturados e costelas partidas. O hospital era uma selva cheia de demnios mecnicos - respiradores, monitores do ritmo cardaco, equipamento de ecografia, raios X... E cada uma possua o seu prprio som. Havia apitos, campainhas e a conversa constante dos sistemas de altifalantes, todos eles misturando-se numa dissonncia ruidosa e louca. O segundo ano de residncia foi um ritual de passagem. Os residentes comearam a ter tarefas mais exigentes e a vigiar  o novo grupo, sentindo um misto de desprezo e arrogncia para com estes. 
- Pobres diabos - disse Kat a Paige. - Nem sonham o que lhes espera.
- Em breve iro descobrir.
Paige e Honey comearam a ficar preocupadas com Kat. Estava a perder peso e parecia deprimida. A meio de uma conversa, deparo-se-lhes Kat a olhar para o vazio, semblante vazio. De tempos a tempos recebia uma chamada misteriosa e, aps cada uma delas, a sua depresso parecia piorar. Paige e Honey sentaram-se a fim de terem uma conversa com
ela.
- Est tudo bem? - perguntou Paige. - Sabes que gostamos de ti e se tiveres algum problema gostaramos de ajudar.
- Obrigada. Agradeo a vossa preocupao mas no h nada que possam fazer.  um problema de dinheiro.
Honey olhou para ela, surpreendida:
- Para que precisas de dinheiro? Nunca samos. No temos tempo para comprar nada. Ns...
- No  para mim.  para o meu irmo. - Kat nunca lhes dissera que tinha um irmo.
- No sabia que tinhas um irmo - disse Paige.
- Vive em So Francisco? - perguntou Honey.
Kat hesitou:
- No. Vive no leste. Em Detroit. Tero de conhec-lo, um dia.
- Gostaramos muito. O que  que ele faz?
-  uma espcie de empresrio - respondeu Kat, vagamente.
- Neste momento anda com pouca sorte, mas Mike ir recompor-se. Ele consegue sempre. "Deus queira que esteja certa", pensou ela.
Harry Bowman tinha sido transferido de um programa residencial de Iowa. Era uma pessoa bem-humorada e sempre bem-disposta, que sara da rota para ser agradvel aos  outros.
Um dia, disse a Paige:
- Amanh  noite dou uma pequena festa. Se a senhora, e as doutoras Hunter e Taft estiverem livres, porque no aparecem por l? Penso que iro divertir-se.
- Tudo bem - respondeu Paige. - O que devemos levar?
Bowman deu uma gargalhada:
- No tragam nada.
- Tem a certeza? - perguntou Paige. - Uma garrafa de vinho ou...
- Esqueam! Vai ser no meu pequeno apartamento.
O pequeno apartamento de Bowman acabou por ser um apartamento de cobertura com 10 quartos e todo mobilado  antiga. As trs mulheres entraram e olharam surpreendidas.
- Meu Deus! - espantou-se Kat. - Donde veio isto tudo?
- Fui suficientemente esperto para ter um pai inteligente - respondeu Bowman. - Deixou-me todo o seu dinheiro.
- E voc trabalha? - perguntou Kat, maravilhada.
Bowman sorriu:
- Gosto de ser mdico.
O bufete era constitudo por caviar Beluga Malossol, pat de campagne, salmo escocs fumado, ostras na concha, pernas de caranguejo, crudits com molho vinagrete e champanhe Cristal. Bowman tivera razo. Na realidade, as trs divertiram-se bastante.
- Nem sei como agradecer - disse Paige a Bowman ' no final da noite, quando estavam de sada.
- Esto livres no sbado? - perguntou.
- Sim.
- Tenho um pequeno barco a motor. Vou lev-las a dar um passeio.
- Parece ptimo - s quatro da manh Kat foi acordada, quando dormia profundamente no quarto dos mdicos de servio.
- Doutora Hunter, sala de urgncias trs... Doutora Hunter, urgncias trs.
Kat levantou-se, tentando lutar contra o cansao. Esfregando os olhos para afastar o sono, apanhou o elevador para baixo at  sala de urgncias. Um empregado cumprimentou-a  porta:
- Ele est ali no canto. Est cheio de dores.
Kat caminhou para o doente:
- Sou a doutora Hunter - disse, sonolenta.
Este resmungou:
- Jesus, doutora. Tem de fazer qualquer coisa. As minhas costas esto a matar-me.
Kat bocejou:
- H quanto tempo tem dores?
- Desde h cerca de duas semanas.
Kat olhou para ele, confusa:
- Duas semanas? Porque no veio logo?
O doente tentou mexer-se e estremeceu:
- Para dizer a verdade, detesto hospitais.
- Ento porque veio agora?
Com um ar mais alegre, respondeu:
- Vai haver um grande torneio de golfe e se no tratar das minhas costas no poderei estar presente.
Kat respirou profundamente:
- Um torneio de golfe.
- Sim.
Teve de se esforar para se controlar:
- Vou dizer-lhe o que deve fazer. V para casa. Tome duas aspirinas e, se de manh no estiver melhor, telefone-me.
- Voltou-se e saiu rapidamente da sala, deixando-o a gesticular.
O pequeno barco a motor de Harry Bowman era uma suave lancha-cruzeiro de quinze metros.
- Bem-vindas a bordo! - disse ele, quando cumprimentou Paige, Kat e Honey no cais.
As mulheres olharam com admirao para o barco.
-  lindo - disse Paige.
Deram um passeio pela baa durante trs horas, saboreando o dia quente e solarengo. Era a primeira vez que qualquer uma delas descansava desde h semanas. Enquanto estavam ancorados ao largo da ilha Angel, a comer um almoo delicioso, Kat disse:
- Isto  que  viver. No vamos regressar para terra.
- Bem pensado - afirmou Honey.
Em resumo, tinha sido um dia divinal.
Quando regressaram ao cais, Paige disse:
- No encontro as palavras para descrever o quanto me diverti hoje.
- O prazer foi meu - Bowman deu umas palmadinhas no brao dela. - Havemos de repetir. Em qualquer altura. Vocs as trs so sempre bem-vindas.
"Que homem encantador", pensou Paige. Honey gostava de trabalhar na obstetrcia. Era uma ala cheia de vida e esperana novas, num ritual alegre e interminvel. As novas mes estavam ansiosas e apreensivas. As veteranas ansiavam que tudo passasse. Uma das mulheres que estava prestes a ter o beb disse a Honey:
- Graas a Deus! Vou poder ver de novo os meus ps.
Se Paige tivesse um dirio, teria marcado o dia quinze de Agosto como um dia especial. Foi o dia em que Jimmy Ford entrara na sua vida. Jimmy era empregado do hospital, com o sorriso mais franco e a melhor disposio que Paige jamais vira. Era baixo e magro  e parecia ter dezassete anos. Tinha vinte e cinco e movia-se pelos corredores do hospital como um alegre furaco. Para  ele, nada representava um problema. Passava a vida a fazer recados para todos. No tinha qualquer sentido de condio social e tratava do mesmo modo mdicos, enfermeiras e zeladores. Jimmy Ford adorava contar anedotas.
- Sabe daquela sobre o doente com o corpo engessado? O doente da cama ao lado perguntou-lhe o que fazia para viver.
Ele respondeu: "Lavava as janelas do Empire State Building." O outro perguntou: "Quando  que deixou de trabalhar?"
- "Quando estava a descer."
E Jimmy arreganhava os dentes e apressava-se a ajudar mais algum.
Adorava Paige:
- Um dia serei mdico. Quero ser como a senhora.
Levava-lhe pequenos presentes - chocolates e brinquedos insignificantes. A cada um dos presentes juntava uma piada.
- Em Houston, um homem perguntou a um peo:
"Qual  o caminho mais rpido para o hospital?" O outro respondeu: "Diga mal do Texas."
As anedotas eram terrveis mas Jimmy contava-as de um modo engraado. Chegava de motorizada ao hospital ao mesmo tempo que Paige e aproximava-se rapidamente dela. - O doente perguntou: "A minha operao  perigosa?," E o cirurgio respondeu: "No. Uma operao de dois mil dlares nunca  perigosa." E depois desaparecia. Sempre que Paige, Kat e Honey estavam livres no mesmo dia, iam explorar So Francisco. Visitaram o Dutch Mill e o Japanese Tea Garden. Foram ao Fisherman's Wharf e passearam  de elctrico. Assistiram a peas de teatro no Curran Theater e jantaram no Maharani, na Post Street. Todos os empregados de mesa eram indianos e, para espanto de Kat e Honey, Paige falava como eles em hindi. 
- Hum Hindustani baht bahut ocho bolta hi. - E, a partir desse momento, o restaurante era delas.
- Como diabo aprendeste tu a falar indiano? - perguntou Honey.
-Hindi - corrigiu Paige. Hesitou: - Ns... Vivi uns tempos na ndia. - Lembrava-se claramente de tudo.
Ela e Alfred estavam em Agra, a olhar para o Taj Mahal. "Shah Jahan construiu-o em memria da sua mulher. A construo durou vinte anos, Alfred." "Vou construir-te um Taj Mahal. No interessa o tempo que irei levar!" "Esta  Karen Turner. Minha mulher." Ouviu o seu nome e voltou-se.
- Paige... - Havia um olhar de preocupao no rosto de Kat.
- Ests bem?
- Sim. Estou bem.
As horas impossveis continuaram. Outra vspera de Ano Novo chegou e passou e o segundo ano deslizou para o terceiro sem nada ter mudado. O mundo exterior no afectava o hospital. As guerras, fomes e desastres de pases longnquos nada eram em comparao com as crises de vida e morte que tinham de enfrentar vinte e quatro horas por dia. Sempre que Kat e Paige se encontravam nos corredores do hospital, Kat sorria e dizia:
- Ests a divertir-te?
- Quando foi a ltima vez que dormiste? - perguntava Paige.
Kat suspirava:
- Quem se lembra disso?
Passaram os longos dias e noites a tentar vencer a incessante e exigente presso, comendo sanduches quando tinham tempo e bebendo caf frio em copos de papel. O assdio sexual parecia fazer parte da vida de Kat. Havia as insinuaes constantes, no s de mdicos como  tambm de doentes, que tentavam que ela se metesse na cama com eles. Estes recebiam a mesma resposta que os mdicos. "No h homem no mundo que eu deixe tocar-me." E ela assim acreditava. A meio de uma manh movimentada, houve outra chamada de Mike.
- Ol, mana.
E Kat sabia o que vinha dali. Tinha-lhe enviado todo o dinheiro que conseguira poupar, mas, bem l no fundo, sabia que tudo o que pudesse enviar nunca seria o suficiente.
- Detesto incomodar-te, Kat. Realmente detesto.
Mas meti-me num pequeno sarilho. - A voz soou constrangida.
-Mike... ests bem?
- Oh, sim. No  nada de grave. Estou apenas a dever a algum que me est a pedir j o dinheiro e eu pergunto...
- Vou ver o que posso fazer - respondeu Kat, saturada.
- Obrigado. Posso sempre contar contigo, no posso, mana?
Gosto muito de ti.
- Tambm gosto de ti, Mike.
Um dia, Kat disse a Paige e Honey:
- Sabem do que  que todas ns precisamos?
- De um ms a dormir.
- De frias.  como deveramos estar, a passear pelos Campos Elseos, a ver todas aquelas montras caras.
- Exacto. E sempre em primeira classe! - disse Paige, sorrindo. - Dormamos o dia inteiro e  noite amos divertir-nos.
Honey deu uma gargalhada:
- Soa-me bem.
- Dentro de alguns meses teremos umas pequenas frias - afirmou Paige. - Porque no planeamos as trs uma ida a qualquer lado?
-  uma boa ideia - disse Kat, animadamente. - No sbado, vamos a uma agncia de viagens.  Entusiasmadas, passaram os trs dias seguintes a fazer planos.
- Estou ansiosa por ver Londres. Talvez me encontre com a rainha.
- Paris  para onde eu gostaria de ir.  suposto ser a cidade mais romntica do mundo.
- Eu quero passear ao luar numa gndola em Veneza.
"Talvez passemos a nossa lua-de-mel em Veneza, Paige", tinha dito Alfred. "Gostarias?", "Oh, sim!"
Ficou a pensar se Alfred teria levado Karen a Veneza na lua-de-mel.
No sbado de manh, as trs foram  Corniche Travel Agency, na Powell Street.
A mulher atrs do balco foi corts:
- Que tipo de viagem vos interessa?
- Gostaramos de ir  Europa: Londres, Paris, Veneza...
- ptimo. Temos alguns pacotes econmicos que...
- No, no, no. - Paige olhou para Honey e sorriu: - Em primeira classe.
- Certo. Viagem area em primeira classe - acrescentou Kat.
- Hots de primeira - juntou Honey.
- Bem, posso recomendar o Ritz em Londres, o Crillon em Paris, o Cipriani em Veneza e...
Paige disse:
- Porque no levamos algumas brochuras? Podemos estud-las para depois nos decidirmos.
- Tudo bem - disse a agente de viagens.
Paige olhou para uma brochura:
- Tambm organizam o aluguer de iates?
- Sim.
- Muito bem. Talvez aluguemos um.
- Excelente. - A agente de viagens juntou algumas brochuras e entregou-as a Paige. - Quando estiverem prontas, digam-me e eu terei o prazer de vos fazer as reservas.
- Diremos alguma coisa - prometeu Honey.
Quando saram, Kat deu uma gargalhada e disse:
- No h nada melhor que sonhar alto, no acham?
- No te preocupes - garantiu-lhe Paige. - Um dia havemos de poder ir a todos esses lugares.
Seymour Wilson, chefe de medicina do Embarcadero County Hospital, era um homem frustrado com um emprego impossvel. Havia doentes a mais, mdicos e enfermeiras a menos e muito poucas horas por dia. Sentia-se como o comandante de um navio a afundar-se, a correr de um lado para o outro para tapar os rombos por onde a gua entrava. Nesse momento, a maior preocupao do Dr. Wilson era Honey Taft. Enquanto alguns mdicos pareciam gostar muito dela, os residentes e enfermeiras de confiana comunicavam constantemente que a Dra. Taft era incapaz de fazer o seu trabalho. Por fim, Wilson foi ter com Ben Wallace:
- Quero mandar embora uma das nossas mdicas - disse. - Os residentes com quem faz as rondas dizem-me que ela  incompetente. Wallace lembrou-se de Honey. Era aquela que obtivera notas extraordinariamente altas e recomendaes brilhantes.
- No estou a compreender - afirmou. - Deve haver algum erro. - Por momentos, ficou pensativo. - Vou dizer-te o que iremos fazer, Seymour. Do teu pessoal, quem  o maior sacana?
- Ted Allison.
- Muito bem. Amanh de manh manda Honey Taft fazer a ronda com o doutor Allison. Manda-o fazer um relatrio sobre ela.  Se ele disser que  incompetente, mand-la-ei embora.
- Estou plenamente de acordo - anuiu o Dr. Wilson.
- Obrigado, Ben.
Ao almoo, Honey disse a Paige que tinha sido designada para fazer as rondas com o Dr. Allison na manh seguinte.
- Conheo-o - disse Paige. - Tem uma reputao terrvel.
- Foi isso que eu ouvi - disse Honey, pensativa.
Nesse momento, noutra rea do hospital, Seymour Wilson conversava com Ted Allison. Este era um veterano inflexvel  de vinte e cinco anos. Tinha servido a marinha como oficial-mdico e ainda sentia orgulho em "dar um pontap no cu".
Seymour Wilson dizia:
- Quero que vigie a doutora Taft. Se ela no servir, vai-se embora. Compreendido?
- Compreendido.
Ficou ansioso pelo dia seguinte. Tal como Seymour Wilson, Ted Allison desprezava mdicos incompetentes. Alm disso, estava fortemente convicto de que, se as mulheres queriam ter uma profisso mdica, deviam ser enfermeiras. Se tinha sido suficientemente bom para Florence Nightingale, tambm o era para todas as outras. s seis da manh do dia seguinte, os residentes reuniram-se no corredor para dar incio s rondas. O grupo era  constitudo pelo Dr. Allison, Tom Benson, seu assistente-chefe, e cinco residentes, incluindo Honey Taft.
Nesse momento, quando Allison olhou para Honey, pensou: "Bem, irm, vejamos o que sabes fazer." Voltou-se para o grupo:
- Vamos.
O primeiro doente da ala um era uma adolescente que estava deitada e tapada com cobertores pesados. Dormia quando o  grupo se aproximou dela.
- Bem - disse o Dr. Allison. - Quero que todos vocs vejam o grfico dela. - Os residentes comearam a estudar o grfico  da doente. O Dr. Allison virou-se para Honey: - Esta doente tem febre, calafrios, mal-estar geral e anorexia. Tem  temperatura, tosse e pneumonia. Qual  o seu diagnstico, doutora Taft? Honey permaneceu silenciosa, de sobrolho franzido.
- Ento?
- Bem - diJse Honey, pensativamente. - Diria que provavelmente tem psitacose.
O Dr. Allison olhou para ela, surpreendido:
- O que... o que  que a faz dizer isso?
- Os sintomas so tpicos da psitacose e reparei que ela trabalha em regime de tempo parcial numa loja de animais. A psitacose transmite-se atravs de papagaios infectados.
Allison anuiu lentamente:
- Muito... muito bem. Sabe qual  o tratamento?
- Sim. Tetraciclina durante dez dias, repouso absoluto e muitos lquidos.
O Dr. Allison voltou-se para o grupo:
- Ouviram bem? A doutora Taft tem toda a razo.
Avanaram para o doente seguinte.
O Dr. Allison disse:
- Se examinarem o grfico, vero que tem tumores mesotlios, perda de sangue e fadiga. Qual  o diagnstico? Um dos residentes disse, esperanoso: 
- Parece uma forma de pneumonia.
Um segundo residente afirmou:
- Pode ser cancro.
O Dr. Allison virou-se para Honey:
- Qual  o seu diagnstico, doutora?
Honey ficou pensativa:
- De imediato, diria que  uma pneumoconiose fibrosa, uma forma de envenenamento por inalao de partculas de amianto. 
O grfico mostra que ele trabalha numa fbrica de alcatifas. Ted Allison no conseguiu esconder a sua admirao:
- Excelente! Excelente! Sabe por acaso qual  a terapia?
- Infelizmente, ainda no se sabe qual  a terapia.
Tornou-se tudo ainda mais impressionante. Nas duas horas seguintes, Honey diagnosticou um caso raro de sndroma de Reiter, policitemia deformada por ostete e malria.
Quando as rondas chegaram ao fim, o mdico apertou a mo de Honey:
- No sou facilmente impressionvel, doutora, mas quero dizer-lhe que tem um futuro fabuloso!
Honey corou:
- Obrigada, doutor Allison.
- E tenciono dizer isso a Ben Wallace - disse, enquanto se afastava.
Tom Benson, assistente-chefe de Allison, olhou para Honey e sorriu:
- Querida, encontrar-me-ei contigo dentro de meia hora.
Paige procurou afastar-se do caminho do Dr. Arthur Kane "007"! Mas sempre que surgia uma oportunidade, Kane pedia que Paige o assistisse nas operaes. E, em cada uma, tornava-se cada vez mais ofensivo.
- O que quer dizer, nunca sair comigo? Deve estar a aprender com mais algum. - E: - Posso ser pequeno, querida, mas no em tudo. Percebe o que quero dizer?
Paige comeou a temer as ocasies em que tinha de trabalhar com ele. Quanto mais tempo passava, mais Paige via Kane fazer operaes desnecessrias e extirpar rgos sos. Um dia, quando ela e Kane se dirigiam  sala de operaes, Paige perguntou:
- Vamos fazer uma operao a qu, doutor?
-  bolsa dele! - Reparou no olhar de Paige. - Estou a brincar, querida.
- Ele devia estar a trabalhar num talho - disse Paige mais tarde a Honey, zangada. - No tem o direito de operar  pessoas.
Aps uma operao ao fgado particularmente absurda, o Dr. Kane virou-se para Paige e, abanando a cabea, disse:
-  pena. No sei se ele se safa.
Paige no conseguiu conter a fria por mais tempo.
Decidiu ter uma conversa com Tom Chang.
- Algum deveria participar do doutor Kane - disse Paige.
- Est a assassinar os doentes dele!
- Tenha calma.
- No consigo! No  justo que deixem um homem destes fazer operaes.  criminoso. Devia ser denunciado  Ordem dos Mdicos.
- O que ganharias com isso? Terias de arranjar outros mdicos que testemunhassem contra ele e ningum faria uma coisa dessas. Esta  uma comunidade fechada e todos ns temos de viver dentro dela, Paige.  quase impossvel fazer com que um mdico testemunhe contra outro. Todos somos vulnerveis e precisamos muito uns dos outros. Acalme-se. Venha comigo que eu pago-lhe o almoo. Paige suspirou:
- Est bem, mas  um sistema repugnante.
Ao almoo, Paige perguntou:
- Como est voc e Sye?
Levou um momento a responder:
- Eu... estamos a ter problemas. O meu trabalho est a destruir o nosso casamento. No sei o que fazer.
- Tenho a certeza que ir solucionar-se - disse Paige.
Chang disse com firmeza:
- Ser melhor que isso acontea.
Paige olhou para ele.
- Matava-me se ela me deixasse.
Na manh seguinte, Arthur Kane foi designado para fazer uma operao aos rins. O chefe da cirurgia disse a Paige: - O doutor Kane mandou-a chamar, para o assistir na sala de operaes quatro. A garganta de Paige ficou subitamente seca. Odiava a idia de estar perto dele.
- No pode pedir a mais algum para...? - pediu ela.
- Ele est  sua espera, doutora.
Paige suspirou:
- Okay...
Quando finalmente estava preparada, a operao j tinha comeado.
- D-me uma ajuda aqui, querida - disse Kane a Paige.
O abdome do doente tinha sido pintado com uma soluo de iodo e feita uma inciso no respectivo quadrante superior direito, logo abaixo da caixa torcica. "At aqui, tudo bem", pensou Paige.
- Bisturi! - A enfermeira-ajudante entregou um bisturi ao Dr. Kane, que levantou a cabea: - Ponham msica.
Um momento mais tarde, comeou a tocar um CD.
O Dr. Kane continuou a cortar: - Vamos animar isto um pouco.
- Olhou para Paige. - Ligue o bovie, "doura".
"Doura". Paige cerrou os dentes e pegou num bovie - um cauterizador elctrico. Comeou a cauterizar as artrias para reduzir a quantidade de sangue no abdome. A operao estava a correr bem. "Graas a Deus", pensou Paige. 
- Esponja.
A enfermeira-ajudante entregou uma esponja a Kane.
- Muito bem. Vamos fazer uma suco. - Cortou em volta do rim at este ficar exposto. - Aqui est o malandro - disse ele. - Mais suco. - Levantou o rim com o auxlio de  frceps.
- Bem. Vamos cos-lo.
Por uma vez tudo correra bem e, contudo, algo preocupava Paige. Examinou melhor o rim. Parecia so. Franziu o sobrolho e ficou a pensar se... Quando o Dr. Kane comeou a coser o doente, Paige correu para a radiografia colocada na moldura iluminada. Estudou-a por momentos e disse baixinho: 
- Oh, meu Deus!
A radiografia tinha sido ali colocada ao contrrio. O Dr. Kane tinha extirpado o rim errado. Trinta minutos mais tarde, Paige encontrava-se no gabinete de Ben Wallace.
- Ele extraiu o rim so e deixou o lesado! - A voz de Paige tremia. - O homem devia ir para a cadeia!
Benjamin Wallace disse, apaziguadoramente:
- Paige, concordo que isto  lamentvel. Mas com certeza que no foi intencional. Foi um erro e...
- Um erro? Esse doente vai ter de viver de dilise durante o resto da vida. Algum devia pagar por isso!
- Acredite-me, iremos fazer uma avaliao pormenorizada.
Paige sabia o que ele queria dizer: um grupo de mdicos iria examinar o sucedido, mas isso iria ser feito confidencialmente. A informao nunca chegaria ao pblico e  ao doente.
- Doutor Wallace...
- Voc faz parte da nossa equipa, Paige. Ter de ser uma jogadora.
- Ele no devia trabalhar neste hospital, nem em nenhum outro.
- Deve examinar todo o quadro. Se fssemos retirados, haveria uma m publicidade e a reputao do hospital ficaria afectada. Provavelmente teramos de enfrentar muitas prticas
erradas. 
- E os doentes?
- Iremos vigiar melhor o doutor Kane. - Inclinou-se na cadeira. - Vou dar-lhe um conselho. Quando exercer medicina privada, ir necessitar da boa vontade de outros mdicos para fornecerem referncias. Sem isso, no ir a parte alguma e se tiver a reputao de ser desonesta e falar mal dos seus colegas, nunca obter boas referncias.
Garanto-lhe isso.
Paige levantou-se:
- Ento no vai fazer nada?
- J lhe disse, vamos fazer uma avaliao pormenorizada.
- S isso?
- S isso.
- No  justo - disse Paige. Estava na cafetaria a almoar com Kat e Honey.
Kat abanou a cabea:
- Ningum disse que a vida tinha de ser justa.
Paige olhou em volta da sala assptica de azulejos brancos.
- Tudo isto deixa-me deprimida. Toda a gente est doente.
- Ou no estariam aqui - sublinhou Kat.
-Porque no organizamos uma festa? - sugeriu Honey.
- Uma festa? De que  que ests a falar?
Honey sentiu-se subitamente entusiasmada:
- Podamos encomendar comida e algumas bebidas e fazer uma grande festa! Penso que todas ns precisamos de nos  animarmos.
Por momentos, Paige ficou pensativa:
- Sabem - disse -, no  uma m ideia. Vamos a isso!
- Combinado. Eu trato de tudo - informou Honey.
- Fica para amanh, depois das rondas.
Arthur Kane aproximou-se de Paige no corredor.
A voz soou glida:
- Voc tem sido malandra. Algum devia ensin-la a manter a boca fechada! - E afastou-se.
Paige olhou para ele incrdula. Wallace contou-Lhe o que eu disse. No devia ter feito aquilo. "Se tiver a reputao de ser desonesta e falar mal dos seus colegas..." "Tornarei a participar?", ponderou Paige. " claro que sim!"
A notcia da prxima festa espalhou-se rapidamente. Todos os residentes contriburam. Foi encomendado um grande menu ao Restaurante Ernie's e as bebidas a um armazm  prximo. A festa foi marcada para as cinco horas, na sala de reunies dos mdicos. A comida e as bebidas chegaram s quatro e meia. Foi um banquete: travessas de lagosta e camaro, uma  variedade de pats, almndegas suecas, massa quente, fruta e  sobremesas. s cinco e um quarto, quando Paige, Kat e Honey entraram na sala, esta j estava cheia de residentes, internos e enfermeiras ansiosos, a comer e a divertir-se. Paige virou-se para Honey:
- Foi uma ptima ideia!
- Obrigada - agradeceu Honey.
Ouviu-se uma voz no altifalante:
- Doutores Finley e Ketler para SU. Stat. - E os dois
mdicos, que ainda estavam a comer camares, olharam um para  o outro, suspiraram e abandonaram rapidamente a sala. Tom Chang aproximou-se de Paige:
- Devamos fazer isto todas as semanas - disse.
- Okay. ...
Ouviu-se de novo o altifalante:
-Doutor Chang... Quarto trezentos e dezassete...
Doutor Chang... Quarto trezentos e dezassete.
E um minuto mais tarde:
- Doutor Smythe... SU dois... Doutor Smythe para a SU dois.
O altifalante nunca mais parou. No espao de trinta minutos, quase todos os mdicos e enfermeiras tinham sido chamados  para atender uma urgncia. Honey ouviu chamarem pelo seu nome, depois foi Paige e a seguir Kat. 
- No acredito no que est a acontecer - disse Kat.
- Sabes o que se diz sobre a existncia de um anjo-da-guarda?
Bem, penso que ns as trs encontramo-nos sob o domnio de um guarda demonaco. As palavras dela provaram ser profticas. Na manh da segunda-feira seguinte, quando Paige saiu do trabalho e se dirigiu para o carro, verificou que dois dos pneus haviam sido furados. Olhou para eles, incrdula. "Algum devia ensin-la a manter a boca fechada!" Quando regressou ao apartamento, disse a Kat e a Honey:
- Cuidado com Arthur Kane.  doido.
Kat foi acordada pela campainha do telefone. Sem abrir os olhos, pegou no auscultador e encostou-o ao ouvido.
- EsTou?
- Kat?  Mike.
Sentou-se, com o corao a bater desordenadamente:
- Mike, ests bem? - Ouviu-o dar uma gargalhada.
- Nunca estive melhor, mana. Graas a ti e ao teu amigo.
- Meu amigo?
- O senhor Dinetto.
- Quem? - Kat tentou concentrar-se apesar de estar tonta de sono.
- O senhor Dinetto. Ele salvou-me mesmo a vida.
Kat no fazia ideia do que  que ele estava a falar.
- Mike...
- Lembras-te daqueles fulanos a quem devia dinheiro? O senhor Dinetto afastou-os de mim. Ele  um verdadeiro cavalheiro. E pensa o melhor de ti, Kat. Kat tinha-se esquecido do incidente com Dinetto, mas, subitamente, este veio-lhe  memria: "Lady, a senhora no sabe com quem est a falar.  melhor fazer o que o homem  pede. Este  o senhor Lou Dinetto." Mike continuou:
- Vou enviar-te dinheiro, Kat. O teu amigo arranjou-me um emprego. Tenho um bom ordenado.
"O teu amigo." Kat estava nervosa:
- Mike, escuta-me. Quero que tenhas cuidado.
Ouviu-o dar outra gargalhada:
- No te preocupes comigo. No te disse que tudo iria tornar-se num mar de rosas? Bem, assim aconteceu.
- Tem muito cuidado, Mike. No...
A ligao foi cortada.
Kat no conseguiu voltar a adormecer. "Dinetto! Como  que ele soube de Mike e porque  que est a ajud-lo?"
Na noite seguinte, quando Kat deixou o hospital, uma limusina preta estava  sua espera junto ao passeio. O Sombra e Rhino estavam encostados ao automvel. Quando Kat se aproximou deles, Rhino disse: - Entre, doutora. O senhor Dinetto quer v-la. Ela estudou o homem por um momento. Rhino tinha um aspecto assustador, mas foi o Sombra quem assustou Kat. Havia algo de mortfero na sua imobilidade. Noutras circunstncias Kat  nunca teria entrado no carro, mas o telefonema de Mike tinha-a deixado confusa. E preocupada. Foi conduzida a um pequeno apartamento nos subrbios da cidade e, quando l chegou, Dinetto estava  sua espera. 
- Obrigado por ter vindo, doutora Hunter - disse.
- Fico-lhe grato. Um amigo meu teve um pequeno acidente. 
Quero
que o veja.
- Que est a fazer com Mike? - perguntou Kat.
- Nada - respondeu, inocentemente. - Soube que tinha um pequeno problema e procurei elimin-lo.
- Como  que... como  que soube dele? Quero dizer, que era meu irmo e...
Dinetto sorriu:
- No meu negcio, todos somos amigos. Ajudamo-nos uns aos outros. Mike envolveu-se com alguma gente m e, por isso, dei-lhe uma ajuda. Devia estar agradecida.
- E estou - disse Kat. - Estou sinceramente.
- Muito bem! Conhece o ditado "Uma mo lava a outra",? Kat abanou a cabea:
- No farei nada ilegal.
- Ilegal? - interrogou Dinetto. Parecia magoado.
- Nunca lhe pediria para fazer algo do gnero. Este meu amigo teve um pequeno acidente e detesta hospitais. No se importa de o ver?
"Onde  que me estou a meter?", pensou Kat.
- Est bem.
- Ele est no quarto.
O amigo de Dinetto tinha levado uma grande tareia.
Estava deitado, inconsciente.
- O que  que lhe aconteceu? - perguntou Kat.
Dinetto olhou para ela e disse:
- Caiu pelas escadas abaixo.
- Devia lev-lo para o hospital.
- Como lhe disse, ele no gosta de hospitais. Posso arranjar-Lhe todo e qualquer equipamento hospitalar de que necessite. Tive um mdico que tratava dos meus amigos, mas este teve um acidente. As palavras causaram um arrepio em Kat. Tudo o que queria era sair dali a correr e ir para casa e nunca mais ouvir  falar de Dinetto, mas nada na vida era de borla. Kat despiu o  casaco e comeou a trabalhar. No incio do quarto ano de residncia, Paige j tinha assistido a centenas de operaes. Para ela, passaram a ser banais. Sabia quais os procedimentos cirrgicos para a vescula biliar, bao, fgado, apndice e, mais entusiasticamente, o corao. Mas Paige  sentia-se frustrada por no ser ela mesma a faz-las. "O que aconteceu ao "Vigiar, fazer ensinar"?" pensou. A resposta surgiu quando George Englung, chefe de cirurgia, a mandou chamar. 
- Paige, amanh vai haver uma operao a uma hrnia na sala trs, s sete e meia.
Apontou no bloco:
- Certo. Quem vai fazer a operao?
- A senhora.
- Certo. Eu... - Subitamente, as palavras desapareceram. Eu?
- Sim. Algum problema?
O sorriso de Paige iluminou a sala:
-No, senhor. Eu... muito obrigada!
- A senhora j est apta a isso. Penso que o doente tem sorte em t-la a si. Chama-se Walter Herzog. Est no  trezentos e catorze.
-Herzog. Quarto trezentos e catorze. Certo. - E saiu.
Paige nunca se sentira to entusiasmada. "`Vou fazer a minha primeira operao! Vou ter nas minhas mos a vida de um ser humano. E se eu ainda no estiver apta? E se eu cometer algum erro? As coisas podem correr mal.  a lei de Murphy." Quando Paige acabou de discutir consigo prpria, estava em estado de pnico. Entrou na cafetaria e sentou-se para tomar uma chvena de ch. "Tudo ir correr bem", procurou convencer-se. "J assisti a dzias de operaes  hrnia. No existem grandes riscos. Ele tem sorte em ter-me." Quando terminou o caf, estava suficientemente calma para enfrentar o seu primeiro doente.
 Walter Herzog era sexagenrio, magro, calvo e muito nervoso. Estava na cama a gemer quando Paige entrou com um ramo de flores. Herzog levantou a cabea.
- Enfermeira... Preciso de um mdico.
Paige aproximou-se da cama e entregou-lhe as flores.
- Eu sou mdica. Vou oper-lo.
Olhou para as flores e depois para ela:
- Voc  o qu?
- No se preocupe - disse Paige, tranquilizadoramente.
- Est em boas mos. - Pegou no grfico colocado aos ps da cama e estudou-o.
- O que  que diz? - perguntou ansioso o homem.
"Porque  que me trouxe flores?",
- Diz que o senhor vai ficar bem.
Ele engoliu:
- Voc vai mesmo fazer a operao?
- Sim.
- Voc parece bastante... bastante jovem.
Paige deu-lhe uma palmadinha no brao.
- Ainda no perdi um doente. - Olhou em volta do quarto.
- Sente-se confortvel? Quer qualquer coisa para ler? Um livro ou uma revista?
Ele ouvia, nervoso:
- No, estou bem. - "Porque  que ela estava a ser to  simptica? Ser que existia alguma coisa que ela no lhe queria dizer?"
- Ento, v-lo-ei de manh - disse Paige, alegremente.
Escreveu algo num pedao de papel e entregou-lhe. - Aqui est o meu telefone. Ligue se precisar de mim esta noite. Ficarei ao lado do telefone. Quando Paige saiu, Walter Herzog estava numa pilha de nervos. Alguns minutos mais tarde, Jimmy encontrou Paige na sala de
reunies. Aproximou-se dela com um grande sorriso: 
- Parabns! Soube que vai operar.
"A palavra espalha-se rapidamente", pensou Paige.
- Sim.
- Quem quer que seja, tem sorte - disse Jimmy. - Se alguma vez me acontecer algo, a senhora  a nica pessoa a quem eu deixaria operar-me.
- Obrigada, Jimmy.
E,  claro, com Jimmy havia sempre uma anedota.
- J sabe daquela sobre o homem que tinha uma dor esquisita nos tornozelos? Era demasiado medroso para ir a um mdico; ento, quando o amigo lhe contou que tinha exactamente a  mesma dor, disse: "Deves ir imediatamente ao mdico. E conta-me tudo o que ele te disser. - No dia seguinte, soube que o amigo tinha morrido. Correu para o hospital e gastou cinco mil dlares em exames e anlises. No conseguiram encontrar nada de errado. Ligou  viva do amigo e perguntou: "Chester sofreu muito antes de morrer?" - "No", disse ela. "Nem sequer viu o  camio que o atropelou!" - E Jimmy desapareceu. Paige estava demasiado excitada para jantar. Passou o sero a treinar ns cirrgicos nas pernas das mesas e candeeiros. "`Vou tentar passar uma boa noite de sono", decidiu, "para estar bonita e fresca de manh." Passou a noite acordada, revendo e tornando a rever mentalmente a operao. Existem trs tipos de hrnia: hrnia redutvel, onde  possvel voltar a colocar os intestinos no abdome; hrnia irredutvel, onde as ligaes impedem o retorno do contedo para o abdome; e hrnia estrangulada, a mais perigosa, onde o sangue que corre atravs dela  cortado, lesando os intestinos. A de Walter Herzog era uma hrnia redutvel. s seis da manh, Paige conduziu at ao parque de estacionamento do hospital. Um novo Ferrari vermelho encontrava-se ao lado do seu estacionamento. Em vo, Paige pensou de quem seria, mas quem quer que fosse tinha de ser rico. s sete horas, Paige j estava a ajudar Walter Herzog a tirar o pijama para vestir uma bata azul do hospital. A enfermeira j lhe tinha dado um sedativo para o acalmar enquanto esperavam pela maca que o iria levar para a sala de operaes.
- Esta  a minha primeira operao - disse Walter Herzog.
"Minha tambm", pensou Paige.
A maca chegou quando Walter Herzog j se dirigia para a SO trs. Paige percorreu o corredor ao seu lado, com o corao a bater to depressa que temeu que ele pudesse ouvir. A SO trs era uma das maiores salas de operaes, albergando um monitor cardaco, uma mquina cardiopulmonar e uma srie  de outros acessrios tcnicos. Quando Paige entrou na sala, o pessoal j l se encontrava a preparar o equipamento. Havia  um mdico-assistente, o anestesista, dois residentes, uma enfermeira-assistente e duas enfermeiras auxiliares. O pessoal olhou esperanosamente para ela, ansiosos por ver como  que iria sair-se na sua primeira operao. Paige aproximou-se da marquesa. Walter Herzog j tinha a virilha rapada e desinfectada. Tinham sido colocados panos esterilizados em volta da rea a operar. Herzog olhou para Paige e disse, sonolento:
- No me vai deixar morrer, vai?
Paige sorriu:
- O qu? E estragar a minha reputao? Olhou para o anestesista, que deu ao doente uma anestesia epidural, uma autntica dose de cavalo. Paige respirou fundo  e anuiu com a cabea. 
A operao comeou.
- Bisturi.
Quando Paige estava prestes a fazer o primeiro corte na pele, a enfermeira auxiliar disse qualquer coisa.
- O qu?
- Quer msica, doutora?
Era a primeira vez que Lhe faziam semelhante pergunta. Paige sorriu:
- Certamente. Vamos ouvir Jimmy Buffett.
No momento em que Paige fez a primeira inciso, os nervos desapareceram. Era como se tivesse feito isto durante toda a vida. Habilmente, cortou as primeiras camadas de gordura e msculo at chegar  hrnia. Contudo, prestava ateno ao som familiar que ecoava atravs da sala.
- Esponja...
- D-me um bovie...
- Aqui est...
- Parece que chegmos mesmo a tempo...
- Grampo...
- Suco, por favor...
A mente de Paige estava totalmente concentrada naquilo que estava a fazer. Localizar o saco hernial... libert-lo... voltar a colocar os rgos na cavidade abdominal... atar a base do saco... cortar o restante... anel inguinal... suturar... Uma hora e vinte minutos aps a primeira inciso, a operao chegou ao fim. Paige devia sentir-se extenuada, mas, em vez disso, sentia-se terrivelmente animada. Depois de Walter Herzog ter sido cosido, a enfermeira-assistente voltou-se para Paige e disse: 
- Doutora Taylor...
Paige levantou a cabea:
- Sim?
A enfermeira sorriu:
- Foi magnfica, doutora.
Era domingo e as trs mulheres tinham o dia livre.
- Que vamos fazer hoje? - perguntou Kat.
Paige no fazia ideia:
- Est um dia to bonito! Porque no vamos ao Tree Park?
Podamos arranjar qualquer coisa e fazer um piquenique ao ar livre.
- Soa-me bem - respondeu Honey.
- Vamos a isso! - concordou Kat.
O telefone tocou. As trs olharam para ele.
-Jesus! - disse Kat. - Pensei que Lincoln nos tivesse liberado. No atendam.  a nossa folga.
- No temos folgas - lembrou-lhe Paige.
Kat dirigiu-se ao telefone e levantou-o:
- Doutora Hunter. - Escutou por momentos e entregou o telefone a Paige. -  para si, doutora Taylor.
Paige anuiu, resignadamente:
- Est bem. - Pegou no auscultador e respondeu:
- Doutora Taylor... Ol, Tom... O qu?... No, estava de sada... Entendi... Est bem. Estarei a dentro de quinze minutos. - Colocou o auscultador no lugar.
"L se vai o piquenique,", pensou.
-  grave? - perguntou Honey.
- Sim, estamos prestes a perder um doente. Vou tentar estar de volta para jantar.
Quando Paige chegou ao hospital, dirigiu-se ao parque dos mdicos e estacionou ao lado do Ferrari vermelho. "Quantas operaes tero sido precisas para comprar aquilo?," Vinte minutos mais tarde, Paige dirigia-se  sala de espera das visitas. Um homem de fato escuro estava sentado numa cadeira a olhar pela janela.
- Senhor Newton?
Este levantou-se:
- Sim?
- Sou a doutora Taylor. Acabei de examinar o seu filhinho.
Deu entrada por estar a sofrer de dores abdominais.
- Sim. Vou lev-lo para casa.
- Creio que no. Peter tem uma rotura no bao. Necessita de uma transfuso imediata e de ser operado, ou morrer.
Newton abanou a cabea:
- Somos testemunhas de Jeov. Deus no deixar que ele morra e eu no vou permitir que o contaminem com o sangue de mais algum. Foi a minha mulher quem o trouxe para aqui. Ser castigada por isso.
- Senhor Newton, penso que no est a compreender bem a gravidade da situao. Se no operarmos imediatamente, o seu filho morrer.
O homem olhou para ela e sorriu:
- A senhora no conhece os desgnios de Deus, conhece?
Paige estava furiosa:
- Posso no saber muito acerca dos desgnios de deus, mas sei bastante sobre um bao rebentado. - Pegou numa folha de papel. - Ele  menor; por isso, ter de assinar este termo de responsabilidade. - E entregou-lhe a folha.
- E se eu no assinar?
- Porqu... ento no poderemos operar.
Ele anuiu:
- Julga que os seus poderes so mais fortes do que os de Deus?
Paige olhou para ele:
- No vai assinar, no  assim?
- No. Um poder mais forte que o seu ir ajudar o meu filho.
Ver.
Quando Paige regressou  ala, o pequeno Peter Newton de seis anos tinha perdido a conscincia.
- No vai conseguir salvar-se - disse Chang. - Perdeu muito sangue. O que quer fazer?
Paige tomou a deciso:
- Levem-no para a sala de operaes um. Stat.
Chang olhou para ela, surpreendido:
- O pai mudou de ideia?
Paige anuiu:
- Sim. Mudou de ideia. Toca a andar!
- Ainda bem para si! Falei com ele durante uma hora e no consegui convenc-lo. Disse que Deus iria cuidar do caso.
- Deus est a tratar do caso - garantiu-lhe Paige. 
Duas horas e dois litros de sangue mais tarde, a operao tinha terminado com xito. Todos os sinais vitais do rapaz eram fortes.
Paige afagou-lhe suavemente a testa:
- Vai ficar bom.
Um empregado entrou precipitadamente na sala de operaes: - Doutora Taylor? O doutor Wallace quer v-la imediatamente. Benjamin Wallace estava to furioso que a voz lhe falhava:
- Como foi capaz de tomar uma atitude to ultrajante?
Fez-lhe uma transfuso de sangue e operou-o sem autorizao?
Foi contra a lei.
- Salvei a vida do rapaz!
Wallace respirou profundamente:
- Devia ter obtido uma autorizao do tribunal.
- No havia tempo - respondeu Paige. - Mais dez minutos e ele estaria morto. Deus estava ocupado noutro lugar.
Wallace caminhava para a frente e para trs:
- E agora, o que vamos fazer?
- Obter a ordem do tribunal.
- Para qu? A senhora j efectuou a operao.
- Atraso um dia a ordem do tribunal. Ningum notar a diferena.
Wallace olhou para ela e comeou a arfar:
- Jesus! - Franziu as sobrancelhas. - Isto poder custar-me o emprego.
Paige olhou para ele durante um longo momento. Em seguida, voltou-se e avanou para a porta.
- Paige... 
- Sim? - respondeu, parando.
- Nunca mais repita isto, ouviu bem?
- S se no houver outra soluo - garantiu-lhe Paige.
Todos os hospitais tm problemas com roubos de drogas. Por lei, cada narctico retirado do dispensrio tem de ser requisitado, mas, por mais severa que seja a segurana, os toxicodependentes quase invariavelmente descobrem uma maneira de o consegurem. O Embarcadero County Hospital estava a enfrentar um grande problema. Margaret Spencer foi ter com Ben Wallace. 
- No sei o que fazer, doutor. O nosso fentanil est sempre a desaparecer.
O fentanil  um narctico que cria grande dependncia e uma droga anestsica.
- Quanto  que desapareceu?
- Uma grande quantidade. Se fossem apenas alguns frascos poderia haver uma explicao inocente para o caso, mas est a acontecer com regularidade. Esto a desaparecer mais de uma dzia de frascos por semana.
- Tem ideia de quem poder estar a tirar?
- No, senhor. J falei com a segurana. No sabem de nada.
- Quem tem acesso ao dispensrio?
- A  que est o problema. Grande parte dos anestesistas tm acesso livre, para alm da maioria das enfermeiras e cirurgies. Wallace ficou pensativo:
- Obrigado por me ter informado. Vou tratar do assunto.
- Obrigada, doutor. - E a enfermeira Spencer saiu.
"S me faltava isto", pensou Wallace, furioso. Estava a aproximar-se uma reunio da direco do hospital e j havia problemas suficientes para serem tratados. Ben Wallace conhecia bem as estatsticas. Mais de dez por cento dos mdicos dos Estados Unidos viciavam-se, numa ou noutra  altura, em drogas ou lcool. O frgil acesso a drogas tornava-as tentadoras. Era fcil um mdico abrir um armrio, tirar a droga de que necessitava e utilizar um torniquete e seringa para a injectar. Um viciado poderia necessitar de uma quantidade fixa, de duas em duas horas. Isso estava a acontecer tambm no seu hospital. Tinha de se fazer qualquer coisa antes da reunio. "Ficaria mal na minha ficha." Ben Wallace no sabia bem em quem confiar para o ajudar a encontrar o culpado. Tinha de ser cauteloso. Estava certo de que nem a Dra. Taylor nem a Dra. Hunter estavam envolvidas e, depois de muito pensar, decidiu servir-se delas. Mandou-as chamar:
- Tenho um pedido para vos fazer - disse-lhes. Explicou tudo sobre o desaparecimento do fentanil. - Quero que mantenham os olhos bem abertos. Se algum dos mdicos com quem trabalham, a meio de uma operao, tiver de sair por momentos da sala ou apresentar sinais de vcio, quero que me informem. Estejam atentas a quaisquer mudanas de personalidade... depresso ou alteraes de disposio... atrasos ou faltas. Peo-vos que mantenham isto estritamente confidencial. Quando saram do gabinete, Kat disse:
- Este hospital  enorme. Vamos precisar de Sherlock Holmes.
- No, no vamos - respondeu Paige com ar infeliz.
- Sei quem .
Mitch Campbell era um dos mdicos favoritos de Paige. O Dr. Campbell era um cinquentenrio de cabelos grisalhos, sempre bem-disposto e um dos melhores cirurgies do hospital. Paige reparara que nos ltimos tempos chegava sempre alguns minutos atrasado para uma operao e que tinha desenvolvido uma tremura notvel. Servia-se de Paige para o assistir sempre  que possvel e normalmente deixava-a fazer a maior parte da cirurgia. A meio de uma operao, as mos comeavam a tremer  e entregava o bisturi a Paige.
- No me sinto bem - murmurava. - No se importa de continuar?
E abandonava a sala de operaes. Paige andava preocupada com o que pudesse estar a acontecer-lhe. Agora j sabia. Pensou no que havia de fazer. Sabia que se desse essa informao a Wallace, o Dr. Campbell seria despedido, ou pior, a sua carreira ficaria destruda. Por outro lado, se nada fizesse, colocaria em perigo a vida  de alguns doentes. "Talvez seja melhor falar com ele", pensou. "Contar-lhe o que sei e insistir para que se trate. Discutiu o assunto com Kat.
-  um problema - concordou Kat. -  uma pessoa agradvel e um bom mdico. Se disseres alguma coisa acabars com ele, mas se no o fizeres ters de pensar no mal que possa vir a  fazer.
O que achas que ir acontecer se o confrontares?
- Provavelmente ir neg-lo, Kat.  o que geralmente acontece.
- Sim.  um caso difcil. 
No dia seguinte, Paige tinha uma operao marcada com o Dr. Campbell. "Queira Deus que esteja errada", rezou Paige. "No o deixes chegar atrasado e no permitas que saia durante a operao." Campbell chegou quinze minutos atrasado e a meio da operao disse:
- Por favor, Paige, pode continuar? J volto.
"Tenho de falar com ele", decidiu Paige. "No posso destruir-lhe a carreira.
Na manh seguinte, quando Paige e Honey estacionaram no parque dos mdicos, Harry Bowman parou o Ferrari vermelho ao lado delas.
- Que carro to bonito - disse Honey. - Quanto custar?
Bowman deu uma gargalhada:
- Como resposta, digo-lhe que no  para a sua bolsa.
Mas Paige no estava a ouvir. Olhava para o carro e a pensar no apartamento de cobertura, nas grandes festas e no barco. "Fui suficientemente esperto para ter um pai inteligente. Deixou-me todo o seu dinheiro.", E, contudo, Bowman trabalhava num hospital estatal. Porqu? Dez minutos mais tarde, Paige estava na seco de pessoal a falar com Karen, a secretria responsvel pelas fichas.
-  capaz de me fazer um favor, Karen? C para ns, Harry Bowman convidou-me para sair e tenho o pressentimento de que   casado. Deixa-me dar uma vista de olhos na ficha dele?
- Com certeza. Que grandes filhos da me! Nunca ficam satisfeitos, no ? Tenho todo o prazer em mostrar-Lhe a  ficha dele. - Dirigiu-se ao armrio e retirou o que procurava.
Entregou alguns papis a Paige. E deu uma rpida vista de olhos. A candidatura do Dr. Harry Bowman mostrava que vinha de uma pequena universidade do Mdio Oeste e que, segundo a ficha, tinha conseguido abrir caminho na faculdade de medicina. Era anestesista.
O pai era barbeiro. Honey Taft era um enigma para a maioria dos mdicos do Embarcadero County Hospital. Durante as rondas da manh, parecia no estar segura de si prpria. Mas nas rondas da tarde, parecia uma pessoa diferente. Surpreendentemente,  sabia tudo sobre cada um dos doentes e era clara e eficiente nos diagnsticos. Um dos residentes chefes falava dela com um dos colegas.
- Macacos me mordam se compreendo o caso - disse. - De manh, as queixas sobre a doutora Taft so cada vez mais.
Comete demasiados erros. Conheces a anedota sobre a  enfermeira que faz tudo errado? Um mdico queixa-se de que lhe disse  para dar trs comprimidos ao doente do quarto quatro e ela deu quatro ao doente do quarto trs e, quando estava a falar  dela, v-a a correr pelo corredor atrs de um doente nu, segurando nas mos uma panela de gua a ferver. O mdico diz: "Olhem para aquilo! Mandei-a picar o furnculo dele!" O colega desatou a rir:
- Bem, esse  o retrato da doutora Taft. Mas,  tarde, ela  absolutamente brilhante. Os diagnsticos so correctos, os apontamentos so maravilhosos e responde sem a mnima hesitao. Deve tomar algum comprimido milagroso que actua somente  tarde. - Coou a cabea. - Estou bastante  intrigado.
O Dr. Nathan Ritter era um pedante, um homem que vivia e trabalhava segundo as regras. Embora lhe faltasse o brilho da inteligncia, era uma pessoa apta e dedicada que esperava ver as mesmas qualidades naqueles que trabalhavam com ele. Honey teve o azar de ser designada para a sua equipa. A primeira paragem foi numa ala que continha uma dzia de doentes. Um deles estava a terminar o pequeno-almoo. Ritter olhou para o grfico aos ps da cama.
- Doutora Taft, o grfico diz que  seu doente.
- Sim - concordou Honey.
- Ele vai fazer uma broncoscopia esta manh.
Honey afirmou, abanando a cabea:
- Correcto.
- E permite que ele coma? - perguntou o Dr. Ritter.
- Antes de uma broncoscopia?
Honey respondeu:
- O pobrezinho no come desde...
Nathan Ritter voltou-se para o assistente:
- Adie o exame. - Comeou a dizer algo a Honey e depois controlou-se. - Vamos continuar.
O doente seguinte era um porto-riquenho que tossia muito. O Dr. Ritter examinou-o.
- De quem  este doente?
- Meu - disse Honey.
Franziu a sobrancelha:
- A infeco dele j devia ter melhorado. - Olhou para o grfico. - Est a dar-lhe cinquenta miligramas de ampicilina quatro vezes ao dia?
- Exacto.
- No  nada exacto. Est errado!  suposto ser quinhentos miligramas quatro vezes ao dia. Voc cortou um zero.
- Peo desculpa, eu...
- No  de admirar que o doente no esteja melhor!
Quero que altere isso imediatamente.
- Sim, doutor.
Quando se aproximaram de outro doente de Honey, o Dr. Ritter disse impacientemente:
- Ele tem uma colonoscopia marcada. Onde est o relatrio de radiologia?
- O relatrio de radiologia? Oh. Esqueci-me de mandar fazer.
Ritter deitou um longo olhar especulativo a Honey.
A partir da, a manh correu normalmente.
O doente que viram a seguir lamentava-se de dores:
- Tenho tantas dores. O que se passa comigo?
- No sabemos - respondeu Honey.
O Dr. Ritter olhou para ela:
- Doutora Taft, pode chegar um momento aqui fora? - No corredor, disse: - Nunca, nunca diga a um doente que voc no sabe. A senhora  a pessoa que eles esperam que os ajude! E  se no souber a resposta, invente uma. Compreendeu?
- No me parece justo...
- No lhe perguntei se parecia justo. Faa apenas o que Lhe foi dito.
Examinaram uma hrnia hiatal, um doente heptico, um doente que sofria da doena de Alzheimer e duas dzias de outros. Assim que a ronda terminou, o dr. Ritter dirigiu-se ao gabinete de Benjamin Wallace.
- Temos um problema - disse Ritter.
- O que se passa, Nathan?
-  um dos nossos residentes. Honey Taft.
" Outra vez!"
- O que h com ela?
-  um desastre.
- Mas teve to boas recomendaes!
- Ben,  melhor livrares-te dela antes que o hospital se envolva num problema grave; antes que ela mate um ou dois doentes.
Wallace pensou nisso durante um momento e depois tomou uma deciso.
- Certo. Vou mand-la embora.
Paige esteve ocupada a operar durante quase toda a manh. Assim que ficou livre, foi ter com o Dr. Wallace a fim de o informar das suas suspeitas sobre Harry Bowman.
- Bowman? Tem a certeza. Quero dizer... No vi sinais de vcio.
- Ele no a usa - explicou Paige. - Vende-a. Vive como um milionrio com um salrio de residente.
Ben Wallace concordou:
- Muito bem. Vou verificar. Obrigado, Paige.
Wallace mandou chamar Bruce Anderson, chefe da segurana.
- Talvez j tenhamos identificado o ladro da droga - disse-lhe Wallace. - Quero que vigie o doutor Harry Bowman.
- Bowman? - Anderson procurou esconder o espanto. O Dr. Bowman estava sempre a oferecer charutos cubanos e outros pequenos presentes. Todos gostavam dele.
- Se ele entrar no dispensrio, reviste-o quando sair.
- Sim, senhor.
Harry Bowman dirigia-se ao dispensrio. Tinha ordens a cumprir. Muitas ordens. Tudo comeara como um acidente oportuno. Trabalhara num pequeno hospital de Ames, Iowa, lutando para sobreviver com o salrio de um residente.  Gostava de champanhe e de cerveja e, por fim, o destino tinha-lhe sorrido. Um dos seus doentes que recebera alta do hospital, telefonara-Lhe uma manh.
- Doutor, estou cheio de dores. Tem de me dar qualquer coisa.
- Quer baixar outra vez?
- No quero deixar a minha casa. No me pode trazer qualquer coisa?
Bowman pensou no caso:
- Est bem. Passarei a quando sair.
Quando visitou o doente, levava um frasco de fentanil.
O doente agarrou nele:
- Que maravilha! - disse, sacando um mao de notas. - Tome. 
Bowman olhou para ele, surpreendido:
- No tem de me pagar nada.
- Est a brincar comigo? Isto aqui  como ouro. Tenho muitos amigos que lhe pagaro uma fortuna se lhes trouxer disto. 
E foi assim que tudo comeou. No espao de dois meses, Harry Bowman fazia dinheiro como jamais tinha sonhado ser possvel. Infelizmente, o director do hospital soubera do que se estava a passar. Temendo um escndalo pblico, disse a Bowman que se ele sasse sem alarido nada ficaria registado na sua ficha. "Ainda bem que sa", pensou Bowman. "So Francisco tem um mercado muito maior.", Chegou ao dispensrio. Bruce Anderson estava de p no lado de fora. Bowman cumprimentou-o:
- Ol, Bruce.
- Boa tarde, doutor Bowman.
Cinco minutos mais tarde, quando Bowman saiu do dispensrio, Anderson disse:
- Desculpe, mas vou ter de o revistar.
Harry Bowman olhou para ele:
-Revistar-me? De que  que ests a falar, Bruce?
- Peo desculpa, doutor. Temos ordens para revistar todos os que utilizam o dispensrio - mentiu Anderson.
Bowman estava indignado:
- Nunca ouvi tal coisa. Recuso-me totalmente!
- Ento terei de lhe pedir que me acompanhe ao gabinete do doutor Wallace.
- Tudo bem! Ele vai ficar furioso quando souber disto.
Bowman entrou de rompante no gabinete de Wallace: 
- O que se passa, Ben? Este homem quis revistar-me, maldito seja!
- E voc recusou-se a ser revistado?
- Com certeza.
- Est bem. - Wallace pegou no telefone. - Vou permitir que seja a polcia de So Francisco a faz-lo, se preferir. - E comeou a discar.
Bowman entrou em pnico:
- Espere! No  necessrio. - O rosto ficou subitamente mais sereno. - Oh! J sei do que  que se trata! - Meteu a mo no bolso e tirou um frasco de fentanil. - Fui buscar isto para utilizar numa operao e... Wallace disse calmamente:
- Esvazie os bolsos.
Um olhar de desespero surgiu no rosto de Bowman:
- No h motivo para...
- Esvazie os bolsos!
Duas horas mais tarde, o gabinete de So Francisco dos  Servios de Combate  Droga recebia uma confisso escrita e os nomes das pessoas a quem Bowman tinha vendido drogas. Quando Paige ouviu as notcias, foi ter com Mitch Campbell. Este estava sentado num gabinete, a descansar. Tinha as mos sobre a secretria quando Paige entrou, podendo ver como estas tremiam. Rapidamente, Campbell escondeu as mos:
- Ol, Paige. Como est?
- Bem, Mitch. Quero falar consigo.
- Sente-se.
Sentou-se na cadeira em frente:
- H quanto tempo sofre da doena de Parkinson?
O rosto dele ficou branco:
- O qu?
-  isso, no ? Tem tentado esconder o facto.
Houve um silncio pesado:
- Eu... eu... sim. Mas eu... no consigo abandonar a medicina. No consigo mesmo. Isto  toda a minha vida. Paige inclinou-se para a frente e disse com sinceridade:
- No tem de abandonar a medicina, mas no devia fazer operaes.
Subitamente, ele parecia ter envelhecido:
- Eu sei. Ia deixar de operar no ano passado. - E sorrindo afavelmente: - Penso que agora terei de deixar de operar, no  assim? Voc vai informar o doutor Wallace?
- No - respondeu Paige, gentilmente. - O senhor  que vai dizer ao doutor Wallace.
Paige estava a almoar na cafetaria quando Tom Chang se juntou a ela.
- Soube o que aconteceu - disse. - Bowman! Incrvel. Bom trabalho.
Ela abanou a cabea:
- Quase que acusei a pessoa errada.
Chang sentou-se e ficou calado.
- Sente-se bem, Tom?
- Quer ouvir o "Sim, estou bem" ou quer saber a verdade?
- Somos amigos. Quero a verdade.
- O meu casamento foi pelo cano abaixo. - De repente, os olhos encheram-se de lgrimas. - Sye foi-se embora. Regressou a casa dela.
- Lamento, sinceramente.
- No  culpa dela. H muito tempo que o casamento tinha terminado. Ela disse que eu estou casado com o hospital e tem razo. Passo toda a minha vida aqui a cuidar de estranhos, em vez de estar ao lado das pessoas que me so queridas.
- Ela h-de regressar. Vai ver que tudo se h-de solucionar - disse Paige, procurando confort-lo.
- No. Desta vez, no.
- J pensaram em ouvir os conselhos de um advogado, ou...
- Ela recusa-se.
- Lamento, Tom. Se houver algo que eu... - Ouviu o seu nome a ser chamado.
- Doutora Taylor, quarto quatrocentos e dez...
Paige ficou subitamente alarmada:
- Tenho de ir - disse. Quarto 410. Era o de Sam Bernstein. 
Era um dos seus doentes favoritos, um septuagenrio simptico que sofria de um inopervel cancro no estmago. Muitos dos doentes do hospital estavam sempre a queixar-se, mas Sam Bernstein era uma excepo. Paige admirava a sua coragem e dignidade. A mulher e os dois filhos adultos visitavam-no regularmente e Paige simpatizava tambm com eles. Estava ligado a sistemas de suporte de vida, com um aviso, NR - No Ressuscitar - se o corao parar. Quando Paige entrou no quarto, estava uma enfermeira ao lado da cama. Esta levantou a cabea quando ouviu Paige. 
- Morreu, doutora. No comecei os procedimentos de emergncia porque... - A voz comeou a fugir-lhe.
- Agiu muito bem - disse Paige, lentamente. - Obrigada.
- Posso fazer qualquer...
- No. Eu trato de tudo. - Paige permaneceu ao lado da cama e olhou para o corpo daquilo que havia sido um sorridente ser humano com vida, um homem com famlia e amigos, algum que tinha passado a vida a trabalhar arduamente, a cuidar dos que lhe eram queridos. E agora... Aproximou-se da gaveta onde ele guardava os seus haveres. Havia um relgio barato, um molho de chaves, quinze dlares  em dinheiro, a dentadura e uma carta para a mulher. Tudo aquilo recordava a vida de um homem. Paige no conseguia afastar a sensao de depresso que a oprimia.
- Era uma pessoa to querida. Porqu...?
- Paige - interveio Kat -, no podes envolver-te emocionalmente com os teus doentes. Isso far-te- mal.
- Eu sei. Tens razo, Kat.  que... tudo acabou to repentinamente, sabes? Esta manh ele conversou comigo.
Amanh  o seu funeral.
- No ests a pensar ir, ests?
- No.
O funeral teve lugar no Cemitrio Hills of Eternity. Na religio judaica, o enterro deve ser efectuado logo a seguir  morte e normalmente o servio  celebrado no dia seguinte. O corpo de Sam Berstein foi vestido com um takhrikhim, uma tnica branca, e envolto num talit. A famlia reuniu-se em volta da campa. O rabino entoava "Hamakom y'nathaim etkhem b'tokh sh'ar availai tziyon veeyerushalayim." O homem que estava ao lado de Paige reparou na expresso confusa do rosto e traduziu: - "Que Deus te conforte com todos os pranteadores do Reino Unido dos Cus e de  Jerusalm." Para surpresa de Paige, os membros da famlia comearam a rasgar as roupas que vestiam, enquanto cantavam KBaruch ata adonai elohainu melech haolam dayan ha-met."
- O que...?
- Isso demonstra respeito - sussurrou o homem.
- "Do p vieste e para o p regressaste, mas o esprito regressa a Deus, que foi quem to ofereceu." A cerimnia tinha terminado.
Na manh seguinte, Kat encontrou-se com Honey no corredor. Esta parecia nervosa.
- O que  que aconteceu? - perguntou Kat.
- O doutor Wallace mandou-me chamar. Pediu-me para estar no gabinete dele s duas horas.
- Sabes porqu?
- Julgo que est relacionado com as rondas do outro dia. O doutor Ritter  um monstro.
- Pode ser - disse Kat. - Mas tenho a certeza que tudo ir correr bem.
- Queira Deus que sim, mas estou com um mau pressentimento.
Chegou ao gabinete de Wallace Benjamin s duas horas em ponto, levando na bolsa um pequeno pote de mel. A recepcionista estava a almoar. A porta do Dr. Wallace estava aberta.
- Entre, doutora Taft - convidou.
Honey entrou no gabinete.
- Feche a porta, por favor.
Honey fechou a porta.
- Sente-se.
Honey sentou-se  frente dele. Quase tremia. Benjamin Wallace tinha suportado a situao o mais possvel. Olhou para ela e pensou: " como escorraar um cachorrinho. Mas o que tem de ser feito, tem de ser feito. - Lamento inform-la de que tenho uma m notcia para lhe
dar - disse. Uma hora mais tarde, Honey encontrou-se com Kat no solrio. Honey afundou-se numa cadeira prximo dela, a sorrir.
- J falaste com o doutor Wallace? - perguntou Kat.
- Oh, sim. Tivemos uma longa conversa. Sabias que a mulher o deixou em Setembro? Foram casados durante quinze anos. Tem dois filhos adultos de um casamento anterior, mas pouco os  v.
O pobrezinho est muito solitrio. Era outra vez Ano Novo e Paige, Kat e Honey entraram em 1994 no Embarcadero County Hospital. Para elas, nada na vida tinha sofrido alteraes,  excepo da identidade dos doentes. Quando Paige atravessava o parque de estacionamento, lembrou-se de Harry Bowman e do seu Ferrari vermelho. "Quantas vidas foram destrudas pelo veneno que Harry Bowman vendia?", pensou. As drogas eram to sedutoras. E no final, to mortais. Jimmy Ford surgiu com pequeno ramo de flores para Paige.
- Para que  isto, Jimmy?
Ele corou:
- Gostaria que ficasse com elas. Sabia que me vou casar?
- No! Que maravilha. Quem  a sortuda?
- Chama-se Betsy. Trabalha numa loja de pronto-a-vestir.
Vamos ter meia dzia de filhos. A primeira menina ter o nome de Paige. Espero que no se importe.
- Eu, importar-me? Sinto-me lisonjeada.
Ele ficou embaraado:
- J sabe daquela sobre o mdico que deu duas semanas de vida a um doente? "No posso pagar-lhe j" disse o homem.
"Est bem, dou-lhe mais duas semanas. E Jimmy desapareceu. Paige estava preocupada com Tom Chang. Estava a sofrer violentas mudanas de temperamento, desde a euforia 
depresso profunda. Numa manh, durante uma conversa com Paige, disse: - J percebeu que se no fssemos ns, a maioria das pessoas daqui morreriam? Temos o poder de curar o corpo delas e de as tornar completas de novo. - E na manh seguinte: - Estamos todos a enganar-nos a ns prprios, Paige. Os nossos doentes melhorariam mais depressa sem ns. Somos hipcritas ao fingirmos que temos a resposta para todas as perguntas. Bem, no temos. Paige estudou-o por momentos:
- Como est a Sye? - Falei com ela ontem. No quer voltar para c. Vai pedir o
divrcio.
Paige tocou-lhe no brao:
- Lamento, Tom.
Ele encolheu os ombros:
-Porqu? No me afecta nada. Agora j no me afecta.
Encontrarei outra mulher. - Sorriu. - E terei outro filho.
Ver.
Havia algo irreal na conversa.
Nessa noite, Paige disse a Kat:
- Estou preocupada com Tom Chang. Tens falado com ele ultimamente?
- Sim.
- Pareceu-te normal?
- Nenhum homem me parece normal - respondeu Kat.
Paige ainda continuava preocupada.
- Vamos convid-lo para jantar amanh  noite.
- Est bem.
Na manh seguinte, quando Paige entrou ao servio no hospital, recebeu a notcia de que um porteiro tinha encontrado o corpo de Tom Chang numa arrecadao da cave. Morrera com uma dose excessiva de barbitricos. Paige ficou quase histrica:
- Eu podia t-lo salvo - disse a chorar. - Esteve todo este tempo a pedir ajuda e eu no o ouvi.
Kat disse firmemente:
- De forma alguma o poderias ter ajudado, Paige. Tu no eras o problema e tambm no eras a soluo. Ele no queria viver sem a mulher e a filha.  to simples como isso.
Paige limpou as lgrimas:
- Maldito seja este lugar! - disse. - Se no fosse a presso e os horrios, a mulher nunca o teria deixado.
- Mas deixou - disse Kat, gentilmente. - Acabou.
Paige nunca assistira a um funeral chins. Era um espectculo incrvel. Comeou muito cedo na Casa Morturia da Green Street, em Chinatown, onde uma multido comeou a juntar-se no exterior. Foi organizado um cortejo com uma enorme banda musical e,  cabea, pessoas enlutadas que transportavam uma fotografia ampliada de Tom Chang. A  archa teve incio com a banda a tocar alto enquanto atravessavam as ruas de So Francisco e o carro fnebre na cauda do cortejo. A maioria dos enlutados ia a p, mas os  mais velhos iam de carro. Para Paige, o cortejo parecia mover-se ao acaso pela cidade. Estava confusa:
- Aonde vamos? - perguntou a um dos enlutados.
Este inclinou-se ligeiramente e disse:
-  nosso costume levar o falecido a alguns dos lugares que tiveram significado na sua vida... restaurantes onde comia, lojas que utilizava, lugares que visitava...
- Compreendo.
O cortejo terminou em frente ao Embarcadero County Hospital.
O enlutado voltou-se para Paige e disse:
- Foi aqui que Tom Chang trabalhou. Foi aqui que ele encontrou a felicidade.
"Errado", pensou Paige. "Foi aqui que ele perdeu a felicidade. 
Numa manh, quando caminhava pela Market Street, Paige viu Alfred Turner. O corao comeou a bater mais depressa. No tinha conseguido esquec-lo. Ele comeava a atravessar a rua quando o sinal mudou. Assim que Paige chegou  esquina, o sinal mudou para vermelho. Ignorou-o e atravessou a correr, ignorando as buzinas e os insultos dos motoristas. Paige chegou ao outro lado e aproximou-se rapidamente de Alfred. Pegou-Lhe na manga: 
- Alfred...
O homem voltou-se:
- Como?
Era algum totalmente estranho. Agora que Paige e Kat j eram residentes h quatro anos, faziam operaes numa base regular. Kat trabalhava com mdicos na neurocirurgia e no deixava de ficar admirada perante o milagre das centenas de milhes de complexos computadores digitais, chamados neurnios, que viviam no crebro. O trabalho era entusiasmante. Kat tinha um profundo respeito pela maioria dos mdicos com quem trabalhava. Eram cirurgies brilhantes e peritos. Havia alguns que a tinham feito passar um mau bocado. Tentaram sair com ela e quanto mais ela recusava, mais desafiadores se tornavam. Ouviu um mdico dizer:
- Ali vem a famosa cala-de-ferro.
Estava a ajudar o Dr. Kibler numa operao ao crebro. Foi feita uma pequena inciso no crtex e o Dr. Kibler introduzia uma cnula de borracha no ventrculo lateral esquerdo, a cavidade central da metade esquerda do crebro, enquanto Kat mantinha a inciso aberta com o auxlio de um pequeno retractor. Toda a concentrao estava focada no que acontecia  sua frente. O Dr. Kibler olhou para ela e, enquanto trabalhava, disse:
- J sabe daquela sobre o bbedo que entrou de rompante num bar e disse "D-me uma bebida, depressa!" - "No posso",, disse o empregado. "Voc j est bbedo".
A broca cortava mais fundo. - "Se no me der uma bebida, mato-me.", Comeou a correr lquido cerebral do ventrculo e a sair pela cnula. - "Oia o que vou fazer", disse o empregado. "Tenho trs desejos. Se me satisfizer os trs, dar-lhe-ei uma garrafa." Enquanto falava, foram injectados mililitros de ar no ventrculo e tiradas radiografias da vista ntero-posterior e da vista lateral. - "V aquele jogador de futebol? No consigo tir-lo daqui. Quero que corra com ele. A seguir, tenho um crocodilo de estimao no meu escritrio, que est com dores de dentes.  to mau que no consigo que o veterinrio se aproxime dele. Por ltimo, existe uma mdica dos Servios de Sade que quer fechar este lugar. Foda-a e dar-lhe-ei a garrafa. Uma enfermeira-assistente fazia suco para reduzir a quantidade de sangue naquele local. - O bbedo corre com o jogador de futebol e entra no escritrio onde estava o crocodilo. Sai quinze minutos  depois, todo sujo de sangue e com a roupa rasgada, e diz: "Onde est a mdica com dores de dentes?" Deu uma tremenda gargalhada: - Entendeu? Ele fodeu o crocodilo em vez da mdica. Se calhar foi uma experincia melhor! Kat permaneceu ali, furiosa, com vontade de lhe dar uma bofetada. Quando a operao chegou ao fim, Kat dirigiu-se ao quarto dos mdicos de servio, para tentar acalmar-se. "No vou deixar que estes filhos da me me derrotem. Isso  que no." De tempos em tempos Paige saa com mdicos do hospital, mas recusava envolver-se emocionalmente com qualquer deles.  Alfred Turner tinha-a magoado profundamente e ela estava decidida a nunca mais passar pelo mesmo. A maior parte dos dias e das noites eram passados no hospital. O horrio era estafante, mas Paige fazia e gostava da cirurgia geral. Uma manh, George Englund, chefe da cirurgia, mandou-a chamar.
- Este ano vai comear a sua especialidade. Cirurgia cardiovascular.
Ela anuiu:
- Sim.
- Bem, tenho um pacto para si. J ouviu falar do doutor Barker?
Paige olhou para ele, surpreendida:
- O doutor Lawrence Barker?
- Sim.
- Claro que sim.
Todos tinham ouvido falar de Lawrence Barker. Era um dos mais famosos cirurgies cardiovasculares do mundo. 
- Bem, na semana passada regressou da Arbia Saudita, onde operou o rei. O doutor Barker  um velho amigo meu e  concordou em ceder-nos trs dias por semana. Pro bono.
- Fantstico! - exclamou Paige.
- Vou coloc-la na equipa dele.
Por um momento Paige ficou muda:
- Eu... no sei o que dizer. Fico-lhe muito agradecida.
-  uma bela oportunidade para si. Pode aprender muito com ele.
- Tenho a certeza que sim. Obrigada, George. Fico-Lhe bastante grata por isto.
- Ir comear as suas rondas com ele amanh de manh, s seis horas.
- Estou ansiosa por isso.
"Estou ansiosa por isso" foi uma forma incompleta de dizer o que sentia. Paige tinha sonhado trabalhar com algum como o Dr. Lawrence Barker. "Que quero dizer com `algum como o Dr. Barker? S existe um Dr. Lawrence Barker." Nunca tinha visto uma fotografia dele, mas imaginava o seu aspecto: devia ser alto e bonito, com cabelos cinza-prata, magro e mos sensveis. Um homem caloroso e gentil. "Iremos trabalhar juntos", pensou ela "e vou tornar-me absolutamente indispensvel. Ser que  casado?" Nessa noite, Paige teve um sonho ertico com o Dr. Barker. Ambos estavam nus a fazer uma operao. A meio desta, o Dr. Barker disse: "Quero-a." Uma enfermeira tirou o doente da marquesa e o Dr. Barker levantou Paige, deitou-a e fez amor com ela. " Quando Paige acordou, estava quase a cair da cama. s seis horas da manh seguinte, Paige esperava nervosa no corredor do segundo andar, juntamente com Joel lips, o residente chefe, e cinco outros residentes, quando um homem baixo e carrancudo comeou a dirigir-se a eles num passo  curto e rpido. Caminhava inclinado para a frente, como se  estivesse a lutar contra o vento. Ele aproximou-se do grupo:
- Por que raio esto todos aqui parados? Vamos embora!
Foi preciso um momento para Paige se recompor. Correu para se juntar aos restantes elementos do grupo, Enquanto atravessavam o corredor, o Dr. Barker atirou:
- Todos vocs tm trinta a trinta e cinco doentes para cuidar por dia. Espero que tomem notas pormenorizadas de cada um deles. Entendido?
Houve um murmrio de "Sim, senhor". Tinham chegado  primeira ala. O Dr. Barker aproximou-se da cama de um doente, um homem com cerca de quarenta anos. O ar rude e modos grosseiros de Barker desapareceram num instante. Tocou suavemente no ombro do doente e sorriu:
- Bom dia. Sou o doutor Barker.
- Bom dia, doutor.
- Como se sente hoje?
- Di-me o peito.
O Dr. Barker estudou o grfico aos ps da cama e depois voltou-se para o Dr. Philips:
- O que mostra esta radiografia?
- Nenhuma alterao. Est a sarar bem.
- Vamos fazer outro CBC.
O Dr. Philips tomou nota.
O Dr. Barker deu uma palmadinha no brao do homem e sorriu:
- Tem bom aspecto. V-lo-emos sair daqui dentro de uma semana. - E, virando-se para os residentes, disse: - Mexam-se! Temos muitos doentes para ver.
"Meu Deus!",, pensou Paige. "E h quem fale do Dr. Jekyll e do Mr. Hyde!" O doente seguinte era uma mulher obesa em que fora implantado um pacemaker. O Dr. Barker estudou o grfico dela: - Bom dia, senhora Shelby. - A voz era agradveL - Sou o doutor Barker. 
- Quanto tempo iro manter-me neste lugar?
- Bem, a senhora  to encantadora que gostaria de a manter aqui para sempre, mas eu tenho mulher.
A Sra. Shelby deu uma risada reprimida:
-  uma mulher sortuda.
Barker examinou novamente o grfico:
- Posso dizer que est quase a ir para casa.
- Que bom.
- Logo  tarde v-la-ei outra vez. - Lawrence Barker virou-se para os residentes. - Avancem.
Seguiram obedientemente o mdico at um quarto semiprivado onde um jovem guatemalense se encontrava deitado e rodeado pela famlia.
- Bom dia - disse calorosamente o Dr. Barker enquanto examinava o grfico do doente. - Como se sente esta manh?
- Sinto-me bem, doutor.
Virando-se para Philips, o mdico perguntou:
- Alguma alterao nos electrlitos?
- No, doutor.
- Essa  uma boa notcia. - Tocou no brao do rapaz:
- Mantenha-se a, Juan.
A me perguntou, ansiosamente:
- O meu filho vai ficar bem?
O Dr. Barker sorriu:
- Vamos fazer tudo o que pudermos por ele.
- Obrigada, doutor.
O Dr. Barker saiu para o corredor e os outros seguiram-no.
Parou.
- O doente sofre de miocardiopatia, tremuras de febre irregular, dores de cabea e edema localizado. Pode algum de vocs, gnios, dizer qual  a causa comum?
Houve silncio. Hesitando, Paige respondeu:
- Creio que  congnito... hereditrio.
O Dr. Barker olhou para ela e anuiu encorajadoramente.
Satisfeita, Paige continuou:
- Salta... espere... - Procurou lembrar-se: - Salta uma gerao e  transmitida atravs do genes da me. - Interrompeu, corou e sentiu-se orgulhosa.
O Dr. Barker olhou um momento para ela:
- Que disparate!  a doena de Chagas. Afecta os habitantes dos pases latino-americanos. - Olhou desgostoso para Paige.
- Jesus! Quem foi que lhe disse que era mdica?
O rosto dela corou intensamente.
Para ela, o resto da ronda foi um castigo. Viram vinte e quatro doentes e Paige ficou com a impresso de que o Dr. Barker tinha passado a manh a tentar humilh-la. Era sempre ela a quem fazia perguntas, testando-a. Quando respondia certo, nunca a elogiava. Quando errava, dava-lhe um berro. A dada altura, quando Paige cometeu um erro, Barker resmungou:
- Nunca a deixaria operar o meu co!
Quando finalmente a ronda chegou ao fim, o Dr. Philips, residente chefe, disse:
- Faremos outra ronda s duas horas. Peguem nos vossos blocos, tomem notas sobre cada um dos doentes e no deixem nada de fora.
Deitou um olhar piedoso a Paige, comeou a dizer algo e depois virou as costas para se juntar ao Dr. Barker. Paige pensou: "Nunca mais quero ver esse animal. Na noite seguinte, Paige estava de servio. Correu de uma crise para outra, procurando acudir prontamente  mar de desastres que inundou as salas de urgncias.  uma da manh, finalmente adormeceu. No ouviu o som estridente de uma sirena anunciando a paragem de uma ambulncia  frente da entrada das urgncias do hospital.  Dois paramdicos abriram a porta da ambulncia, passaram o doente inconsciente da maca para uma marquesa e atravessaram a  correr as portas de entrada para a sala de operaes um. O pessoal tinha sido alertado atravs de radiofonia. Uma enfermeira corria ao lado do doente, enquanto uma segunda esperava no topo da rampa. Sessenta segundos mais tarde, o doente foi transferido da marquesa para uma mesa de exame. Era um jovem e tinha tanto sangue no rosto que mal se lhe viam as feies. Uma enfermeira comeou a trabalhar, cortando-lhe com uma tesoura grande as roupas rasgadas.
- Parece que tem tudo partido.
- Sangra como um porco no matadouro.
- No sinto a pulsao.
- Quem est de servio?
- A doutora Taylor.
- Chame-a. Se vier depressa, talvez ele ainda esteja vivo. Paige foi acordada pela campainha do telefone.
- EsT...
- Temos uma urgncia na sala um, doutora. Penso que no se salva.
Paige sentou-se imediatamente:
- Est bem. Vou j para a.
Olhou para o relgio de pulso. Uma e meia da manh. Saiu da cama e dirigiu-se ao elevador. Um minuto mais tarde, estava a entrar na sala um. A meio da sala, na mesa de exame, encontrava-se o doente coberto de sangue.
- Que temos aqui? - perguntou Paige.
- Um acidente de moto. Foi atropelado por um autocarro. No trazia capacete.
Paige aproximou-se da figura inconsciente e, mesmo antes de Lhe ver o rosto, sentia que sabia quem era. Ficou subitamente bem desperta: 
- Coloquem nele trs linhas IV! - ordenou Paige.
- Dem-lhe oxignio. Mandem vir sangue para baixo stat.
Liguem para o arquivo para saber o grupo sanguneo. A enfermeira olhou para ela, surpreendida:
- Conhece-o?
- Sim. - Teve de se esforar para falar. - Chama-se Jimmy Ford.
Paige passou os dedos pelos cabelos dele:
- Tem um edema profundo. Quero uma ecografia e radiografias  cabea. Vamos ter de fazer tudo por tudo. 
Quero-o vivo!
- Sim, doutora.
Paige passou as duas horas seguintes a certificar-se de que se fazia tudo o que era possvel por Jimmy Ford. As radiografias mostraram uma fractura no crnio, uma contuso cerebral, um mero partido e diversas dilaceraes. Mas tudo teria de esperar at que ele estabilizasse. s trs e meia Paige decidiu que, de momento, nada mais podia fazer. Ele respirava melhor e a pulsao era mais forte. Olhou para a figura inconsciente. "Vamos ter meia dzia de filhos. A primeira menina ir chamar-se Paige.  Espero que no se importe."
- Chamem-me se houver alguma alterao - disse Paige.
- No se preocupe, doutora - disse uma das enfermeiras.
- Cuidaremos bem dele.
Paige regressou ao quarto dos mdicos de servio. Estava exausta mas demasiado preocupada com Jimmy para voltar a adormecer. O telefone voltou a tocar. Mal tinha foras para o atender:
- EsT.
- Doutora,  melhor vir ao terceiro andar. Stat. Acho que um dos doentes do doutor Barker est a sofrer um ataque  cardaco.
- Vou j - respondeu Paige. Um dos doentes do Dr. Barker. 
Paige respirou fundo, saltou da cama, lavou a cara com gua fria e correu para o terceiro andar. Uma enfermeira esperava do lado de fora de um quarto privado:
-  a senhora Hearns. Parece que est a ter outro ataque cardaco.
Paige entrou no quarto. A Sra. Hearns era uma mulher de cerca de cinquenta anos. No rosto ainda se viam traos de uma antiga beleza, mas o corpo era gordo e inchado. Tinha as mos sobre o peito e gemia:
- Estou a morrer - disse. - Estou a morrer. No consigo respirar.
- Vai ficar boa - disse Paige em tom confortante.
Virou-se para a enfermeira. - Fez-lhe um electrocardiograma?
- Ela no me deixa tocar-lhe. Diz que est muito nervosa.
- Temos de fazer um ECG - informou Paige  doente.
- No! No quero morrer. Por favor, no me deixe morrer...
Paige disse  enfermeira:
- Chame o doutor Barker. Pea-lhe para vir aqui imediatamente.
A enfermeira desapareceu. Paige colocou o estetoscpio no peito da Sra. Hearns. Escutou. O ritmo cardaco parecia normal mas Paige no podia correr riscos.
- O doutor Barker estar aqui dentro de instantes - disse a Mrs. Hearns. - Tente descansar.
- Nunca me senti assim to mal. Sinto um peso to grande no peito. Por favor, no me deixe sozinha.
- No a vou deixar sozinha - prometeu Paige.
Enquanto esperava pelo Dr. Barker, Paige telefonou para a unidade de cuidados intensivos. No havia alteraes no  estado de Jimmy. Ainda estava em coma. Trinta minutos mais tarde, apareceu o Dr. Barker. Obviamente, tinha-se vestido  pressa:
- O que se passa? - perguntou.
Paige respondeu:
- Penso que a senhora Hearns est a sofrer outro ataque cardaco.
O mdico aproximou-se da cama:
- Fez um ECG?
- Ela no nos deixa.
- Pulsao?
- Normal. No tem febre.
O Dr. Barker colocou o estetoscpio nas costas da Sra. Hearns:
- Respire fundo.
Ela assim o fez.
- Outra vez.
A Sra. Hearns deu um grande arroto.
- Perdo - sorriu. - Oh. Estou muito melhor.
Ele estudou-a por momentos:
-O que  que comeu ao jantar, senhora Hearns?
- Comi um hamburger.
- S um hamburger? S isso? Apenas um?
- Dois.
- Mais alguma coisa?
- Bem, sabe... cebolas e batatas fritas.
- E para beber?
- Um batido de chocolate.
O Dr. Barker olhou para a doente:
- O seu corao est bom.  com o seu apetite que temos de nos preocupar. - Voltou-se para Paige. - O que v aqui  um caso de azia. Quero falar consigo l fora, doutora.
Quando se encontravam no corredor, resmungou:
- Que raio lhe ensinaram na faculdade de medicina?
Nem sequer consegue distinguir a diferena entre azia e um ataque cardaco?
- Pensei...
- A questo  que voc no conseguiu! Se voltar a acordar-me a meio da noite por causa de um caso de azia, est feita comigo. Percebeu bem?
Paige ficou esttica, com o rosto a arder.
- D-lhe um anticido, doutora - disse Lawrence parker com sarcasmo -, e ver que fica curada. V-la-ei na ronda das  seis e meia. Paige ficou a v-lo partir. Quando voltou a deitar-se no quarto dos mdicos de servio, pensou: "Vou matar Lawrence Barker. F-lo-ei certamente. Ficar muito doente. Ter uma dzia de tubos metidos ao  corpo. Ir implorar-me para que acabe com o sofrimento, mas no o farei. Deix-lo-ei sofrer e depois quando se sentir melhor... ser ento que o matarei!"  Paige estava a fazer a ronda da manh com a Besta, como intimamente chamava ao Dr. Barker. Tinha-o assistido em trs cirurgias cardiotorcicas e, apesar de no simpatizar com  ele, no conseguia deixar de admirar as suas incrveis  capacidades. Olhou estupefacta quando ele abriu um doente, substituiu habilmente o corao velho pelo de um dador e coseu. A operao demorou menos de cinco horas. "Dentro de cinco semanas" pensou Paige, "esse doente poder voltar a ter uma vida normal. No  de admirar que os cirurgies julguem ser deuses. Ressuscitam mortos." Hora aps hora, Paige via um corao parar e transformar-se num pedao de carne inerte. E ento acontecia o milagre e o rgo sem vida comeava a bater de novo e a enviar sangue  para um corpo que tinha estado a morrer. Uma manh, tinha sido marcada uma pequena cirurgia para insero de um balo intra-artico num doente. Paige estava  na sala de operaes a assistir o Dr. Barker. Quando estavam prestes a comear, o Dr. Barker ordenou:
- Faa voc!
Paige olhou para ele:
- Desculpe?
-  um processo simples. Acha que consegue faz-lo?
Notava-se um certo desdm na voz.
- Sim - respondeu Paige, timidamente.
- Bem, ento comece.
Era uma pessoa enervante. Barker viu como Paige inseria habilmente um tubo na artria do doente e o introduzia no corao. Tudo correu perfeitamente. Barker manteve-se ali, sem dizer uma nica palavra. "Que v para o inferno", pensou Paige. "Nada do que fao ou possa fazer ir satisfaz-lo." Paige injectou um lquido radiopaco atravs do tubo. Olharam para o monitor enquanto o lquido corria para as artrias coronrias. Surgiram imagens num ecr fluoroscpico que mostraram o grau de bloqueio e a respectiva localizao  na artria, enquanto uma cmara de filmar automtica gravava as radiografias para um registo permanente. O residente-chefe olhou para Paige e sorriu:
- Bom trabalho.
- Obrigada. - Voltou-se para o Dr. Barker.
- Foi demasiado lenta - resmungou.
E saiu.
Paige agradeceu os dias em que o Dr. Barker estava fora do hospital, a trabalhar na sua clnica privada. Disse a Kat:
- Estar um dia longe dele  como passar uma semana no campo. 
- Tu odeia-lo mesmo, no?
-  um mdico brilhante, mas um ser humano miservel. J notaste como os nomes encaixam to bem em determinadas pessoas? Se o doutor Barker [em ingls: que ladra"] no parar de ladrar para as pessoas, vai ter um enfarte.
- V bem as maravilhas que tenho de enfrentar - disse Kat a rir. - Todos pensam que so uma ddiva divina para as ratinhas. Que bom seria se no houvessem homens no mundo! Paige olhou para ela, mas no disse nada. Paige e Kat foram examinar Jimmy Ford. Ainda estava em coma. No podiam fazer nada. Kat suspirou:
- Merda. Porque  que isto acontece s pessoas boas?
- Quem me dera saber.
- Achas que se salva?
Paige hesitou:
- Fizemos tudo o que podamos. Agora est tudo nas mos de Deus.
- Engraado. Pensei que ramos Deus.
 No dia seguinte, quando Paige estava encarregue da ronda da tarde, Kaplan, um residente-chefe, encontrou-se com ela no corredor:
- Hoje  o seu dia de sorte - sorriu. - Vai ter um novo aluno de medicina por companhia.
- Verdade?
- Sim, o SI.
- SI?
- "Sobrinho idiota". A mulher do doutor Wallace tem um sobrinho que quer ser mdico. Foi expulso das duas ltimas faculdades. Vai ter de o suportar. Hoje  a sua vez. Paige replicou:
- No tenho tempo para isso. Estou cheia at...
- A opo  sua. Seja boazinha e o doutor Wallace t-la- em considerao. - Kaplan retirou-se.
Paige suspirou e dirigiu-se ao lugar onde os novos residentes se encontravam reunidos para dar incio  ronda. "Onde est o SI?" Olhou para o relgio. Ele j estava  atrasado trs minutos. "Vou dar-lhe mais um minuto", decidiu Paige - "depois que v para o inferno." Foi ento que o viu, um homem alto e bem-parecido que corria na sua direco. A arfar, aproximou-se de Paige e disse: - Desculpe. O doutor Wallace pediu-me para...
- Est atrasado - respondeu friamente.
- Eu sei. Peo desculpa. Estava na...
- No interessa. Como se chama?
-Jason. Jason Cunis. - Vestia um casaco desportivo.
- Onde est a sua bata branca?
- A minha bata branca?
- Ningum lhe disse para vestir uma bata branca durante as rondas?
Ele ficou embaraado:
- No. Lamento mas eu...
Paige disse, irritada;
-Volte ao gabinete da enfermeira-chefe e pea-lhe uma bata branca. Tambm no tem um bloco de apontamentos?
- No.
"Sobrinho idiota" define-o bem.
- Venha ter connosco  ala um.
- Tem a certeza? Eu...
- Faa o que lhe disse! - Paige e os outros partiram, deixando Jason Curtis a olhar para eles.
Estavam a examinar o terceiro doente quando Jason  Cunis surgiu a correr. Vestia uma bata branca. Paige dizia: ... os tumores do corao podem ser primrios, e so raros, ou secundrios, que so muito mais comuns. - Voltou-se para Curtis: - Pode dizer os nomes dos trs tipos de tumores? Olhou para ela:
- Lamento, mas no... no posso.
" claro que no."
- Epicardial. Miocardial, Endocardial.
Olhou para Paige e sorriu:
-  muito interessante.
"Meu Deus!", pensou Paige. "Com o Dr. Wallace ou sem o Dr. Wallace, vou livrar-me dele o mais depressa possvel." Avanaram para o doente seguinte e, assim que Paige acabou de o examinar, levou o grupo para o corredor a fim de no serem ouvidos.
- Este  um caso relacionado com a tiride, com febre e taquicardia extrema. Surgiu aps a operao. - Virou-se para Jason Curtis. - Como trataria o doente?
Ficou momentaneamente pensativo. Depois disse:
- Suavemente?
Paige procurou controlar-se:
- Voc no  a me dele,  o mdico! Ele necessita de lquidos IV para combater a desidratao, bem como de iodo IV e de medicamentos antitiride e sedativos para as convulses. Jason anuiu:
- Isso parece correcto.
A ronda no melhorou. Quando chegaram ao fim, Paige chamou Jason Curtis:
- Posso ser franca consigo?
- Pode. Claro que pode - respondeu, agradavelmente.
- Agradeo-lhe muito.
- Procure outra profisso.
Ele franziu as sobrancelhas:
- Acha que no sirvo para isto?
-Muito honestamente, no. Voc no gosta disto, gosta?
- Nem por isso.
- Ento porque escolheu a medicina?
- Para dizer a verdade, fui obrigado.
- Bem, diga ao doutor Wallace que est a cometer um erro.  Acho que deve procurar fazer outra coisa na sua vida.
- Agradeo muito que me tenha dito isso - disse com sinceridade Jason Curtis. - Gostaria de saber se podamos discutir isto mais profundamente. Se no tiver nada para  fazer ao jantar...
- No temos mais nada para discutir - respondeu Paige, secamente. - Pode dizer ao seu tio...
Nesse momento apareceu o Dr. Wallace:
-Jason! - chamou. - Procurei-te por todo o lado. - Voltou-se para Paige. - Vejo que j se conhecem.
- Sim, j nos conhecemos - respondeu Paige, carrancuda.
- Muito bem. Jason  o arquitecto responsvel pela nova ala que estamos a construir.
Paige ficou esttica:
- Ele ...o qu?
- Sim. Ele no Lhe disse?
Sentiu o rosto ficar vermelho. "Ningum lhe disse para vestir uma bata branca durante a ronda? Porque escolheu a medicina? Para dizer a verdade, fui obrigado." Por mim! Paige queria enfiar-se num buraco. Ele troara dela. Voltou-se para Jason:
- Porque no me disse quem era?
Olhou para ela, divertido:
- Bem, na verdade voc no me deu essa oportunidade.
- Ela no te deu uma oportunidade para qu? - perguntou o Dr. Wallace.
- Se me permitem... - disse Paige, envergonhada.
- Que tal jantarmos esta noite?
- Eu no como. Estou ocupada. - E Paige desapareceu.
"Jason olhou para ela com admirao
- Que grande mulher!
- , no ? Que tal irmos para o meu gabinete e conversarmos sobre o novo projecto?
- Okay! - Mas o pensamento estava em Paige.
Era Julho, poca do ritual que tinha lugar de doze em doze meses em todos os hospitais dos Estados Unidos, altura em que entravam novos residentes para iniciar o caminho para a vida
de verdadeiros mdicos. As enfermeiras ansiavam pela chegada do novo grupo de residentes, provocando aqueles que julgavam poder vir a ser bons amantes ou maridos. Neste dia particular, assim que os novos mdicos apareceram, quase todos os olhos femininos se fixaram no Dr. Ken Mallory. Ningum sabia porque  que Ken Mallory tinha sido
transferido de um hospital totalmente privado de Washington. Era residente h cinco anos e cirurgio geral. Havia boatos  de que fora obrigado a deixar Washington  pressa devido a uma  ligao com a mulher de um congressista. Outro rumor afirmava que uma enfermeira se suicidara por sua causa e ele fora convidado a sair. A nica certeza que as enfermeiras tinham era a de que Ken Mallory era, sem sombra  de dvida, o homem mais bonito que jamais viram. Era alto e  tinha um fsico atltico, cabelos loiros ondulados e feies que ficariam bem num ecr de cinema. Mallory integrou-se na rotina do hospital como se tivesse l estado desde sempre. Era uma pessoa encantadora e, quase  desde o incio, as enfermeiras lutavam por chamar a sua ateno. Noite aps noite, os outros mdicos viam Mallory desaparecer dentro- do quarto de servio com uma enfermeira diferente. A sua reputao de garanho estava a tornar-se lendria no hospital. Paige, Kat e Honey conversavam sobre ele.
- Imaginas aquelas enfermeiras a atirarem-se a ele? - disse Kat a rir. - Na verdade lutam para serem o petisco da semana!
- Tens de admitir que ele  atraente - sublinhou Honey.
Kat abanou a cabea
- No, no admito.
Uma manh, estavam meia dzia de residentes no vestirio dos mdicos quando Mallory entrou.
- Estvamos mesmo a falar de si - disse um deles.
- Deve estar exausto - Mallory sorriu:
- No foi uma noite m. - Tinha passado a noite com duas enfermeiras.
Grundy, um dos residentes, disse:
- Voc est a fazer com que todos ns pareamos eunucos, Ken. Existe algum do hospital que no consiga engatar?
Mallory deu uma gargalhada:
- Duvido.
Grundy pensou por momentos:
- Aposto que posso mencionar um nome.
-Verdade? Quem ?
- Uma das residentes chefe. Chama-se Kat Hunter.
Mallory concordou:
- A boneca negra. J a vi.  muito atraente. O que  que o leva a pensar que no consigo seduzi-la?
- Porque todos ns j tentmos. Acho que ela no gosta de homens.
- Ou talvez ainda no tenha encontrado o certo - sugeriu Mallory.
Grundy abanou a cabea:
- No. No ter hipteses.
Era um desafio.
- Aposto que est errado.
Um dos outros residentes disse:
- Quer dizer que deseja fazer uma aposta?
Mallory sorriu:
- Claro. Porque no?
- Est bem. - O grupo comeou a juntar-se  volta de Mallory. - Aposto quinhentos dlares em como no consegue deitar-se com ela.
- Apostado.
- Eu aposto trezentos.
Um outro disse:
- Tambm entro nessa. Aposto seiscentos.
No final, a aposta era de cinco mil dlares. 
- Qual  o tempo-limite? - perguntou Mallory.
Grundy pensou um momento:
- Digamos trinta dias. Chega?
-  mais do que suficiente. No ser preciso tanto tempo.
Grundy observou:
- Mas ter de prov-lo. Ela ter de admitir que foi para a cama consigo.
- No h problema. - Mallory olhou para o grupo e sorriu:
- Malandros!
Quinze minutos mais tarde, Grundy estava na cafetaria onde Kat, Paige e Honey tomavam o pequeno-almoo.
Dirigiu-se  mesa delas:
- Posso juntar-me a vs, senhoras... doutoras... por um momento?
Paige levantou a cabea:
- Claro que sim.
Grundy sentou-se. Olhou para Kat e disse em tom de desculpa:
- Odeio ter de vos dizer isto, mas estou furioso e penso que  justo que saibam...
Kat olhou para ele, confusa:
- Saibamos o qu?
Grundy suspirou:
-Aquele novo residente chefe que entrou... Ken Mallory?
- Sim. O que h com ele?
Grundy respondeu:
- Bem, eu... meu Deus, isto  embaraoso. Apostei cinco mil dlares com alguns dos mdicos em como ir conseguir convenc-la a ir para a cama com ele dentro dos prximos
trinta dias. Kat ficou roxa de raiva:
- Apostou, no foi?
Grundy respondeu submissamente:
- No a condeno por ficar furiosa. Senti-me enojado quando soube. Bem, s quis avis-la. Ele vai convid-la para sair e achei ser meu dever contar-lhe qual o motivo.
- Obrigada - respondeu Kat. - Agradeo que me tenha dito.
- Era o mnimo que podia fazer.
As trs ficaram a ver Grundy ir-se embora.
No corredor, fora da cafetaria, os outros residentes esperavam por ele.
- Como  que correu? - perguntaram.
Grundy deu uma gargalhada:
- Perfeito. Ficou furiosa como tudo. O filho da puta est feito!
Na mesa, Honey dizia:
- Acho isso terrvel.
Kat concordou:
- Algum devia fazer-lhe uma "pilatomia". Iro ter de esquiar no gelo do inferno para que eu saia com aquele filho da me.
Paige ficou pensativa. Pouco depois disse:
- Sabes uma coisa, Kat? Seria interessante que sasses mesmo com ele?
Kat olhou para ela, surpreendida:
- O qu?
Os olhos de Paige brilhavam:
- Porque no? J que ele quer jogar, vamos ajud-lo... s que ir fazer o nosso jogo.
Kat inclinou-se para a frente:
- Continua.
- Ele tem trinta dias, certo? Quando ele te convidar, sers calorosa, amorosa e carinhosa. Quero dizer, mostrar-te-s totalmente louca por ele. Vais deix-lo doido de alegria: A nica coisa que no irs fazer, que Deus te abenoe,  ir  para a cama com ele. Iremos dar-lhe uma lio de cinco mil  dlares. Kat lembrou-se do padrasto. Era uma forma de se vingar.
- Gosto disso - replicou.
- Quer dizer que aceitas? - perguntou Honey.
- Sim.
E Kat no fazia ideia de que, com essa palavra, assinara a sua sentena de morte.
Jason Curtis no tinha conseguido tirar Paige da cabea. Telefonou  secretria de Ben Wallace:
- Ol. Sou Jason Curtis. Preciso do telefone de casa da doutora Paige Taylor.
- Com certeza, senhor Curtis. S um momento. - Deu-lhe o nmero.
Honey atendeu o telefone:
- Doutora Taft.
- Sou Jason Curtis. A doutora Taylor est?
- No, no est. Est de servio no hospital.
- Oh, que pena.
Honey percebeu o desapontamento na voz dele:
- Se for alguma urgncia, eu...
- No, no.
- Posso dar-lhe o recado e ela liga para si.
- Muito obrigado. - Jason deu-Lhe o nmero de telefone.
- Dar-lhe-ei o recado.
- Obrigado.
- Jason Curtis telefonou - disse Honey quando Paige regressou ao apartamento. - Pareceu-me simptico.
Est aqui o telefone dele.
- Queima-o.
- No Lhe vais telefonar?
- No. Nunca.
- Ainda ests presa a Alfred, no ests?
- Claro que no.
E foi tudo o que Honey conseguiu obter dela.
Passados dois dias, Jason tornou a ligar. Desta vez foi Paige quem atendeu o telefone:
- Doutora Taylor.
- Ol! - disse Jason. - Sou o doutor Jason Curtis.
- Doutor...?
- Talvez no se lembre de mim - disse Jason, lentamente - mas fiz a ronda consigo no outro dia e convidei-a para jantar. Voc respondeu...
- Que estava ocupada. Ainda estou. Adeus, senhor Curtis. - E desligou o telefone.
- O que foi tudo isto? - perguntou Honey.
- Nada.
s seis da manh do dia seguinte, quando os residentes se juntaram a Paige para a ronda da manh, apareceu Jason  Curtis. Vestia uma bata branca.
- Espero no ter chegado atrasado - disse alegremente.
- Tive de ir buscar uma bata branca. Sei que fica aborrecida quando no visto uma.
Paige respirou fundo, furiosa:
- Chegue aqui - disse. Empurrou Jason para dentro do vestirio dos mdicos. - O que est aqui a fazer?
- Para dizer a verdade, tenho estado preocupado com alguns dos doentes que vimos no outro dia - respondeu com sinceridade. - Vim ver se estavam todos bem.
O homem estava a enfurec-la:
- Porque no est antes a construir qualquer coisa?
Jason olhou para ela e disse baixinho:
- Estou a tentar. - Tirou do bolso um monte de bilhetes.
- Veja, no sei do que gosta, por isso comprei bilhetes para esta noite para o jogo dos Giants, teatro, pera e um concerto. Escolha.
Estava a p-la fora de si:
- Deita sempre fora o seu dinheiro desta forma?
- S quando estou apaixonado - respondeu Jason.
- Alto a...
Ele estendeu-lhe os bilhetes:
- Escolha.
Paige arrancou-os todos da mo:
- Obrigada - respondeu, afvel. - Vou d-los aos meus doentes externos. A maioria deles no tem a possibilidade de ir a um teatro ou pera.
Ele sorriu:
- ptimo! Espero que se divirtam. Janta comigo?
- No.
- De qualquer modo, tem de comer. No muda de ideia?
Paige ficou um tanto envergonhada por causa dos bilhetes:
- Penso que no seria muito boa companhia. Ontem  noite estive de servio e...
- Faremos um sero mais cedo. Palavra de escuteiro.
Ela suspirou:
- Est bem, mas...
- Maravilha! Onde posso apanh-la?
- Saio daqui s sete.
- Ento, apanho-a aqui - afirmou a sorrir. - Agora vou para  casa e volto para a cama. Que hora to perversa para estar de p! O que a obriga a faz-lo?
Paige viu-o afastar-se e no pde evitar um sorriso. s sete horas dessa tarde, quando Jason chegou ao hospital para apanhar Paige, a enfermeira-chefe disse:
- Penso que encontrar a doutora Taylor no quarto dos mdicos de servio.
- Obrigado. - Jason atravessou o corredor para o quarto de servio. A porta estava fechada. Bateu. Ningum respondeu.
Tornou a bater e depois abriu a porta e olhou para dentro. Paige estava deitada, a dormir profundamente. Jason aproximou-se da cama e permaneceu ali muito tempo, a olhar para ela. "Vou casar contigo, lady, pensou. saiu nas pontas dos ps e, sem fazer barulho, fechou a porta atrs de si. Na manh seguinte, Jason estava numa reunio quando a secretria entrou com um pequeno ramo de flores. No carto lia-se: "Desculpe. RIP. Jason deu uma gargalhada. Telefonou para Paige, no hospital:
-  o seu parceiro quem fala.
- Peo desculpa por ontem  noite - disse Paige.
- Estou envergonhada.
- No esteja. Mas tenho uma pergunta.
- Sim?
- RIP significa "Repouse em Infinita Paz ou "Rip van Winkle?
Paige riu:
- Escolha.
- A minha escolha  jantar logo  noite. Podemos tentar de novo?
Ela hesitou: "No quero envolver-me. Ainda ests presa a Alfred, no ests?
- Est? Est a?
- Sim. - "Uma noite no faz mal a ningum, decidiu Paige. -Sim. Podemos jantar.
- Maravilha!
Nessa noite, enquanto Paige se vestia, Kat observou:
- Parece que vais sair com algum muito importante.
Quem ?
-  um mdico-arquitecto - respondeu Paige - Um qu?
Paige contou-lhe a histria.
- Parece divertido. Ests interessada nele?
- Nem por isso.
A noite passou alegremente. Paige achou que Jason era uma pessoa agradvel. Falaram de tudo um pouco e as horas pareceram voar:
- Fala-me de ti - pediu Jason. - Onde cresceste?
- No vais acreditar em mim.
- Prometo que vou.
-Est bem. No Congo, ndia, Birmnia, Nigria, Qunia...
- No acredito em ti.
-  verdade. O meu pai trabalhava para a OMS.
- Quem? Desisto. Vai ser uma reposio de Abbott e Costello. 
- Organizao Mundial de Sade. Ele era mdico.
Passei a infncia a viajar com ele para a maior parte dos pases do Terceiro Mundo.
- Deve ter sido difcil para ti.
- Era entusiasmante. A parte mais difcil era que eu nunca podia ficar o tempo suficiente para fazer amizades.
- "No precisamos de mais ningum, Paige. Teremos sempre um  ao outro... Esta  a minha mulher, Karen. Afastou as lembranas:
- Aprendi muitas lnguas estranhas e costumes exticos.
- Por exemplo?
- Bem, por exemplo, eu... - pensou por momentos.
- Na ndia acreditavam na vida depois da morte e que a vida  seguinte depende de como se comporta nesta. Se foste mau, voltars sob a forma de animal. Lembro-me que, numa aldeia, tivemos um co e eu costumava pensar em quem ele fora e que teria feito de to mau.
Jason interrompeu:
- Provavelmente ladrou para a rvore errada.
Paige sorriu:
- E depois havia o gherao.
- O gherao?
-  uma forma poderosa de castigar. Uma multido rodeia um homem. - Calou-se.
-E?
-  tudo.
-  tudo?
- No dizem nem fazem nada. Mas ele no consegue mexer-se nem fugir. Fica encurralado at aceder quilo que eles pretendem. Tudo pode durar muitas e muitas horas. Ele permanece no meio do crculo, mas a multido faz turnos. Uma vez vi um homem a tentar escapar do gherao. Deram-lhe uma tareia de morte. A lembrana do caso fez Paige estremecer. As pessoas normalmente pacficas tinham-se transformado numa multido enfurecida. "Vamo-nos afastar daqui", dissera Alfred. Abraara-a e levara-a para uma rua sossegada. 
- Isso  terrvel - disse Jason.
- No dia seguinte, fomo-nos embora.
- Quem me dera ter conhecido o teu pai.
- Era um mdico maravilhoso. Poderia ter tido muito xito na Park Avenue, mas no estava interessado em dinheiro. O seu nico interesse era ajudar os outros. - "Tal como Alfred", pensou.
- O que  que lhe aconteceu?
- Foi morto numa guerra tribal.
- Lamento.
- Ele gostava de fazer o que fez. No incio, os nativos lutavam contra ele. Eram muito supersticiosos. Nas aldeias indianas mais afastadas todos tm um jatak, um horscopo  feito pelo astrlogo da aldeia, e vivem de acordo com ele - sorriu.
- Gostei muito de ter um s para mim.
- E disseram-te que ias casar com um jovem e belo arquitecto?
Paige olhou para ele e respondeu com firmeza:
- No. - A conversa estava a tornar-se demasiado ntima.
- Tu s arquitecto, por isso irs gostar disto. Cresci em cabanas feitas de adobe, com solos de terra batida e telhados de palha, onde ratos e morcegos gostavam de habitar. Vivi em tukuls, com telhados de capim e sem janelas. O meu sonho era viver um dia numa casa confortvel de dois pisos, com varanda, um jardim relvado e uma vedao branca, e... - Paige calou-se. - Desculpa. No pretendia continuar deste modo, mas tu perguntaste.
- Ainda bem que perguntei - disse Jason.
Paige olhou para o relgio:
- No pensei que fosse to tarde.
- Podemos repetir?
"No quero alimentar-lhe as esperanas,", pensou Paige. "Isto no vai resultar em nada." Lembrou-se de algo que Kat lhe tinha dito. "Ests presa a um fantasma. Solta-o." Olhou para Jason e disse:
- Sim.
Na manh seguinte, muito cedo, chegou um mensageiro com um pacote. Paige abriu-lhe a porta.
- Tenho uma coisa para a doutora Taylor.
- Sou a doutora Taylor.
O mensageiro olhou para ela, surpreendido:
-  mdica?
- Sim - respondeu Paige, pacientemente. - Sou mdica.
Importa-se?
Ele encolheu os ombros:
- No, senhora. De modo algum. Importa-se de assinar aqui, por favor?
O pacote era surpreendentemente pesado. Curiosa, Paige transportou-o para a mesa da sala e desembrulhou-o. Era uma miniatura de uma bonita casa de dois pisos com varanda.  enfrente da casa havia um pequeno jardim relvado, rodeado por uma vedao branca. "Deve ter passado toda a noite acordado para fazer isto." Havia um carto onde se lia: minha Nossa Por favor, coloca uma cruz. Ficou muito tempo sentada a olhar para a casa. Era a casa certa, mas o homem errado. "O que  que se passa comigo?,", perguntou-se a si prpria. "Ele  inteligente, atraente e encantador." Mas sabia qual era o problema. Ele no era Alfred. O telefone comeou a tocar.
Era Jason.
- Recebeste a tua casa? - perguntou.
-  linda! - respondeu Paige. - Muitssimo obrigada.
- Gostaria de te construir a verdadeira. Colocaste a cruz?
- No.
- Sou um homem paciente. Ests livre ao jantar?
- Sim, mas devo avisar-te que vou fazer operaes durante todo o dia e,  noite, estarei exausta.
-Jantaremos cedo. A propsito, vai ser em casa dos meus pais.
Paige hesitou um momento:
- Oh?
- Contei-lhes tudo sobre ti.
- Est bem - disse Paige. As coisas estavam a andar depressa de mais. Isso deixava-a nervosa.
Quando Paige desligou, pensou: "No devia estar a fazer isto. Logo  noite estarei demasiado cansada para fazer o que quer que seja a no ser dormir." Sentiu vontade de ligar a Jason e cancelar o jantar. "J  tarde para isso. Jantaremos cedo." Nessa noite, enquanto Paige se vestia, Kat observou:
- Pareces exausta.
- E estou.
- Porque vais sair? Devias ir para a cama. Ou isso  redundante?
- No. Hoje no.
- Outra vez Jason?
- Sim. Vou conhecer os pais dele.
- Ah! - Kat abanou a cabea.
- No  nada disso - disse Paige. "Realmente no ".
Os pais de Jason moravam numa antiga e encantadora casa, no distrito de Pacific Heights. O pai era um septuagenrio de aspecto aristocrtico. A me era uma mulher simptica e realista. Fizeram com que Paige se sentisse instantaneamente em casa.
- Jason falou-nos tanto de si - disse a Sra. Curtis.
- Mas no nos disse que era assim to bonita.
- Obrigada.
Foram para a biblioteca, que estava repleta de miniaturas de construes que Jason e o pai tinham desenhado.
- C entre ns, julgo que Jason, o av e eu somos os responsveis por grande parte da paisagem de So Francisco - disse o pai de Jason. - O meu filho  um gnio.
-  isso que eu estou sempre a dizer a Paige.
Paige riu:
- Acredito. - Os olhos comearam a pesar e ela lutava por mant-los abertos.
Jason olhava para ela, preocupado:
- Vamos jantar - sugeriu.
Foram para uma ampla sala de jantar. Estava revestida com painis de madeira e mobilada com antiguidades atractivas e retratos pendurados na parede. Uma criada comeou a servir. O pai de Jason disse:
- Aquela pintura alm  o av de Jason. Todos os
edifcios que construiu foram destrudos no terramoto de mil novecentos e seis.  pena. Eram relquias. Depois do jantar, mostrar-lhe-ei algumas fotografias se...
A cabea de Paige tombara sobre a mesa. Dormia profundamente.
- Ainda bem que no servi a sopa - disse a me de Jason.
Ken Mallory tinha um problema. Assim que se soube no hospital do dinheiro apostado em Kat, as apostas subiram rapidamente para dez mil dlares. Mallory estava to  confiante no xito que apostara mais do que poderia pagar. "Se falhar, estou metido num grande sarilho. Mas no. Chegou o momento de o mestre entrar em aco." Kat estava a almoar na cafetaria com Paige e Honey, quando Mallory se aproximou da mesa.
- Posso juntar-me a vocs, doutoras?
"Nem senhoras nem meninas. Doutoras. O tipo sensibilizante", pensou Kat, cinicamente.
- Com certeza. Sente-se - respondeu.
Paige e Honey trocaram olhares.
- Bem, tenho de ir embora - disse Paige.
- Eu tambm. At logo.
Mallory viu Paige e Honey retirarem-se.
- Uma manh muito movimentada? - perguntou.
Disse-o de maneira a parecer que estava preocupado.
- No so todas? - Kat fez um sorriso acolhedor e
prometedor.
Mallory tinha planeado cuidadosamente a estratgia. "Vou fazer com que saiba que estou interessado nela como pessoa e no apenas como mulher. Elas detestam que as considerem objecto sexual. Conversarei com ela sobre medicina. Tenho de levar isto com calma. Tenho um ms inteiro para a meter no papo." 
- Soube da autpsia da senhora Turnball? - comeou Mallory.
- A mulher tinha uma garrafa de Coca-Cola no estmago!  Imagina como...?
Kat inclinou-se para a frente:
- Tem algum compromisso no sbado  noite, Ken?
Mallory foi totalmente apanhado de surpresa:
- O qu?
- Pensei que gostasse de me levar a jantar fora.
Ele quase corou. "Meu Deus!",, pensou. Venham pedir-me para dar um tiro num peixe dentro de um barril!
Ela no  lsbica. A malta diz isso s porque no foi capaz  de
se meter nela. Bem, eu serei. Na verdade, ela est mesmo a pedir isso! Tentou lembrar-se da pessoa com quem tinha um compromisso no sbado. Sally, a pequena enfermeira da SO. Mas ela pode esperar."
- Nada de importante - disse Mallory. - Gostaria muito de a levar a jantar fora.
Kat poisou uma mo sobre a dele:
- Maravilha! - disse suavemente. - Ficarei ansiosa por isso.
Ele sorriu:
- Eu tambm. - "Nem sabes quanto, querida. Vales dez mil dlares!"
Nessa tarde, Kat contou tudo a Paige e Honey.
- Ficou de boca aberta! - disse Kat a rir. - Deviam ter visto a cara dele! Parecia o gato que engoliu o canrio.
Paige disse:
- Lembra-te, tu s o gato (kat, em ingls). Ele  o canrio.
- Que vais fazer no sbado  noite? - perguntou Honey.
- Alguma sugesto?
- Eu tenho - respondeu Paige.
Eis que No sbado  noite, Kat e Ken Mallory jantaram no  Emilio's,,um restaurante da baa.
Tinha-se arranjado cuidadosamente para ele, usando um vestido de algodo branco a cair pelos ombros.
- Ests sensacional - disse Mallory. Teve o cuidado de dar a entoao certa. "Aprecia mas no pressiones. Admira mas no sejas sugestivo.", Mallory estava determinado  a ser o mais encantador possvel, mas tal no era necessrio. Cedo se tornou bvio que Kat tencionava impression-lo. Enquanto tomavam uma bebida, Kat disse:
-Todos falam da maravilha de mdico que tu s, Ken.
- Bem - disse Mallory, modestamente. - Tive um ptimo treino e preocupo-me muito com os meus doentes. So muito  importantes
para mim. - A voz soou sincera.
Kat poisou a mo sobre a dele:
- Tenho a certeza disso. Donde s? Quero saber tudo sobre ti. O teu verdadeiro eu.
"Jesus!,", pensou Mallory. "Essa  a frase que eu emprego." No conseguia acreditar o quo fcil iria ser. Era perito em matria de mulheres. O seu radar conhecia todos os sinais que elas utilizavam. Podiam dizer sim com um olhar, um sorriso, um tom de voz. Os sinais de Kat interferiam no seu radar. Ela inclinou-se mais para ele e a voz soou rouca:
- Quero saber tudo.
Ele falou de si durante o jantar e, sempre que quis mudar de assunto, Kat dizia:
- No, no. Quero saber mais. Tiveste uma vida to fascinante!
HEst louca por mim", decidiu Mallory. Nesse momento desejou ter aceite mais apostas. "Se calhar saio vencedor esta noite", pensou. E teve a certeza disso quando, no momento em que tomavam o caf, Kat convidou:
- Queres subir ao meu apartamento para uma ltima bebida?
Bingo! Mallory pegou-lhe no brao e disse suavemente:
- Gostaria muito.
KA malta estava toda doida",, decidiu Mallory. " a maior puta que jamais conheci.," Tinha a sensao de que estava prestes a ser violado.
Trinta minutos mais tarde entravam no apartamento de Kat.
- Bonito - disse Mallory, olhando em volta. - Muito bonito.
Vives sozinha?
- No. As doutoras Taylor e Taft vivem comigo.
- Oh! - Pode ouvir o tom desgostoso na voz dele.
Kat fez-lhe um enorme sorriso:
- Mas s chegaro a casa muito mais tarde.
Mallory sorriu:
- Ainda bem.
- Queres beber alguma coisa?
- Gostaria muito. Usque com gua gaseificada, por favor.
- Olhou para Kat enquanto esta se dirigia ao pequeno bar e preparava duas bebidas. "Tem um belo rabo" - pensou Mallory. 
"E  muito bonita e eu vou receber dez mil dlares para a meter debaixo de mim." Riu alto.
Kat voltou-se:
- Qual  a piada?
- Nada. Estava a pensar na sorte que tenho em estar aqui sozinho contigo.
- Eu  que tenho sorte - disse Kat, calorosamente.
Entregou-lhe a bebida.
Mallory ergueu o copo e comeou a dizer:
-  tu...
Kat interrompeu:
-  nossa! - disse.
- Brindo a isso - concordou ele.
Ia dizer "Que tal um pouco de msica?", mas, assim que abriu a boca, Kat perguntou:
- Gostarias de ouvir msica?
- Sabes ler o pensamento.
Kat cqlocou um velho disco de Cole Porter. Sorrateiramente, olhou para o relgio e voltou-se para Mallory;
- Gostas de danar?
Mallory aproximou-se mais dela:
- Depende da pessoa com quem dano. Gostaria de danar contigo.
Kat meteu-se nos braos dele e ambos comearam a danar ao som da msica lenta e romntica. Ele sentiy o corpo de Kat contra o seu e que estava a excitar-se.
Apertou-a mais e Kat sorriu.
"Chegou o momento da machadada final", pensou.
- s um amor, sabes? - disse Mallory em voz rouca.
- Quero-te desde o primeiro momento em que te vi.
Kat olhou-o nos olhos:
- Tambm senti o mesmo em relao a ti, Ken. - Os lbios dele aproximaram-se dos dela, dando-lhe um beijo quente e apaixonado.
- Vamos para o quarto - disse Mallory. Subitamente, estava cheio de pressa.
- Oh, sim!
Pegou no brao de Kat e ela comeou a conduzi-lo para o quarto. Nesse momento, a porta de entrada abriu-se e Paige e Honey entraram.
- Ol, pessoal! - disse Paige. Olhou surpreendida para Ken Mallory. - Oh, doutor Mallory! No esperava v-lo aqui.
- Bem, eu... eu...
- Fomos jantar fora - disse Kat.
Mallory estava roxo de fria. Procurou controlar-se.
Voltou-se para Kat e disse:
- Tenho de ir embora. J  tarde e amanh tenho muito trabalho.
- Oh. Que pena - disse Kat. Havia um mundo de promessas nos seus olhos.
Mallory perguntou:
- Que tal sairmos amanh  noite?
- Gostaria muito...
- ptimo!
- mas no posso.
- Oh! Bem, e na sexta-feira?
Kat franziu as sobrancelhas:
- Deixa ver. Lamento, mas na sexta tambm no pode ser.
Mallory comeava a ficar desesperado:
- Sbado?
Kat sorriu:
- Sbado est ptimo.
Ele concordou, aliviado:
- Muito bem. Ento fica para sbado. - Voltou-se para Paige e Honey: - Boa noite.
- Boa noite.
Kat acompanhou Mallory at  porta.
- Sonhos cor-de-rosa - disse suavemente. - Vou sonhar contigo.
Mallory apertou-lhe a mo:
- Acredito em tornar os sonhos realidade. Havemos de compensar o dia de hoje no sbado  noite.
- Mal posso esperar.
Nessa noite, Kat deitou-se na cama a pensar em Mallory. Odiava-o. Mas, para sua surpresa, tinha gostado da noite. Estava certa de que Mallory tambm tinha gostado, apesar do facto de tudo ter sido um jogo. "Se, pelo menos, isto fosse realmente verdade", pensou Kat, "e no um jogo." No fazia ideia o quo perigoso era o jogo. "Talvez seja do tempo", pensou Paige, fatigada. L fora estava frio e escuro e caa uma chuva cinzenta que deprimia  os espritos. O dia dela tinha comeado s seis horas da manh e estava repleto de problemas constantes. O hospital parecia estar cheio de smsus e todos se queixavam ao mesmo tempo. As enfermeiras estavam mal-humoradas e desatentas. Tiraram sangue a doentes errados, perderam radiografias que eram urgentes e responderam rudemente aos pacientes. Alm disso, havia falta de pessoal, devido a uma epidemia de gripe. Era um daqueles dias. A nica coisa boa foi a chamada telefnica de Jason Curtis.
- Ol - disse alegremente. - Achei que devia telefonar para saber como vo todos os nossos doentes.
- Sobrevivem.
- H alguma possibilidade para o nosso almoo?
Paige riu:
- Que almoo? Se tiver sorte, poderei comer uma sanduche por volta das quatro da tarde. Isto aqui est bastante agitado.
- Est bem. No te empato mais. Posso telefonar-te mais tarde?
- Est bem. - "No h nada de mal nisso."
- Adeus.
Paige trabalhou at  meia-noite sem descansar um s momento e, quando por fim teve sossego, estava demasiado cansada para se mexer. Pensou em ficar no hospital e dormir no quarto dos mdicos de servio, mas era tentadora a lembrana da sua prpria cama acolhedora. Mudou de roupa e dirigiu-se ao elevador. O Dr. Peterson foi ter com ela.
- Meu Deus! - disse. - Onde est o gato que a encurralou?
Paige forou um sorriso:
- Tenho um aspecto assim to mau?
- Pior - sorriu Peterson. - Vai agora para casa?
Paige abanou a cabea.
- Tem sorte. Eu entrei agora.
O elevador chegou. Paige manteve-se ali, meio a dormir. 
Peterson disse com suavidade:
- Paige?
Ela deu um salto:
- Sim?
- Vai conseguir chegar a casa?
- Claro - murmurou Paige. - E quando l chegar, vou dormir vinte e quatro horas seguidas.
Dirigiu-se ao parque de estacionamento e entrou no carro. Manteve-se algum tempo sentada, inerte, pois estava demasiado cansada para ligar a ignio. "No posso dormir aqui. Vou dormir a casa." Paige saiu do estacionamento e dirigiu-se ao apartamento. No percebeu que estava a conduzir desordenadamente, at um condutor lhe gritar:
- Eh, sai da estrada, puta bbeda!
Procurou concentrar-se. "No posso adormecer... No posso adormecer." Ligou o rdio e subiu o volume. Quando chegou ao edifcio, manteve-se muito tempo sentada no carro at retomar foras suficientes para subir. Kat e Honey estavam deitadas, a dormir. Paige olhou para o relgio da mesa-de-cabeceira. "Uma da manh. Entrou no quarto e comeou a despir-se, mas o esforo era excessivo para ela. Deixou-se cair na cama, vestida, e num instante dormia profundamente. Foi acordada pela campainha insistente de um telefone que parecia estar num planeta muito distante. Paige procurou continuar a dormir, mas a campainha parecia agulhas a penetrarem no crebro. Ainda tonta, sentou-se e levantou o telefone:
- 'T?
- Doutora Taylor?
- Sim. - A voz era apenas um murmrio.
- O doutor Barker quer que o venha assistir na sala de operaes quatro, stat.
Paige engoliu em seco:
- Deve haver um engano - murmurou. - Acabei de sair de servio.
- Sala de operaes quatro. Ele est  espera. - E a linha caiu.
Ainda tonta, Paige sentou-se na borda da cama com a mente nublada pelo sono. Olhou para o relgio da mesa-de-cabeceira. Quatro e um quarto. Porque  que o Dr. Barker a chamava a  meio
da noite? Havia apenas uma resposta. Tinha acontecido algo a um dos seus doentes. Paige enfiou-se na casa de banho e lavou a cara com gua fria. Olhou-se ao espelho e pensou: "Meu Deus! Parece que tenho oitenta anos. Dez minutos mais tarde, Paige dirigia-se ao hospital. Ainda estava meio a dormir quando apanhou o elevador at ao quarto andar para ir  SO quatro. Entrou no vestirio e mudou de roupa, depois desinfectou-se e entrou na sala de  operaes. Estavam trs enfermeiras e um residente a assistirem o Dr. Barker. Este levantou a cabea quando Paige entrou e gritou:
- Por amor de Deus, vestiu uma bata do hospital!
Ningum lhe informou que deve vestir roupa desinfectada numa sala de operaes? Paige ficou abismada, totalmente desperta, de olhos esbugalhados:
- Escute-me - disse, furiosa. -  suposto estar fora de servio. Vim fazer-lhe um favor. Eu no...
- No discuta comigo - disse o Dr. Barker, bruscamente.
- Chegue aqui e segure neste retractor.
Paige aproximou-se da mesa de operaes e olhou para baixo. No era seu o doente que ali se encontrava. Era um estranho. "Barker no tinha motivos para me chamar. Est a tentar obrigar-me a deixar o hospital. Bem, raios o partam se saio!" Deitou-lhe um olhar de dio, pegou no retractor e comeou a trabalhar. Tratava-se de uma operao urgente de enxerto de bypass na artria coronria. A inciso cutnea j tinha sido feita no centro do trax at ao esterno, o qual fora separado a meio com uma serra elctrica. O corao e principais vasos sanguneos estavam expostos. Paige inseriu o retractor metlico entre os lados cortados do esterno, obrigando-os a afastarem-se. Viu como o Dr.  Barker abria habilmente o saco pericrdico, expondo o corao. Ele apontou para as artrias coronrias:
- Aqui est o problema - disse Barker. - Vamos fazer um enxerto.
J tinha retirado um longo pedao de veia de uma perna. Coseu uma das extremidades  artria principal que sai do corao. Ligou a outra a uma das artrias coronrias para  alm da rea obstruda, enviando sangue atravs do enxerto e desviando-o da obstruo. Paige via um mestre a trabalhar. "Se pelo menos no fosse to filho da me!", Quando chegou ao fim, Paige estava apenas meio consciente. Assim que a inciso foi cosida, o Dr. Barker virou-se para o pessoal e disse: 
- Quero agradecer a todos vs. - No olhou para Paige.
Esta cambaleou para fora da sala sem dizer uma palavra e dirigiu-se ao gabinete do Dr. Benjamin Wallace. Wallace acabava de chegar:
- Parece exausta - disse. - Devia ir descansar.
Paige respirou fundo para controlar a fria:
- Quero ser transferida para outra equipa cirrgica.
Wallace estudou-a por momentos:
- A senhora foi designada para assistir o doutor Barker,  certo?
- Certo.
- Qual  o problema?
-Pergunte-lhe a ele. Odeia-me. S ficar satisfeito quando me vir daqui para fora. Assistirei qualquer outro mdico. Um qualquer.
- Terei uma conversa com ele - respondeu Wallace.
- Obrigada.
Paige deu meia volta e saiu do gabinete. " melhor que me afastem dele. Se o vir de novo, mato-o!"
Paige foi para casa e dormiu doze horas seguidas. Acordou com a sensao de que tinha acontecido algo maravilhoso e depois lembrou-se. "Nunca mais tornarei a ver a Besta!" Conduziu at ao hospital, a assobiar. Quando Paige percorria o corredor, um empregado aproximou-se dela:
- Doutora Taylor...
- Sim?
- O doutor Wallace quer v-la no gabinete.
- Obrigada - agradeceu Paige. Tentou imaginar quem seria o novo cirurgio-chefe. "Qualquer um seria um melhoramento", pensou. Entrou no gabinete de Benjamin Wallace.
- Bem, tem um aspecto muito melhor, Paige.
- Obrigada. Sinto-me muito melhor. - E era verdade.
Sentia-se ptima, com uma enorme sensao de alvio.
- Falei com o doutor Barker.
Paige sorriu:
- Obrigada. Agradeo sinceramente.
- Ele no a liberta.
O sorriso desapareceu:
- O qu?
- Diz que foi designada para a equipa dele e, por isso, ter de permanecer l.
No conseguia acreditar no que ouvia:
- Mas porqu? - Ela sabia a resposta. O sdico filho da me precisava de um bode expiatrio, de algum a quem humilhar.
- No vou ficar impvida e serena.
O Dr. Wallace afirmou com tristeza:
- Lamento, mas no tem outra escolha possvel. A no ser que queira deixar o hospital. Quer pensar nisso?
Paige no precisava de pensar:
- No. - No ia deixar que o Dr. Barker a obrigasse a desistir. Esse era o plano dele. - No - repetiu lentamente. - Eu fico.
- Muito bem. Ento  assunto arrumado.
"No por muito tempo", pensou ela. "Hei-de descobrir uma maneira de o fazer pagar por isto."
No vestirio dos mdicos, Ken Mallory preparava-se a iniciar  a ronda. Entrou o Dr. Grundy e trs outros.
- Eis o nosso homem! - disse Grundy. - Como vai, Ken?
- Bem - respondeu Mallory.
Grundy voltou-se para os outros:
- No tem ar de ter estado em cima de algum, tem? - E, voltando-se de novo para Mallory: - Espero que tenha o nosso dinheiro de lado. Estou a pensar comprar um carro pequeno.
Um outro mdico acrescentou:
- Eu vou comprar roupas novas.
Mallory abanou piedosamente a cabea:
- Eu no contaria com isso, seus palermas. Preparem-se para me pagar!
Grundy estudou-o e perguntou:
- O que quer isso dizer?
- Se ela  lsbica, eu sou eunuco. Ela  a maior puta que eu conheci. Na outra noite, quase tive de a afastar de mim!
Os homens olharam uns para os outros, preocupados.
- Mas j a meteste na cama?
- A nica razo por que no o fiz, meus amigos, foi porque fomos interrompidos a caminho do quarto. Vou sair com ela no sbado  noite e  assunto arrumado. - Mallory acabou de se vestir. - Agora, cavalheiros, se me permitem...
Uma hora mais tarde, Grundy encontrou-se com Kat no corredor.
- Tenho andado  sua procura - disse. Parecia zangado.
- Alguma coisa errada?
-  aquele filho da me do Mallory. Est to seguro de si que diz a todos que vai conseguir lev-la para a cama no sbado  noite.
- No se preocupe - disse Kat, implacavelmente.
- Ele vai perder.
Nesse sbado  noite, quando Ken Mallory foi buscar Kat, ela usava um vestido curto que acentuava o seu corpo voluptuoso. 
- Ests linda - disse com admirao.
Colocou os braos  volta dele:
- Quero estar bonita para ti - disse, colando-se a ele.
"Meu Deus, ela quer mesmo!" Quando Mallory falou, a voz soou rouca:
- Olha, Kat. Tive uma ideia. Antes de irmos jantar, porque no vamos para o quarto e...
Ela tocava-lhe no rosto:
- Oh, querido, quem me dera podermos. Paige est em casa.
Na verdade, a amiga estava no hospital, a trabalhar.
- Oh.
- Mas depois do jantar... - Deixou que a sugesto pairasse no ar.
- Sim?
- Podamos ir para tua casa.
Mallory abraou-a e beijou-a:
- Que bela ideia!
Levou-a ao Iron Horse, onde jantaram deliciosamente. Apesar de tudo, Kat estava a divertir-se muito. Ele era encantador, divertido e muito atraente. Parecia genuinamente interessado em saber tudo sobre ela. Sabia que a estava a adular, mas o olhar fazia com que os elogios parecessem  reais. "Se eu no soubesse bem...", Mallory mal tocou na comida. S conseguia pensar: "Dentro de duas horas ganharei dez mil  dlares... Dentro de uma hora ganharei dez mil dlares...  Dentro de trinta minutos..." Terminaram o caf.
- Ests pronta? - perguntou Mallory.
Kat poisou a mo sobre a dele:
- Nem sabes como, querido. Vamos.
Apanharam um txi at ao apartamento de Mallory.
- Estou louco por ti - murmurou ele. - Nunca conheci ningum como tu.
E ela lembrou-se de Grundy: "Est to seguro de si que diz que a vai meter na cama no sbado  noite." Quando chegaram ao apartamento, Mallory pagou ao taxista e conduziu Kat at ao elevador. Teve a sensao de que este nunca mais chegava ao seu apartamento. Abriu a porta e disse impacientemente:
- Chegmos.
Kat entrou.
Era um vulgar apartamento de solteiro, que necessitava desesperadamente do toque de uma mulher.
- Oh,  bonito - suspirou Kat. Virou-se para Mallory. -  a tua pessoa.
Ele sorriu:
- Vou mostrar-te o nosso quarto. Vou pr msica.
Quando se aproximou da aparelhagem de som, Kat olhou para o relgio. A voz de Barbra Streisand encheu a sala.  Mallory pegou na mo dela e disse:
- Vamos, querida.
- Espera um pouco - disse Kat, suavemente.
Olhou confuso para ela:
- Para qu?
- Quero apenas aproveitar este momento contigo.
Percebes, antes de...
- Porque no aproveitamos no quarto?
- Gostaria de beber qualquer coisa.
- Beber? - Tentou esconder a impacincia. - Tens razo, o que preferes?
- Um vodca com gua tnica, por favor.
Ele sorriu:
- Acho que se pode arranjar - disse, dirigindo-se ao pequeno bar e, apressadamente, preparou duas bebidas.
Kat olhou de novo para o relgio. Mallory regressou com as bebidas e entregou uma a Kat. - Aqui est, querida. - Ergueu o copo: - Ao nosso encontro.
- Ao nosso encontro - disse Kat, molhando os lbios na bebida. - Oh, meu Deus.
Olhou para ela, abismado:
- Qual  o problema?
- Isto  vodca!
- Foi o que pediste.
- Pedi? Desculpa. Detesto vodca! - E afagou-lhe o rosto.
- Posso beber um usque com gua gaseificada?
- Claro. - Engoliu em seco e foi de novo at ao bar para preparar outra bebida.
Kat olhou outra vez para o relgio.
Ken Mallory regressou:
- Toma.
- Obrigada, querido.
Deu dois goles. Mallory tirou-lhe o copo da mo e poisou-o na mesa. Colocou os braos em volta dela e abraou-a com fora, permitindo que ela sentisse que estava excitado.
- Bem - disse Ken, suavemente -, vamos fazer histria.
- Oh, sim! - disse Kat. - Sim!
Deixou-se conduzir at ao quarto.
"Consegui!", regozijou-se Mallory. "Consegui! Aqui vo as muralhas de Jeric!" Voltou-se para Kat.
- Despe-te, querida.
- Despe-te tu primeiro, querido. Quero ver-te a despir. Isso excita-me.
- Sim? Bom, est bem.
Enquanto Kat ficou a v-lo, Mallory tirou lentamente a roupa. Primeiro o casaco, depois a camisa e a gravata, a seguir os sapatos e as meias e por fim as calas. Possua a figura tpica de um atleta.
- Isto excita-te, querida?
- Oh, sim. Agora tira as cuecas.
Lentamente, Mallory deixou cair a cueca para o cho.
Tinha uma ereco trgida.
- Que beleza - disse Kat.
- Agora  a tua vez.
- Certo.
E nesse momento o telebip de Kat comeou a tocar.
Mallory ficou espantado:
- Que raio... 
- Esto a chamar-me - disse Kat. - Posso usar o teu telefone?
- Agora?
- Sim. Deve ser uma urgncia.
- Agora? Isso no pode esperar?
- Querido, conheces bem as regras.
-Mas...
Sob o olhar de Mallory, Kat aproximou-se do telefone e discou um nmero.
- Doutora Hunter. - Calou-se. - Verdade? Claro.
Vou j para a.
Mallory olhava para ela, estupefacto:
- O que  que se passa?
- Tenho de ir ao hospital, meu anjo.
- Agora?
- Sim. Um dos meus doentes est a morrer.
- Ele no pode esperar at...?
- Desculpa. Faremos isto uma outra noite.
Ken Mallory permaneceu ali, completamente nu, a ver Kat deixar o seu apartamento e, quando a porta se fechou, pegou  no copo dela e atirou-o contra a parede. "Puta... puta... puta...". Quando Kat regressou ao apartamento, Paige e Honey estavam ansiosas  sua espera.
- Como  que correu? - perguntou Paige. - Cheguei a tempo?
Kat deu uma gargalhada:
- Chegaste na hora ag!
Comeou a descrever a noite. Quando chegou ao momento referente a Mallory, todo nu no quarto, erecto, desataram a rir at s lgrimas. Kat teve a tentao de lhes contar que realmente gostara de Ken Mallory, mas sentiu que seria uma tolice. Afinal, ele s tinha sado com ela para ganhar uma aposta. Por qualquer razo, Paige pareceu ter percebido o que Kat estava a sentir.
- Tem cuidado com ele, Kat.
Kat sorriu:
- No te preocupes. Mas admito que se no tivesse sabido da aposta... Ele  venenoso, mas o seu veneno  agradvel.
- Quando vais voltar a v-lo? - perguntou Honey.
- Vou dar-lhe uma semana para acalmar os nimos.
Paige estudou-a e perguntou:
- A ele ou a ti?
A limusina preta de Dinetto esperava por Kat,  frente do hospital. Desta vez, o Sombra estava sozinho. Kat desejou que Rhino l estivesse. Havia algo n'o Sombra que a deixava petrificada. Nunca sorria e raramente falava, mas transpirava perigo.
- Entre - disse quando Kat se aproximou do carro.
- Olhe - disse Kat, indignada -, diga ao senhor Dinetto que ele no me pode dar ordens. No trabalho para ele. S porque lhe fiz um favor uma vez...
- Entre. Pode dizer-lhe isso pessoalmente.
Kat hesitou. Seria fcil afastar-se e no se envolver mais, mas at que ponto isso iria afectar Mike? Kat entrou no  carro. Desta vez a vtima tinha sido muito espancada e chicotiada  com uma corrente. Lou Dinetto estava ali com ele. Kat olhou para o doente e disse:
- Tm de o levar imediatamente para o hospital.
- Kat - disse Dinetto -, tem de o tratar aqui.
- Porqu? - perguntou Kat. Mas sabia a resposta e isso deixava-a aterrorizada.
Era um daqueles belos dias de So Francisco em que corria magia no ar. O vento nocturno tinha afastado as nuvens de chuva, produzindo uma bonita e radiosa manh de domingo. Jason tinha combinado ir buscar Paige ao apartamento. quando l chegou, ficou surpreendido ao perceber o quanto ficara satisfeita de o ver.
- Bom dia - disse Jason. - Ests linda.
- Obrigada.
- Que gostarias de fazer hoje?
Paige respondeu:
- A cidade  tua. Tu indicas, eu sigo.
- De acordo.
- Se no te importas - pediu Paige -, gostaria de fazer uma breve paragem no hospital.
- Pensei que fosse o teu dia de folga.
- E , mas h um doente que me deixa preocupada.
-No h problema. - Jason levou-a ao hospital.
- No me demoro - prometeu Paige quando saiu do carro - Fico aqui  tua espera.
Paige dirigiu-se ao terceiro andar e entrou no quarto de  Jimmy Ford. Ainda estava em coma, ligado a uma srie de tubos que o alimentavam por via intravenosa. Estava tambm uma enfermeira. Levantou a cabea quando Paige entrou.
- Bom dia, doutora Taylor.
- Bom dia. - Paige aproximou-se da cabeceira da cama. - Houve alguma alterao?
- At agora, nenhuma.
Paige tomou a pulsao de Jimmy e escutou a batida cardaca.
- J passaram vrias semanas - disse a enfermeira, - Isto est mal, no est?
- Ele ir sair do coma - disse Paige com firmeza.
Voltou-se para o vulto inconsciente que estava na cama e disse em voz alta: - Ouve-me? Vai ficar bom! - No houve reaco. Fechou os olhos por momentos e rezou baixinho: "D-me imediatamente um sinal se houver alguma hiptese."
- Sim, doutora.
"Ele no vai morrer" pensou Paige. "No o deixarei morrer..."
Jason saiu do carro quando viu Paige aproximar-se.
- Est tudo bem?
No havia motivo para o incomodar com os seus problemas.
- Tudo bem - respondeu Paige.
- Hoje, vamos fazer de conta que somos verdadeiros turistas - disse Jason. - Existe uma lei estatal que diz que todos os tours tm de comear no Fisherman's Wharf. Paige sorriu:
- No devemos ir contra a lei.
Fisherman's Wharf era como um carnaval ao ar livre. Estava repleto de artistas de rua que trabalhavam a todo o gs. Havia mimos, palhaos, danarinos e msicos. Os vendedores ambulantes vendiam caldeires fumegantes de caranguejos Dungeness e ensopado de marisco com po fresco. - No h lugar como este em todo o mundo - disse jason, calorosamente. Paige emocionou-se com o entusiasmo dele. J tinha estado no Fisherman's Wharf e na maioria dos outros lugares tursticos de So Francisco, mas no queria estragar a alegria dele. 
-J andaste de elctrico? - perguntou Jason.
- No. - "No desde a semana passada."
- No tens vivido! Anda da.
Foram at  Power Street e entraram num elctrico. Assim que comeou a subir a rampa, Jason disse:
- Isto era conhecido por Hallidie's Folly. Ele construiu-o em mil oitocentos e setenta e trs.
- E aposto que disseram que no iria durar!
Jason riu:
- Exacto. Quando frequentei o liceu, trabalhava aos fins-de-semana como guia turstico.
- Tenho a certeza que eras bom.
- O melhor. Gostarias de ouvir alguns dos meus discursos?
- Gostaria muito.
Jason adoptou o tom nasalado de um guia turstico:
- Senhoras e senhores, para vossa informao, a rua mais antiga de So Francisco  a Grant Avenue, a mais comprida  a Mission Street (com onze quilmetros de comprimento), a mais larga  a Van Ness Avenue, com trinta e oito metros, e  ficaro surpreendidos quando souberem que a mais estreita, DeForest Street, tem apenas um metro e meio de largura. Exacto, senhoras e senhores, um metro e meio. A rua mais ngreme que podemos oferecer-lhes  a Filbert Street, com uma inclinao de trinta e oito por cento. - Olhou para Paige e sorriu. - Estou espantado por ainda me lembrar de tudo isto. Quando desceram do elctrico, Paige olhou para Jason e sorriu:
- Onde vamos a seguir?
- Vamos dar um passeio de carruagem.
Dez minutos mais tarde, estavam sentados numa carruagem puxada a cavalo, que os transportou desde Fisherman's Wharf a Ghirardelli Square e a North Beach. Durante o trajecto, Jason indicou os lugares de maior interesse e Paige ficou admirada consigo prpria por estar a divertir-se tanto. "No te deixes levar." Subiram a Coit Tower para verem a cidade de cima. Enquanto subiam, Jason perguntou:
- Tens fome?
O ar puro fez Paige sentir muita fome.
- Sim.
- Ainda bem. Vou levar-te a um dos melhores restaurantes chineses do mundo: o Tommy Toy's.
Paige j tinha ouvido o pessoal do hospital falar dele. A refeio acabou por ser um banquete. Comearam com pedaos de lagosta e molho picante e sopa de marisco agridoce. A seguir comeram bifes de frango com pur de ervilhas e nozes, vitela com molho Szechuan e arroz frito de quatro sabores. Como sobremesa, mousse de pssego. A comida estava maravilhosa.
- Vens aqui muitas vezes? - perguntou Paige.
- Sempre que posso.
Havia uma qualidade juvenil em Jason que Paige achou muito atraente.
- Dize-me - pediu Paige -, quiseste desde sempre ser arquitecto?
- No tive outra escolha - respondeu Jason, a sorrir.
- Os meus primeiros brinquedos foram conjuntos Erector.  to bom sonhar com alguma coisa e depois ver esse sonho transformar-se em cimento, tijolos e pedras e erguer-se para  o cu para fazer parte da cidade onde vives. "Vou construir-te um Taj Mahal. No importa o tempo que levar!"
- Sou um dos sortudos, Paige, pois passo a vida a fazer aquilo que gosto. Quem foi que disse que "Grande parte das pessoas vivem uma vida de desespero abafado"?
"Faz-me lembrar muitos dos meus doentes", pensou Paige.
-No existe mais nada que queira fazer, nem nenhum outro lugar onde queira viver. Esta  uma cidade fabulosa. - A voz estava cheia de entusiasmo. - Tem tudo o que uma pessoa pode querer. Nunca me canso dela. Paige estudou-o por um momento, divertindo-se com o entusiasmo dele.
- Nunca te casaste?
Jason encolheu os ombros:
- Uma vez. ramos ambos demasiado jovens. No resultou.
- Lamento.
- No tens de lamentar. Ela casou-se com um fabricante muito rico de carne enlatada. J foste casada?
"Tambm vou ser mdico, quando crescer. Havemos de nos casar e trabalharemos juntos."
- No.
Fizeram um passeio de barco pela baa, passando sob a Golden Gate e a Bay Bridge. Jason assumiu de novo a voz de guia turstico.
- E ali est, senhoras e senhores, a Priso de Alcatraz, antiga residncia de alguns dos criminosos mais abominveis  do mundo: Machine Gun Kelly, Al Capone e Robert Stroud, mais conhecido por Birdman! "Alcatraz" significa pelicano em espanhol. Originariamente chamava-se Isla de los Alcatraces, nome dos pssaros que constituam os nicos habitantes. Sabes porque tinham diariamente banho quente para os prisioneiros?
- No.
- Para que no se habituassem  gua fria da baa quando tentavam fugir.
- Isso  verdade? - perguntou Paige.
-J alguma vez te menti?
A tarde estava quase no fim, quando Jason disse:
-J foste ao Noe Valley?
- No - disse Paige.
- Gostaria de to mostrar. Antigamente eram quintas e riachos. Agora est cheio de casas vitorianas de cores vivas  e jardins. As casas so muito velhas, pois foi praticamente a nica zona que sobreviveu ao terramoto de mil novecentos e seis. 
- Parece bonito.
Jason hesitou:
- Vivo l. Queres l ir? - Ele reparou na reaco de Paige.
- Paige, estou apaixonado por ti.
- Ns mal nos conhecemos. Como podes...?
- Soube-o desde o momento em que disseste "No sabe que  suposto vestir uma bata branca durante as rondas?" Foi nesse momento que me apaixonei por ti.
- Jason...
-Acredito firmemente no amor  primeira vista.
O meu av viu a minha av a andar de bicicleta no parque e seguiu-a; casaram-se trs meses depois. Viveram juntos  durante cinquenta anos, at ele morrer. O meu pai viu a minha me a atravessar uma rua e soube que seria a sua mulher. Esto casados h quarenta e cinco anos. Como vs,  um mal de famlia. Quero casar-me contigo. Tinha chegado o momento da verdade. Paige olhou para Jason e pensou: " o primeiro homem por quem me sinto atrada desde Alfred.  adorvel, inteligente e genuno.  tudo o que uma mulher pode desejar num homem. O  que  que se passa comigo? Estou presa a um fantasma." No  entanto, bem no ntimo, ainda tinha a sensao de que um dia Alfred iria voltar para ela. Olhou para Jason e tomou uma deciso:
- Jason...
Nesse momento, o telebip de Paige comeou a tocar.
- Paige...
- Tenho de encontrar um telefone. - Dois minutos mais tarde, falava com o hospital.
Jason viu o rosto de Paige empalidecer.
Gritava para o telefone:
- No! Decididamente, no! Diga-lhes que vou j para a.
- E desligou.
- O que  que se passa? - perguntou Jason.
Voltou-se para ele, com os olhos cheios de lgrimas.
-  Jimmy Ford, meu doente. Vo desligar a mquina. Vo deix-lo morrer.
Quando Paige chegou ao quarto de Jimmy Ford, havia trs pessoas alm do paciente deitado, em coma: George Englund, Benjamin Wallace e um advogado, Silvester Damone. - O que  que se passa aqui? - perguntou Paige. Benjamin Wallace respondeu:
- Na reunio da Comisso de tica hospitalar desta manh, foi decidido que Jimmy Ford no tem salvao.
Decidimos retirar...
- No! - disse Paige. - No podem! Eu sou a mdica dele. Digo que ele tem hipteses de sair do coma! No o vamos deixar morrer. 
Silvester Damone interviu:
- No cabe a si tomar essa deciso, doutora.
Paige olhou para ele com ar de desafio:
- Quem  o senhor?
- Sou o advogado da famlia. - Puxou um documento e entregou-o a Paige. - Este  o testamento de Jimmy Ford. Ele sublinha que, se sofrer de um trauma perigoso, no quer ser mantido vivo atravs de meios mecnicos.
- Mas eu tenho controlado o estado dele - implorou Paige.
- Est estvel desde h semanas. Pode sair do coma a qualquer momento.
- Garante isso? - perguntou Damone.
- No, mas...
- Ento ter de fazer o que lhe foi ordenado, doutora.
Paige "olhou para Jimmy:
- No! Tero de esperar um pouco mais.
O advogado disse persuasivamente:
- Doutora, tenho a certeza que manter os doentes aqui o mais possvel beneficia o hospital, mas a famlia no tem meios para pagar durante mais tempo as despesas hospitalares. Ordeno-lhe agora que desligue a mquina. 
- S mais um ou dois dias - pediu Paige, desesperada -, e tenho a certeza de que...
- No - disse Damone, firmemente. - Hoje.
George Englund voltou-se para Paige:
- Lamento, mas parece que no temos outra alternativa.
- Obrigado, doutor - disse o advogado. - Tenho a certeza de que cumprir o seu dever. Vou comunicar  famlia que isso ser feito imediatamente, para que possam comear a tratar  dos preparativos para o funeral. - Voltou-se para Benjamin Wallace: - Obrigado pela sua cooperao. Bom dia. Viram-no abandonar o quarto.
- No podemos fazer isto a Jimmy! - protestou Paige.
O Dr. Wallace aclarou a voz:
- Paige...
- E se o tirarmos daqui e escondermos noutro quarto?
Deve haver alguma coisa que deixmos escapar. Algo que...
Benjamin Wallace disse:
- Isto no  um pedido.  uma ordem. - Virou-se para George  Englund: - Quer ser o senhor a...?
- No! - disse Paige. - Eu... fao-o.
- Muito bem.
- Se no se importam, gostaria de ficar a ss com ele.
George Englund apertou-lhe o brao:
- Lamento, Paige.
- Eu sei.
Paige viu os dois homens abandonarem o quarto.
Ficou sozinha com o rapaz inconsciente. Olhou para a mquina que o mantinha vivo e para os tubos que alimentavam o seucorpo. Era to simples desligar a mquina e acabar com uma vida... Mas ele tinha tido sonhos to lindos, esperanas to boas. "Um dia serei mdico. Quero ser como a senhora. Sabia que me vou casar?... O nome dela  Betsy... Vamos ter meia dzia de filhos. A primeira menina chamar-se- Paige."  Tinha tanto por que viver. Paige permaneceu ali a olhar para ele, as lgrimas a correrem pela cara.
- Maldito sejas! - disse. - No s um lutador! - Agora estava exaltada. - O que aconteceu aos teus sonhos? Pensei  que quisesses ser mdico! Responde-me! Ests a ouvir? Abre os olhos! - Olhou para a figura plida. No havia reaco. - Desculpa - disse Paige. - Peo mil desculpas. - Ajoelhou-se para lhe dar um beijo na face e, quando lentamente se endireitou, estava a olhar para os seus olhos abertos.
- Jimmy! Jimmy!
Ele pestanejou e tornou a fechar os olhos. Paige apertou-lhe a mo. Inclinou-se para a frente e disse entre os soluos:
-Jimmy, sabes daquela sobre o doente que era alimentado por via intravenosa? Pediu ao mdico uma garrafa extra. Tinha um convidado para o almoo!
Honey estava mais feliz do que nunca. Poucos eram os mdicos que tinham uma relao to calorosa com os doentes como ela. Preocupava-se com eles, genuinamente. Trabalhava nas alas de geriatria, pediatria e em muitas  outras e o Dr. Wallace fez com que lhe dessem trabalhos que a mantivessem afastada de caminhos perigosos. Queria ter a certeza de que ela permanecia no hospital e estava  sua disposio. Honey invejava as enfermeiras. Eram capazes de cuidar dos doentes sem se preocuparem com a maior parte das decises mdicas. "Nunca quis ser mdica", pensou Honey. "Sempre quis ser enfermeira. No existem enfermeiras na famlia Taft."  tarde, quando Honey saa do hospital, ia fazer compras  Bay Company e Streetlight Records e adquiria presentes para as crianas da pediatria.
- Adoro crianas - disse a Kat.
- Tencionas ter uma famlia grande?
- Um dia - respondeu Honey, melanclica. - Primeiro terei de encontrar o pai delas.
Um dos doentes favoritos de Honey da ala de geriatria era Daniel McGuire, um homem alegre com cerca de noventa anos e que sofria de uma doena heptica. Quando jovem, fora apostador e gostava de fazer apostas com Honey: - Aposto cinquenta cntimos em como a enfermeira vai atrasar-se com o pequeno-almoo; aposto um dlar em como vai chover esta tarde; aposto que os Giants vo ganhar. Honey aceitava sempre as apostas dele.
- Aposto dez contra um em como vou vencer esta coisa - disse.
- Desta vez no vou apostar contra - disse-lhe Honey.
- Estou do seu lado.
Pegou na mo dela:
- Eu sei que est. - Sorriu. - Se fosse alguns meses mais novo...
Honey riu:
- No faz mal. Gosto de homens mais velhos.
Uma manh, chegou ao hospital uma carta para ele.
Honey levou-a ao quarto.
-  capaz de a ler, por favor? - J no conseguia ler.
- Claro - respondeu Honey. Abriu o sobrescrito, passou os olhos pela carta e deu um grito: - Ganhou a lotaria!  Cinqenta mil dlares! Parabns!
- Esta agora! - gritou. - Sempre soube que um dia iria ganhar a lotaria! D-me um abrao.
Honey inclinou-se e deu-lhe um abrao.
- Sabe uma coisa, Honey? Sou o homem mais sortudo do mundo. 
Nessa tarde, quando Honey foi visit-lo de novo, ele tinha falecido. Perdera a aposta mais importante da sua vida. Honey encontrava-se na sala de reunies dos mdicos quando o Dr. Stevens entrou:
- Est a uma Virgem?
Um dos mdicos deu uma gargalhada:
- Se quer dizer uma virgem, duvido.
- Uma virgem - repetiu Stevens. - Preciso de uma virgem.
- Eu sou virgem - disse Honey. - Qual  o problema?
Aproximou-se dela:
- O problema  que tenho uma maldita manaca nas minhas mos. No deixa ningum aproximar-se dela a no ser uma virgem. Honey levantou-se:
- Vou v-la.
- Obrigado. O nome dela  Frances Gordon. Frances Gordon tinha sido submetida a uma correco da anca. Assim que Honey entrou no quarto, a mulher levantou a cabea e disse:
- Voc  Virgem. Nasceu no vrtice, certo?
Honey sorriu:
- Certo.
- Os aqurios e os lees no sabem o que fazem.
Tratam dos doentes como se estivessem a tratar de carne.
- Aqui os mdicos so muito bons - protestou Honey.
- Eles...
- Ah! A maioria exerce medicina pelo dinheiro. - Examinou melhor Honey: - Voc  diferente.
Honey olhou para o grfico aos ps da cama e mostrou ficar surpreendida.
- O que se passa? Para onde est a olhar?
Honey pestanejou:
- Diz aqui que a senhora  uma... uma mdium.
Frances Gordon anuiu:
- Exacto. No acredita em mdiuns?
Honey abanou a cabea:
- Lamento, mas no.
-  pena. Sente-se um minuto.
Honey puxou uma cadeira.
- Deixe-me pegar na sua mo.
Honey abanou a cabea:
- Eu realmente no...
- Vamos l, d-me a sua mo.
Com relutncia, Honey estendeu-lha. Frances Gordon segurou-a por momentos e fechou os olhos.
Quando os abriu, disse:
- Tem tido uma vida difcil, no tem?
"Todos tm tido uma vida difcil", pensou Honey. e A seguir vai dizer-me que vou atravessar a gua."
- Tem-se servido de muitos homens, no tem?
Honey sentiu-se rgida.
- Houve uma espcie de mudana em si... muito recentemente..., no houve?
Honey s queria sair do quarto. A mulher estava a p-la nervosa. Comeou a afastar-se.
- Voc vai-se apaixonar.
Honey disse:
- Lamento, mas tenho de...
- Ele  artista.
- No conheo nenhum artista.
- Ir conhecer. - Frances Gordon soltou a mo. - Venha ver-me mais tarde - ordenou.
- Claro.
Honey fugiu. Honey foi fazer uma visita  Sra. Owens, uma nova doente, uma mulher magra que aparentava ter quarenta e muitos anos. O grfico dizia que tinha vinte e nove. Tinha o nariz partido e os olhos roxos e o rosto estava inchado e cheio de ndoas negras. Honey aproximou-se da cama:
- Sou a doutora Taft.
A mulher olhou para ela, com olhos mortios e sem expresso. Manteve-se calada.
- O que  que lhe aconteceu?
- Ca das escadas.
Quando abriu a boca, viu-se um espao onde faltavam dois dentes. Honey olhou para o grfico:
- Diz aqui que tem duas costelas partidas e a bacia fracturada.
- Sim. Ca mal.
- Como  que ficou com os olhos roxos?
- Quando ca.
-  casada?
- Sim.
- Tem filhos?
- Dois.
- O que  que o seu marido faz?
- Vamos deixar o meu marido fora disto, est bem?
- Lamento, mas no est bem - disse Honey. - Foi ele quem Lhe bateu?
- Ningum me bateu.
- Vou ter de preencher o relatrio da polcia.
Subitamente, a Sra. Owens entrou em pnico:
- No! Por favor no faa!
- Porque no?
- Ele mata-me! A senhora no o conhece!
- Ele j Lhe tinha batido antes?
- Sim, mas... no  inteno dele. Fica bbedo e perde a cabea.
- Porque  que o no deixou? A Sra. Owens encolheu os ombros e o movimento causou-lhe
dor.
- Eu e os meus filhos no temos para onde ir.
Honey ouvia, furiosa:
- Sabe, no tem de suportar isso. Existem abrigos e agncias que cuidaro de si e protegero as crianas.
A mulher abanou a cabea em desespero:
- No tenho dinheiro. Perdi o meu emprego de secretria quando ele comeou... - No conseguiu continuar.
Honey apertou-lhe a mo:
- A senhora vai ficar boa. Vou arranjar algum para cuidar de si.
Cinco minutos mais tarde, Honey entrava no gabinete de Benjamin Wallace. Este ficou feliz quando a viu. Imaginou o que teria ela trazido desta vez. Das outras vezes tinha trazido mel quente, gua quente, chocolate derretido e - o  seu favorito - xarope de bordo. A ingenuidade dela era ilimitada.
- Tranca a porta, querida.
- No posso ficar, Ben. Tenho de regressar.
Contou-lhe tudo sobre a doente.
- Ters de preencher o relatrio da polcia - disse Wallace.
-  de lei.
- A lei no a protegeu antes. Olha, tudo o que ela quer  afastar-se do marido. Trabalhou como secretria.
No disseste que precisavas de outra secretria para o  arquivo?
- Bem, sim, mas... espera um minuto!
- Obrigada - disse Honey. - Vamos tratar dela e encontrar-lhe um lugar para viver, e ir ter um novo emprego!
Wallace suspirou:
- Vou ver o que posso fazer.
- Sabia que podia contar contigo - disse Honey.
Na manh seguinte, Honey foi ver a Sra. Owens.
- Como se sente hoje? - perguntou Honey.
- Melhor, obrigada. Quando posso ir para casa?
O meu marido no gosta que eu...
- O seu marido no a vai arreliar mais - disse Honey, com firmeza. - Ficar aqui at lhe arranjarmos um lugar para si e para os seus filhos e, quando estiver suficientemente bem,  ir trabalhar aqui no hospital.
A paciente olhou para ela, incrdula:
- Isso ... mesmo verdade?
- Totalmente. Ir ter o seu prprio apartamento para morar com seus filhos. No tem de suportar o horror em que tem vivido e ter um emprego decente e respeitvel.
A Sra. Owens apertou a mo a Honey:
- Nem sei como agradecer - murmurou. - Nem calcula o que tenho passado.
- Fao uma ideia - disse Honey. - A senhora vai ficar boa.
A mulher anuiu com a cabea, pois estava demasiado chocada para falar. No dia seguinte, quando Honey foi ver de novo a Sra. Owens, o quarto estava vazio.
- Onde est ela? - perguntou Honey.
- Oh - disse a enfermeira -, saiu esta manh com o marido.
Ouviu o seu nome no sistema de altifalantes.
- Doutora Taft... Quarto duzentos e quinze... Doutora Taft... Quarto duzentos e quinze.
No corredor, Honey encontrou-se com Kat.
- Como corre o teu dia? - perguntou Kat.
- No acreditarias! - respondeu Honey.
O Dr. Ritter estava  sua espera no quarto 215. Na cama encontrava-se um indiano de vinte e muitos anos. 
Ritter perguntou-lhe:
- Este doente  seu?
- Sim.
- Diz aqui que ele no fala ingls. Certo?
- Sim.
Mostrou-lhe o grfico:
- E esta caligrafia  sua? Vmitos, cibras, sede, desidratao...
- Exacto - disse Honey.
- ausncia de pulsao perifrica...
- Sim.
- E qual foi o seu diagnstico?
- Constipao do estmago.
- Fez uma anlise s fezes?
- No. Para qu?
- Porque o seu doente tem clera,  s por isso! - disse aos gritos. - Vamos ter de fechar a merda do hospital!
- Clera? Ests a dizer-me que este hospital tem um doente com clera? - perguntou Benjamin Wallace, aos gritos.
- Temo que sim.
- Ests absolutamente certo disso?
- Sem dvida alguma - asseverou o Dr. Ritter. - As fezes dele esto infestadas de vibries. Tem o pH arterial muito baixo, como hipotenso, taquicardia e cianose. Por lei, todos os casos de clera e outras doenas infecciosas tm de ser imediatamente comunicadas ao Servio Nacional de Sade e ao Centro de Controlo de Doenas, em Atlanta.
- Vamos ter de o comunicar, Ben.
- Eles vo fechar o hospital. - Wallace levantou-se e comeou a andar de um lado para o outro. - No podemos permitir que isso acontea. Que Deus me castigue se puser todos os doentes deste hospital sob quarentena. - Por  momentos parou de andar. - O doente sabe o que tem?
- No. No fala ingls.  da ndia.
- Quem tem estado em contacto com ele?
- Duas enfermeiras e a doutora Taft.
- E a doutora Taft diagnosticou uma constipao de estmago?
- Exacto. Suponho que a vai mandar embora.
- Bem, no - disse Wallace. - Qualquer um pode errar. No nos vamos precipitar. O grfico do doente diz que tem constipao de estmago?
- Sim.
Wallace tomou uma deciso:
-Vamos deixar tudo como est. Ouve bem o que quero que faas. Comea a hidratar por via intravenosa... utiliza a soluo lctea de Ringer. D-lhe tambm  tetraciclina. Se conseguirmos normalizar imediatamente o volume sanguneo e os lquidos, ficar perto dos nveis normais dentro de poucas horas. 
- No vamos comunicar isto? - perguntou o outro.
Wallace olhou bem para ele:
- Comunicar um caso de constipao de estmago?
- E relativamente s enfermeiras e  doutora Taft?
- D-lhes tambm tetraciclina. Como se chama o doente?
- Pandit Jawah.
- Pe-no de quarentena durante quarenta e oito horas. Nessa altura estar curado ou morto.
Honey estava em pnico. Foi procurar Paige.
- Preciso da tua ajuda.
- Qual  o problema?
Honey contou-lhe:
- Gostaria que falasses com ele. No fala ingls e tu falas indiano.
- Hindi.
- Seja o que for. Falas com ele?
- Claro que sim.
Dez minutos mais tarde, Paige conversava com Pandit Jawah.
-Aap ki tabyat kaisi hai?
- Karab bai.
- Aap jald acha ko kum kardenge.
- Bhagzean aap ki soney ga.
- Aap ka ilaj jalb shuroo kardenge - Shukria.
- Dost kiss liay hain?
Paige levou Honey para o corredor.
- O que  que ele disse?
- Disse que se sente muito mal. Eu disse-lhe que iria ficar bom. Ele pediu para dizer isso a Deus. Eu respondi-lhe que vamos comear imediatamente o tratamento. Ele agradeceu.
- E eu tambm te agradeo.
- Para que servem os amigos?
A clera  uma doena que pode causar morte no espao de vinte e quatro horas devido  desidratao, ou ser curada no espao de algumas horas. Cinco horas depois de o tratamento ter comeado, o estado de Pandit Jawah estava quase normal. Paige foi ver Jimmy Ford. A cara iluminou-se quando a viu:
- Ol. - A voz era fraca, mas tinha melhorado miraculosamente.
- Como se sente? - perguntou Paige.
- ptimo. Sabe daquela sobre o mdico que disse ao doente: "O melhor que tem a fazer  deixar de fumar, deixar de beber e reduzir a vida sexual"? O doente respondeu: "Sei que no mereo o melhor. Qual  o segundo melhor?" E Paige soube que Jimmy Ford iria ficar bom. Ken Mallory estava a sair de servio e ia encontrar-se com Kat quando ouviu o seu nome ser chamado. Hesitou entre desaparecer dali ou no. Ouviu de novo o seu nome. Relutante, atendeu o telefone:
- Doutor Mallory.
- Doutor, pode vir  sala de urgncias dois, por favor?
Temos aqui um doente que...
- Peo desculpa - disse Mallory -, mas acabei de sair. Pea a mais algum.
- No est c mais ningum que possa cuidar deste caso.  uma lcera rebentada e o estado do doente  crtico. Julgo  que o vamos perder se... "Merda!"
- Est bem. Vou j para a. - "Vou ter de telefonar a Kat e dizer-lhe que chegarei atrasado."
O doente da sala de urgncias era um homem de sessenta anos. Estava semiconsciente, branco como a cal, a transpirar, a respirar mal e obviamente cheio de dores. Mallory examinou-o e disse:
- Levem-no para uma sala de operaes, stat!
Quinze minutos mais tarde, Mallory tinha o doente sobre a mesa de operaes. O anestesista controlava a presso arterial.
- Est a cair muito depressa.
- Dem-lhe mais sangue.
Ken Mallory comeou a operar, trabalhando contra o tempo. Cortou rapidamente a pele e, depois desta, a camada de gordura, a fscia, o msculo e finalmente o macio e translcido peritoneu, o revestimento do abdome. O sangue corria para o estmago.
- Bovie! - pediu Mallory. - Peam quatro unidades de sangue ao banco de sangue. - Comeou a cauterizar os vasos sanguneos.
A operao demorou quatro horas e, quando chegou ao fim, Mallory estava exausto. Olhou para o doente e disse:
- Ele vai viver.
Uma das enfermeiras sorriu calorosamente para Mallory,  - Ainda bem que estava aqui, doutor Mallory. Olhou para ela. Era jovem e bonita e obviamente aberta a um convite. "Apanho-te mais tarde, querida. E, virahdo-se para um residente novo, disse:
- Cosa-o e levem-no para um quarto de recuperao. De manh irei v-lo.
Mallory ficou indeciso entre telefonar a Kat ou no, mas j era meia-noite. Enviou-Lhe duas dzias de rosas. Quando Mallory entrou de servio s seis da manh, foi ao quarto de recuperao para ver o seu novo doente. 
- Est acordado - disse a enfermeira.
Mallory aproximou-se da cama:
- Sou o doutor Mallory. Como se sente?
- Quando penso na alternativa, sinto-me bem - respondeu o doente, ainda fraco. - Dizem eles que o senhor me salvou a vida. Foi a pior coisa que me aconteceu. Estava no carro a caminho de um jantar e senti subitamente esta dor. Julgo que desmaiei. Felizmente, estvamos apenas a poucos metros do hospital e trouxeram-me para as urgncias.
- Teve muita sorte. Perdeu muito sangue.
- Disseram que mais dez minutos e teria morrido. Quero agradecer-lhe, doutor.
Mallory encolheu os ombros: 
- Apenas fiz o meu trabalho.
O doente estudou-o cuidadosamente:
- Sou Alex Harrison.
O nome nada significava para Mallory:
- Prazer em conhec-lo, senhor Harrison. - Estava a verificar-lhe a pulsao. - Ainda sente dores?
-Um pouco, mas julgo que eles me tm mantido bastante entorpecido.
- A anestesia ir passar - garantiu-lhe Mallory. - Tal como as dores. O senhor vai ficar bem.
- Quanto tempo terei de ficar no hospital?
- V-lo-emos sair daqui dentro de alguns dias.
Entrou um funcionrio da secretaria com alguns formulrios para preencher:
- Senhor Harrison, para o nosso registo, o hospital precisa de saber se o senhor tem seguro mdico.
- Isto , querem saber se posso pagar a minha conta?
- Bem, no poria desse modo, senhor.
- Pode verificar no So Francisco Fidelity Bank - disse, secamente. - Sou o dono.
 tarde, quando Mallory foi ver Alex Harrison, estava com ele uma mulher atraente. Tinha cerca de trinta anos, era  loira e magra, de aspecto elegante. Trazia um vestido Adolf, que Mallory calculou ter custado mais do que o seu salrio  mensal.
- Ah! Aqui est o nosso heri - disse Alex Harrison. -  o doutor Mallory, no ?
- Sim. Ken Mallory.
- Doutor Mallory. Apresento-Lhe a minha filha, Lauren.
Estendeu uma mo magra e bem tratada:
- O pai disse-me que lhe salvou a vida.
-  para isso que servem os mdicos - sorriu ele.
Lauren olhou para ele com ar de aprovao:
- Nem todos os mdicos.
Aos olhos de Mallory, era bvio que estes dois no pertenciam a um hospital estatal. Disse a Alex Harrison:
- O senhor est a recuperar bem, mas talvez se sentisse mais confortvel se chamasse o seu prprio mdico.
Alex Harrison abanou a cabea:
- No ser necessrio. Ele no me salvou a vida. Foi o senhor. Gosta de c estar?
Era uma pergunta estranha:
-  interessante, sim. Porqu?
Harrison sentou-se na cama:
- Bem, estava s a pensar. Um homem bem-parecido e to capaz como o senhor podia ter um futuro verdadeiramente brilhante. Penso que o seu futuro no ser grande coisa, num lugar como este.
- Bem, eu...
- Talvez tenha sido o destino que me trouxe aqui.
Lauren interferiu:
- Penso que o que o meu pai quer dizer,  que gostaria de lhe manifestar o seu agradecimento.
- Lauren est certa. Ns os dois teremos uma conversa sria  quando sair daqui. Quero que venha jantar l a casa. Mallory olhou para Lauren e disse lentamente
- Com todo o prazer.
E isso mudou-lhe a vida. Ken Mallory estava a ter uma dificuldade surpreendente para se reunir a Kat.
- Que tal domingo  noite, Kat?
- Maravilhoso.
- Ainda bem. Vou buscar-te s...
- Espera! Acabei de me lembrar. Nessa noite chega uma prima de Nova Iorque.
- Bem, e na tera-feira?
- Na tera estou de servio.
- Que tal quarta?
- Prometi a Paige e a Honey que sairamos juntas na quarta-feira.
Mallory estava a ficar desesperado. O tempo estava a passar demasiado depressa.
- Quinta?
- Quinta, est bem.
- ptimo. Posso ir buscar-te?
- No. Porque no nos encontramos no Chez Panisse?
-Muito bem. s oito?
- Perfeito.
Mallory esperou no restaurante at s nove e depois telefonou para Kat. Ningum respondeu. Esperou mais meia  hora. "Se calhar compreendeu mal", pensou. "Ela no iria faltar deliberadamente." Na manh seguinte, viu Kat no hospital. Esta correu para ele.
- Oh, Ken. Desculpa! Aconteceu a coisa mais estpida. Decidi dormir um pouco antes de sairmos. Adormeci e, quando acordei, j era noite cerrada. Pobre querido.
Esperaste muito tempo por mim?
- No, no. No faz mal. - "Que mulher estpida!"
Aproximou-se dela. - Quero acabar o que comemos, querida.
Fico doido quando penso em ti.
- Eu tambm - disse Kat. - Mal posso esperar.
- Talvez no prximo fim-de-semana pudssemos...
- Oh, que pena. Estou ocupada no fim-de-semana.
E assim continuou. O tempo corria. Kat estava a contar o sucedido a Paige, quando o telebip comeou a tocar. 
- Desculpa. - Kat levantou o telefone. - Doutora Hunter.
- Ouviu um momento. - Obrigada. Vou j para a. - Poisou o telefone. - Tenho de ir.  uma urgncia.
Paige suspirou:
- Que mais h de novo?
Kat atravessou o corredor e apanhou o elevador at  sala de urgncias. No interior havia uma dzia de camas de lona,  todas ocupadas. Kat achava que era a sala do sofrimento, dia e noite, sempre cheia de vtimas de acidentes de viao, ferimentos de tiros ou faca e membros fracturados. Um caleidoscpio de vidas partidas. Para Kat, no passava de um pequeno canto do inferno. Um empregado aproximou-se dela a correr:
- Doutora Hunter...
- O que  que aconteceu? - perguntou Kat. Dirigiram-se para uma cama no extremo oposto do quarto.
- Est inconsciente. Parece que algum lhe deu uma tareia. Tem o rosto e a cabea amassados, o nariz partido, uma  omoplata deslocada, pelo menos duas fracturas diferentes no brao direito e...
- Porque  que me chamaram?
- Os paramdicos julgam que tem um ferimento na cabea. Pode haver leso cerebral.
Chegaram  cama onde se encontrava a vtima. O rosto estava coberto de sangue, inchado e cheio de ndoas negras. Calava sapatos de pele de crocodilo e... O corao de "Kat parou momentaneamente. Inclinou-se para ver melhor. Era Lou  Dinetto. Kat passou as mos pelos cabelos dele e examinou-lhe os olhos. Definidamente, havia uma concusso. Correu para um telefone e discou:
- Sou a doutora Hunter. Preciso de uma radiografia  cabea. O nome do doente  Lou Dinetto. Lou Dinetto. Mandem uma maca, stat. Kat pousou o telefone e tornou a concentrar-se em Dinetto.
Disse ao empregado: 
- Fique com ele. Quando a maca chegar, leve-o para o terceiro andar. Estarei  espera.
Trinta minutos mais tarde, no terceiro andar, Kat examinava a radiografia que tinha pedido.
- Tem hemorragia cerebral, febres altas e est em estado de choque. Quero-o estabilizado durante vinte e quatro horas. Nessa altura decidirei quando iremos oper-lo. Kat pensou se o que tinha acontecido a Dinetto poderia afectar Mike. E como. Paige foi ver Jimmy. Sentia-se muito melhor. - Sabe daquela sobre o vendedor da zona de pronto-a-vestir? Aproximou-se de uma velhinha e abriu a capa de chuva. Ela estudou-o um momento e disse: "Chama revestimento a isso? Kat estava a jantar com Mallory num pequeno e ntimo restaurante, prximo da baa. Sentada  frente de Mallory, a estud-lo, Kat sentiu-se culpada. "Nunca devia ter comeado isto", pensou. "Sei o que ele , no entanto, divirto-me bastante. Maldito homem! Mas no posso interromper agora o nosso plano."  Tinham terminado o caf. Kat inclinou-se para a frente:
- Podemos ir para a tua casa, Ken.
- Podes crer! - "Finalmente", pensou Mallory.
Kat comeou a mexer-se desconfortavelmente na cadeira e franziu as sobrancelhas:
- Uh, oh!
- Sentes-te bem? - perguntou Mallory.
- No sei. Desculpas-me um momento?
- Com certeza. - Viu-a levantar e dirigir-se  casa de banho das senhoras.
Quando regressou, disse:
-  o momento errado, querido. Peo desculpa.  melhor levares-me a casa.
Olhou para ela, tentando esconder a frustrao. A maldita sina estava a conspirar contra ele.
- Est bem - respondeu Mallory, bruscamente. Estava prestes a explodir. Vai perder cinco preciosos dias.
Cincp minutos depois de Kat ter regressado ao apartamento, a campainha da porta comeou a tocar. Kat sorriu. Mallory tinha encontrado uma desculpa para regressar e ela odiava-se a si prpria por ficar to satisfeita. Dirigiu-se  porta e abriu-a. 
- Ken...
Eram Rhino e o Sombra. Kat sentiu uma sbita onda de medo. Os dois empurraram-na para dentro do apartamento; Rhino perguntou-lhe:
-  voc quem vai operar o senhor Dinetto?
- Sim - esclareceu Kat, e engoliu em seco.
- No queremos que lhe acontea nada.
- Nem eu - disse Kat. - Agora, se me derem licena, estou cansada e...
- Ele corre o risco de morrer? - perguntou o Sombra.
Kat hesitou:
- Na cirurgia cerebral existe sempre o risco de...
-  melhor que no deixe que isso acontea.
- Acreditem, eu...
- No deixe que isso acontea. - Olhou para Rhino.
- Vamos.
Kat viu-os prepararem-se para sair.
 porta, o Sombra voltou-se e disse:
- Diga "ol" a Mike por ns.
Kat ficou subitamente imvel:
- Isto... isto  alguma espcie de ameaa?
- Ns no ameaamos ningum, doutora. Ns estamos a dizer-lhe. Se o senhor Dinetto morrer, voc e a merda da sua famlia desaparecero da face da Terra. 
No vestirio, meia dzia de mdicos esperavam que Ken Mallory aparecesse.Quando este entrou, Grundy saudou:
- Av ao heri conquistador! Queremos ouvir todos os pormenores lridos. - Sorriu. - Mas, tal como foi combinado, irmo, queremos ouvir da boca dela.
- Tive um pouco de m sorte - lamentou-se Mallory a sorrir.
- Mas todos vocs podem comear a pr dinheiro de lado.
Kat e Paige estavam a preparar-se para operar.
-J alguma vez operaste um mdico? - perguntou Kat.
- No.
- Tens sorte. So os piores doentes do mundo. Sabem de mais. 
- Quem vais operar?
- O doutor Mervyn "No Me Magoe," Franklin.
- Boa sorte.
- Bem preciso dela.
O Dr. Mervyn Franklin era sexagenrio, magro, calvo e irascvel.
Quando Kat entrou no quarto, ele disse bruscamente:
- J era tempo de ter chegado. J tem o resultado dos malditos electrlitos?
- Sim - disse Kat. - So normais.
- Quem  que o diz? No confio na merda do laboratrio.
Cinquenta por cento das vezes no sabem o que fazem. E certifique-se de que no h misturas na transfuso de sangue. 
- Certificar-me-ei - respondeu Kat, pacientemente.
- Quem vai fazer a operao?
- O doutor Jurgenson e eu. Doutor Franklin, prometo-lhe que no tem de se preocupar com nada.
- Qual  o crebro que vai ser operado, o meu ou o seu?
Todas as operaes so arriscadas. Sabe porqu? Porque metade dos malditos cirurgies escolheram a profisso errada. Deviam antes ter sido carniceiros.
- O doutor Jurgenson  uma pessoa muito capaz.
- Sei que , ou no o deixaria tocar-me. Quem  o anestesista?
-Julgo que  o doutor Miller.
-Esse charlato? No o quero. Arranje-me outro.
- Doutor Franklin...
- Arranje-me outro. Veja se Haliburton est disponvel.
- Est bem.
- E traga-me o nome das enfermeiras da sala de operaes.
Quero saber quem so.
Kat olhou-o nos olhos:
- Prefere ser o senhor a fazer a operao?
- O qu? - Olhou um momento para ela e depois sorriu envergonhado. - Acho que no.
Kat disse suavemente:
- Ento, porque no nos deixa tratar de tudo?
- Certo. Sabe uma coisa? Gosto de si.
- Tambm gosto de si. A enfermeira j lhe deu um sedativo?
- Sim.
- Bem. Estaremos prontos dentro de alguns minutos.
Posso fazer alguma coisa por si?
- Sim. Ensine  estpida da minha enfermeira onde esto localizadas as minhas veias.
Na sala de operaes quatro, a cirurgia cerebral do dr. Mervyn Franklin corria perfeitamente. Tinha-se queixado durante todo o trajecto desde o quarto at  sala. 
- Agora, se no se importa - disse -, d-me o mnimo de anestesia. O crebro no possui sensibilidade e por isso, assim que l chegarem, no iro precisar de uma grande quantidade.
- Eu sei disso - disse Kat, impacientemente.
- E procure manter a temperatura abaixo dos quarenta graus.
 o mximo.
- Certo.
-Ponha msica mexida durante a operao. Isso manter-vos- bem despertos.
- Okay!
- E certifique-se de que tem aqui a melhor enfermeira-assistente.
- Tudo bem.
E continuou por a fora.
Quando foi feita a inciso no crebro do Dr. Franklin, Kat disse:
- Estou a ver o cogulo. No parece muito mau. - E continuou a trabalhar.
Trs horas mais tarde, quando comeavam a coser a inciso, George Englund, chefe de cirurgia, entrou na sala de  operaes e aproximou-se de Kat.
- Kat, falta muito para terminar aqui?
- Estamos s a tapar o corte.
- Deixe o doutor Jurgenson terminar. Precisamos urgentemente de si. Temos uma emergncia.
Kat anuiu:
- Vou j. - E voltou-se para Jurgenson: - Importa-se de terminar?
- No h problema.
Kat saiu com George Englund.
- O que se passa?
- Tem marcada outra operao para mais tarde, mas o seu doente comeou a ter hemorragias. Esto agora a transport-lo para a sala trs. Tudo indica que no se salva. Vai ter de o operar imediatamente.
- Quem... 
- Um tal senhor Dinetto.
Kat olhou para ele, aterrorizada:
- Dinetto? - "Se o senhor Dinetto morrer, voc e toda a merda da sua famlia desaparecero da face da Terra.
Kat atravessou a correr o corredor que conduzia  sala de operaes trs. Na sua direco vinham Rhino e o Sombra.
- Que se passa? - indagou Rhino.
A boca de Kat estava to seca que tinha dificuldade em falar.
- O senhor Dinetto comeou a ter hemorragias. Temos de o operar imediatamente.
O Sombra pegou-lhe no brao.
- Ento faa-o! Mas lembre-se do que lhe dissemos. Mantenha-o vivo.
Kat afastou-se e correu para a sala de operaes. O Dr. Vance fazia a operao com Kat. Era um bom cirurgio. Kat iniciou o ritual de desinfeco: primeiro, meio minuto em cada brao e depois meio minuto em cada mo. Repetiu e depois desinfectou as unhas. O Dr. Vance entrou e comeou a fazer o mesmo.
- Como se sente hoje?
- Bem - mentiu Kat.
Lou Dinetto foi transportado numa maca, semiconsciente, para a sala de operaes e cuidadosamente transferido para a mesa operatria. A sua cabea rapada foi desinfectada e pincelada com soluo de mertiolato, que se tornava laranja brilhante sob as lmpadas operatrias. Estava branco como a morte. A equipa j tinha tomado as posies: o Dr. Vance, outro residente, um anestesista, duas enfermeiras-assistentes e uma enfermeira auxiliar. Kat procurou certificar-se de que tinha   mo tudo o que pudesse precisar. Olhou para os monitores de parede - saturao de oxignio, dixido de carbono, temperatura, estimuladores musculares, estetoscpio precordial, ECG, presso arterial automtica e alarmes desligados. Tudo estava em ordem. O anestesista apertou o punho de medio da presso arterial no brao de Dinetto e depois colocou uma mscara de borracha sobre o rosto do doente. - Muito bem. Agora, respire fundo. Respire profundamente trs vezes. Dinetto adormeceu antes de inspirar a terceira vez. A operao comeou.  Kat relatava em voz alta:
- Existe uma rea lesada no meio do crebro, causada por um cogulo que rebentou a vlvula artica. Est a bloquear um pequeno vaso sanguneo do lado direito do crebro, estendendo-se ligeiramente para a metade esquerda. - Examinou mais para baixo:
- Est localizado na zona inferior do aqueduto de Slvio. Bisturi.
Com o auxlio de uma serra elctrica, foi feita uma pequena inciso do tamanho de uma moeda de escudo para expor a dura-mter. Em seguida, Kat abriu a dura para expor o  segmento do crtex cerebral que se encontra por baixo.
- Frceps.
A enfermeira-assistente entregou-lhe o frceps elctrico. A inciso foi mantida aberta com o auxlio de um e Pequeno retractor, que, por si s, se conservava imvel. 
- H uma grande quantidade de hemorragia - disse Vance. 
Kat pegou no bovie e comeou a cauterizar as veias sangrentas.
- Vamos controlar a hemorragia.
O Dr. Vance comeou a limpar com a ajuda de pedaos de algodo, colocados sobre a dura. As veias que se esvaam na superfcie da dura foram identificadas e coaguladas.
- Tem bom aspecto - disse Vance. - Ele vai salvar-se.
Kat deu um suspiro de alvio. E, nesse instante, Lou Dinetto ficou rgido e o corpo entrou em espasmo. O anestesista declarou:
- A presso arterial est a cair!
Kat ordenou:
- Faam uma transfuso de sangue!
Todos olhavam para o monitor. A curva estava rapidamente a transformar-se em linha recta. Havia duas rpidas batidas cardacas seguidas de fibrilao ventricular.
- Dar choques! - ordenou Kat. Rapidamente, colocou as almofadas elctricas no corpo dele e ligou a mquina. O peito de Dinetto subiu e depois desceu.
- Dar uma injeco de epinefrina! Rpido!
- No h batida cardaca! - disse o anestesista pouco depois.
Kat fez uma nova tentativa, aumentando a intensidade. Mais uma vez, houve um rpido movimento convulsivo. 
- No h batida cardaca! - gritou o anestesista. - Assstole. No h qualquer ritmo.
Desesperadamente, Kat fez uma ltima tentativa. Desta vez o corpo subiu ainda mais e tornou a cair. Nada. 
- Morreu - disse o Dr. Vance.
O cdigo vermelho  um alerta, que faz com que toda a assistncia mdica tente tudo para salvar a vida de um  doente. Quando o corao de Lou Dinetto parou a meio da operao, a equipa de cdigo vermelho da sala de operaes correu a ajudar. No sistema de altifalantes, Kat ouviu: "Cdigo vermelho", sala de operaes trs... Cdigo vermelho..." Vermelho  sinnimo de morte. Kat estava em pnico. Aplicou novamente o electrochoque. No era somente a vida dele que tentava salvar, era a de Mike e a sua prpria. O corpo de Dinetto elevou-se no ar e depois tornou a cair, inerte.
- Tente mais uma vez! - sugeriu o Dr. Vance.
"Ns no ameaamos ningum, doutora. Estamos a dizer-lhe. Se o senhor Dinetto morrer, voc e a merda da sua famlia desaparecero da face da Terra." Kat carregou no boto e aplicou de novo a mquina no peito de Dinetto. Mais uma vez, o corpo elevou-se no ar alguns centmetros e tornou a cair.
- Outra vez!
"No vai acontecer", pensou Kat, desesperada. "Vou morrer com ele." Subitamente, a sala de operaes encheu-se de mdicos e enfermeiras. 
- De que  que esto  espera? - perguntou algum.
Kat respirou fundo e tornou a aplicar a mquina. Por um instante, nada aconteceu. Surgiu ento um ligeiro blip no monitor. Falhou um momento, em seguida tornou a surgir e a falhar e depois comeou a tornar-se cada vez mais intenso,  at se transformar num ritmo estvel e equilibrado.
Kat olhou incrdula. Na sala ouviu-se um grito de alegria:
- Vai salvar-se!
-Jesus, foi por um triz!
"Nem fazem ideia como", pensou Kat. Duas horas mais tarde, Lou Dinetto tinha sido removido da mesa, colocado sobre uma marquesa e estava a ser transportado novamente para os cuidados intensivos. Kat estava ao seu  lado. Rhino e o Sombra estavam no corredor.
- A operao foi bem sucedida - disse Kat. - Vai ficar bom.
Ken Mallory estava metido num grande sarilho. S tinha mais aquele dia para ganhar a aposta. O problema tinha crescido  to gradualmente que ele mal dera por isso. Quase desde a  primeira noite que tivera a certeza de que no iria ter problemas em levar Kat para a cama. "Problemas? Ela est ansiosa por isso!" Agora, o tempo estava a chegar ao fim e ele enfrentava um desastre. Mallory pensou em tudo o que tinha corrido mal - as companheiras de Kat a entrar no preciso momento em que se preparava para se deitar com ele, a dificuldade em sarem juntos, Kat a ser chamada pelo telebip e deixando-o de p  todo nu, a chegada da prima, o facto de ter adormecido, a menstruao. Parou subitamente e pensou: "Espera a! No pode ser tudo coincidncia!" Kat estava a fazer tudo deliberadamente! De algum modo veio a saber da aposta e decidiu fazer troa dele, pregar-lhe uma partida, partida essa que iria custar-lhe dez mil dlares que no possua. "Grande puta!" Estava to longe de vencer como quando comeou. Ela tinha-o ludibriado deliberadamente. "Como  que ca numa coisa destas?" Sabia que no tinha qualquer hiptese de arranjar o dinheiro. Quando Mallory entrou no vestirio dos mdicos, os outros estavam  sua espera.
- Dia de pagamento! - cantou Grundy.
Mallory esforou um sorriso:
- Tenho at  meia-noite, no  assim? Acreditem-me, ela est pronta, amigos.
Algum disse a rir:
- Sim. Sim. Acreditaremos quando ouvirmos isso dela prpria. Tenha o dinheiro pronto amanh de manh. Mallory riu-se:
- Tenham vocs o vosso pronto!
Ele tinha de descobrir uma sada. E subitamente encontrou a soluo. Ken Mallory encontrou Kat na sala de reunies. Sentou-se  frente dela e disse:
- Soube que salvaste a vida de um doente.
- E a minha prpria.
- O qu?
- Nada.
- Que tal salvares a minha?
Olhou para ela, intrigada.
-Janta comigo hoje.
- Estou muito cansada, Ken. - Sabia perfeitamente o jogo que fazia com ele. "Basta", pensou ela. "Chegou o momento de parar. Terminou. Ca na minha prpria armadilha." Desejou que ele fosse um homem diferente. Se pelo menos tivesse sido honesto com ela. "Podia ter mesmo gostado dele", concluiu Kat. De modo algum Mallory iria deixar que Kat escapasse.
-Jantaremos cedo - afirmou. - Vais ter de jantar nalgum stio.
Relutantemente, Kat concordou. Sabia que iria ser a ltima vez. Dir-Lhe-ia que sabia da aposta. Acabaria com o fogo.  
- Est bem.
Honey terminou o turno s quatro da tarde. Olhou para o relgio e decidiu que tinha o tempo suficiente para fazer  umas compras rpidas. Foi ao Candelier comprar velas para o apartamento, depois ao So Francisco Tea and Coffee Company para que no faltasse caf para o pequeno-almoo e, por ltimo, foi ao Chris Kelly para comprar toalhas. Cheia de pacotes, Honey dirigiu-se ao apartamento. "Eu prpria vou fazer um jantar em casa", decidiu. Sabia que Kat ia sair com Mallory e que Paige estava de servio. Carregando atabalhoadamente os pacotes, Honey entrou no apartamento e fechou a porta atrs de si. Acendeu a luz. Um negro enorme saa da casa de banho a pingar sangue sobre a alcatifa branca. Apontava uma pistola para ela. - Se fizer um s rudo, rebento-lhe os miolos! Honey gritou. Mallory estava sentado  frente de Kat no restaurante
Shroeder, na Front Street. Que aconteceria se no pudesse pagar os dez mil dlares? O caso espalhar-se-ia rapidamente pelo hospital e ele ficaria com a fama de caloteiro, uma brincadeira de mau gosto. Kat falava de um dos seus doentes e Mallory olhava-a nos olhos, sem ouvir uma s palavra do que ela dizia. Tinha  coisas mais importantes em que pensar. O jantar estava quase a terminar e o empregado servia o caf. Kat olhou para o relgio:
- Tenho de me levantar cedo, Ken. Acho melhor irmos embora. 
Ele manteve-se sentado, a olhar para a mesa:
- Kat... - disse, levantando a cabea. - Tenho uma coisa para te dizer.
- Sim?
- Tenho uma confisso a fazer - respirou fundo.
- No  fcil para mim.
Olhou para ele, confusa:
- O que ?
- Tenho vergonha de te dizer - afirmou, escolhendo as palavras. - Eu... fiz uma aposta estpida com alguns dos mdicos... de que havia de te levar para a cama.
Kat olhou para ele:
- Tu...
- No digas nada. Sinto vergonha do que fiz. Tudo comeou com uma brincadeira, mas o centro fui eu.
Aconteceu algo que no esperava. Apaixonei-me por ti.
- Ken...
- Nunca me tinha apaixonado antes, Kat. Conheci muitas mulheres mas nunca senti nada por elas. No tenho conseguido deixar de pensar em ti. - Deu um suspiro. - Quero casar-me contigo. A mente de Kat comeou a rodopiar. Estava tudo a virar-se de pernas para o ar. 
- Eu... eu no sei o que...
- s a nica a quem me declarei. Por favor, aceita.
Casas comigo, Kat?
Ento ele sentira mesmo tudo o que lhe tinha dito!
O corao batia mais depressa. Era como um sonho maravilhoso que subitamente se tornava real. Tudo o que quis dele era honestidade. E agora ele estava a ser honesto consigo. Todo esse tempo tinha-se sentido culpado pelo que fizera. No era como os outros. Era genuno e sensvel.
Quando Kat olhou para ele, os olhos brilhavam.
- Sim, Ken. Oh, sim!
A alegria dele iluminou a sala:
- Kat... - Inclinou-se e deu-lhe um beijo. - Perdoa aquela aposta estpida. - Abanou a cabea, em sinal de escrnio por si prprio. - Dez mil dlares. Poderamos ter utilizado esse dinheiro na nossa lua-de-mel. Mas vale a pena perd-lo para  te ter. Kat ficou pensativa. "Dez mil dlares!
- Fui um autntico tolo.
- Qual  o prazo-limite?
- A meia-noite de hoje, mas isso j no tem importncia. A coisa mais importante somos ns. Que nos vamos casar. Ns...
- Ken?
- Sim, querida?
- Vamos para tua casa. - Havia um olhar malicioso nos olhos de Kat. - Ainda tens tempo para ganhar a aposta.
Kat foi violenta na cama. "Meu Deus! Valeu a pena esperar...", pensou Mallory. Todos os sentimentos que Kat tinha guardado ao longo dos anos explodiram subitamente. Era a mulher mais apaixonada que Ken Mallory jamais conhecera. Ao cabo de duas horas, ele estava exausto. Abraou-a e disse:
- s incrvel.
Apoiou-se nos cotovelos e olhou para ele.
- Tu tambm s, querido. Sou to feliz.
Mallory sorriu:
- E eu tambm. - "Um prmio de dez mil dlares!" pensou.
"E um sexo fantstico."
- Promete-me que ser sempre assim, Ken.
- Prometo - disse com a voz mais sincera possvel.
Kat olhou para o relgio.
-  melhor vestir-me.
- No podes passar aqui a noite?
- No, tenho de ir muito cedo com Paige para o hospital.
- Deu-lhe um beijo quente. - No te preocupes. Teremos toda a nossa vida para passarmos juntos. Ele ficou a v-la vestir-se.
- Mal posso esperar para receber o dinheiro da aposta. Vamos fazer uma grande lua-de-mel. - Franziu as sobrancelhas. - E  se os rapazes no acreditarem em mim?
No vo acreditar na minha palavra. Kat ficou um momento pensativa. Por fim disse:
- No te preocupes. Farei com que saibam.
Mallory sorriu:
- Volta para a cama.
O negro, de pistola apontada para Honey, gritou:
- Disse-lhe para ficar calada!
- Des... culpe - disse Honey. Estava a tremer. - O que... que  quer daqui?
Com a mo, tentava estancar o sangue.
- Quero a minha irm.
Honey olhou para ele, confusa. Ele estava obviamente louco.
- Sua irm?
- Kat - a voz comeou a desvanecer
- Oh, meu Deus! Voc  Mike!
- Sim.
A arma caiu e ele escorregou para o cho. Honey correu para ele. O sangue corria de um ferimento que mais parecia ter  sido causado por uma bala.
- Fique quieto - disse Honey. Correu para a casa de banho e pegou na gua oxigenada e numa toalha grande.
Regressou para junto de Mike.
- Isto vai doer - avisou.
Ele permaneceu ali, demasiado fraco para se mexer. Deitou gua oxigenada no ferimento e pressionou a toalha sobre este. Mike mordeu a mo para no gritar.
- Vou chamar uma ambulncia e lev-lo para o hospital - disse Honey.
Ele pegou-lhe num brao e disse:
- No! Nada de hospitais. Nada de polcia. - A voz estava cada vez mais fraca. - Onde est Kat?
- No sei - respondeu Honey, impotentemente. Sabia que Kat estava algures com Mallory, mas no sabia onde.
- Deixe-me chamar uma pessoa minha amiga.
- Paige? - perguntou ele.
Honey concordou:
- Sim. - "Ento Kat falou-lhe de ns".
No hospital, s conseguiram encontrar Paige dez minutos depois.
-  melhor vires a casa - disse Honey.
- Estou de servio, Honey. Estou a meio de...
- O irmo de Kat est aqui.
- Oh, bem, dize-lhe...
- Levou um tiro.
- Ele o qu?
- Levou um tiro!
- Vou mandar os paramdicos e...
- Ele no quer nada com hospitais ou polcia. No sei o que fazer.
-  muito grave?
- Bastante.
Houve uma pausa:
- Vou procurar algum para me substituir. Estarei a dentro de meia hora.
Honey poisou o telefone e voltou-se para Mike.
- Paige vem a.
Duas horas mais tarde, de regresso ao apartamento, Kat tinha uma enorme sensao de bem-estar. Estivera nervosa por ter de fazer amor, com medo de o detestar depois da terrvel experincia que tinha vivido, mas, em vez disso, Ken Mallory transformara o acto em algo maravilhoso. Tinha soltado  emoes nela que nunca pensara que existissem. Sorrindo consigo prpria ao pensar no modo como, no ltimo momento, tinham passado a perna aos mdicos e vencido a aposta, Kat abriu a porta do apartamento e ali permaneceu, chocada. Paige e Honey estavam ajoelhadas ao lado de Mike. Este estava deitado no cho, com uma almofada debaixo da
cabea, uma toalha colocada contra o  lado do corpo e as  roupas sujas de sangue. Paige e Honey levantaram a cabea quando Kat entrou.
- Mike! Meu Deus! - Correu para ele e ajoelhou-se ao seu lado. - O que aconteceu?
- Ol, mana - a voz mal se ouvia.
- Levou um tiro - disse Paige. - Est com hemorragia.
- Vamos lev-lo para o hospital - disse Kat.
Mike abanou a cabea:
- No - murmurou. - Tu s mdica. Cuida de mim.
Kat olhou para Paige. "Estanquei o sangue o melhor que pude, mas a bala ainda l est. No temos aqui os instrumentos para...
- Ainda est a perder sangue - disse Kat. Pegando na cabea de Mike, disse. - Ouve bem, Mike. Se no obtiveres ajuda,  vais morrer.
-No... podem... comunicar... isto... No quero a polcia. 
Kat perguntou-lhe baixinho:
- Em que  que te meteste, Mike?
-Nada. Estava num... negcio... que correu mal... e um fulano ficou enfurecido e deu-me um tiro.
Era o tipo de histria que Kat ouvira durante anos a fio. Mentiras. Tudo mentiras. J na altura sabia disso e agora tambm, mas tinha procurado esconder a verdade de si prpria.  Mike pegou-lhe num brao:
- Ajudas-me, mana?
- Sim. Vou ajudar-te, Mike. - Kat ajoelhou-se e deu-lhe um beijo na face. Em seguida, dirigiu-se ao telefone. Levantou o auscultador e discou o nmero das urgncias do hospital.
- Sou a doutora Hunter - disse com a voz a tremer. - Preciso imediatamente de uma ambulncia...
No hospital, Kat pediu a Paige para fazer a operao e remover a bala.
- Ele perdeu muito sangue - disse Paige. Voltou-se para o cirurgio assistente: - D-lhe mais uma unidade.
J era de madrugada quando a operao terminou. A cirurgia foi bem sucedida. Quando tudo acabou, Paige chamou Kat de lado:
- Como queres que eu comunique isto? - perguntou. - Posso mencionar que foi um acidente ou...
- No - disse Kat. A voz soou magoada. - J devia ter feito isto h muito tempo. Quero que comuniques que foi um  ferimento de bala. Mallory esperava por Kat fora da sala de operaes. -  Kat! Soube do teu irmo e... - Kat abanou a cabea, fatigada. - Lamento. Ele vai ficar bem?
Kat olhou para Mallory e respondeu:
- Sim. Pela primeira vez na vida, Mike vai ficar bem.
Mallory apertou a mo de Kat.
- Quero que saibas que a noite passada foi maravilhosa.
Foste um milagre. Oh, lembrei-me agora. Os mdicos com quem fiz a aposta esto  espera na sala de reunies, mas suponho que, com tudo o que aconteceu, no vais querer entrar e... - Porque no? Pegou-lhe no brao e os dois entraram na sala. Os mdicos ficaram a v-los aproximarem-se. Grundy disse:
- Ol, Kat. Precisamos de a ouvir dizer algo. - O doutor Mallory afirma que voc e ele passaram a noite juntos e que tinha sido ptima.
- Foi mais do que ptima - disse Kat. - Foi fantstica!
- Beijou o rosto de Mallory. - Vejo-te mais tarde amor.
Os homens ficaram sentados, boquiabertos, enquanto Kat se afastava.
No vestirio, Kat disse a Paige e a Honey:
- Com toda esta excitao, no tive a oportunidade de vos dar a notcia.
- Que notcia? - perguntou Paige.
- Ken pediu-me em casamento.
Houve olhares incrdulos nos seus rostos.
- Ests a brincar! - disse Paige.
- No. Declarou-se na noite passada. Eu aceitei.
- Mas tu no podes casar-te com ele! - exclamou Honey.
- Sabes como ele . Quero dizer, tentou levar-te para a cama devido a uma aposta!
- E conseguiu - disse Kat a sorrir.
Paige olhou para ela:
- Estou confusa.
- Estvamos erradas quanto a ele. - Afirmou Kat.
- Completamente erradas. Foi o prprio Ken que me contou tudo sobre a aposta. Todo este tempo isso tem estado a perturbar-Lhe a conscincia. Percebem o que aconteceu? Sa  com ele para o castigar e ele saiu comigo para ganhar dinheiro, e acabmos os dois apaixonados um pelo outro. Oh, nem calculam como me sinto feliz. Honey e Paige entreolharam-se:
- Quando se casam? - perguntou Honey.
- Ainda no falmos disso, mas tenho a certeza que ser em breve. Quero que vocs as duas sejam as minhas damas de  honor.
- Podes contar com isso - respondeu Paige. - L estaremos.
- Mas havia uma certa dvida na sua mente.
Bocejou e disse: - Foi uma longa noite. Vou para casa dormir.
- Eu fico aqui com Mike - disse Kat. - Quando acordar, a polcia quer falar com ele. - Pegou nas mos das amigas.
- Obrigada por serem to amigas.
A caminho de casa, Paige pensou no que acontecera nessa noite. Sabia o quanto Kat adorava o irmo. Foi preciso muita coragem para o entregar  polcia. "Devia ter feito isto h muito tempo." O telefone tocava quando Paige entrou no apartamento. Correu a atender. Era Jason.
- Ol! Telefonei apenas para te dizer que estou cheio de saudades. O que aconteceu na tua vida?
Paige sentiu-se tentada a contar-lhe, a partilhar com algum, mas era muito pessoal. Era algo que dizia respeito a Kat.
- Nada - respondeu Paige. - Est tudo bem.
- Ainda bem. Ests livre para jantar?
Paige sabia que era mais do que um convite para jantar. "Se o tornar a ver, vou-me envolver", pensou. Sabia que era uma das decises mais importantes da sua vida. Respirou fundo:
- Jason, A campainha da porta comeou a tocar.
- Espera um minuto, est bem, Jason?
Paige poisou o telefone, dirigiu-se  porta e abriu-a.
Era Alfred Turner.
Paige ficou gelada.
Alfred sorriu:
- Posso entrar?
Ela ficou atrapalhada: - Cla... claro - respondeu ela tentando esconder o espanto. - Des... culpa. - Ficou a ver Alfred entrar para a sala e sentiu-se cheia de emoes conflituosas. Estava feliz e excitada e ao mesmo tempo furiosa. "Porque  que estou assim?", pensou. "Provavelmente, s passou aqui para me cumprimentar." Alfred voltou-se para ela e declarou:
- Deixei a Karen. - As palavras foram um choque. Alfred aproximou-se mais: - Cometi um grande erro, Paige. Nunca te devia ter deixado. Nunca.
- Alfred... - Paige lembrou-se subitamente. - Desculpa.
- Correu para o telefone e levantou-o: - Jason?
- Sim, Paige. Sobre logo  noite, podemos...
- No... no posso sair contigo.
- Oh. Se hoje  mau dia, que tal amanh  noite?
- No... no tenho a certeza.
Jason sentiu tenso na voz dela e perguntou:
- Aconteceu alguma coisa?
- No. Est tudo bem. Amanh telefono-te e explico tudo.
- Est bem. - Parecia confuso.
" Paige colocou o auscultador no lugar.
' - Tenho sentido muitas saudades tuas, Paige - disse Alfred.
- Acontece o mesmo contigo?
"No. Apenas sigo estranhos na rua e chamo-os de Alfred." - Sim - admitiu Paige.
- Ainda bem. Pertencemos um ao outro, sabes. Desde sempre.
"Ser? Foi por isso que casaste com Karen? Julgas que podes entrar e sair da minha vida sempre que te apetea?"
Alfred encontrava-se junto de Paige:
- No  assim?
Paige olhou para ele e respondeu:
- No sei. - Tudo aconteceu muito depressa.
Alfred pegou-lhe na mo:
, - Claro que sabes.
- O que se passou com Karen?
Alfred encolheu os ombros:
- Karen foi um erro. Continuei a pensar em ti e em todos os bons momentos que passmos juntos. Fomos sempre bons um para  o outro. Estava a olhar para ele, de sobreaviso:
- Alfred...
- Estou aqui para ficar, Paige. Quando digo "aqui", no quer dizer exactamente isso. Vamos para Nova Iorque.
- Nova Iorque?
- Sim. J te conto tudo. Sabia-me bem uma chvena de caf.
- Claro. Vou fazer. Leva apenas uns minutos.
Alfred seguiu-a at  cozinha, onde Paige comeou a preparar o caf. Ela procurava ordenar as ideias. Tinha querido to desesperadamente que Alfred voltasse e agora que ele ali estava...
Alfred dizia:
-Aprendi muito nos ltimos anos, Paige. Cresci.
- Oh?
- Sim. Sabes que tenho trabalhado para a OMS durante todos estes anos.
- Eu sei.
- Esses pases no mudaram nada desde que ram crianas.
Na realidade, alguns at pioraram. Existem mais doenas, mais pobreza...
- Mas estavas l a ajudar - disse Paige.
- Sim, e de um momento para o outro, despertei - Despertaste?
- Percebi que estava a desperdiar a minha vida. Estava l a  viver na misria e a trabalhar vinte e quatro horas por dia  para ajudar aqueles selvagens ignorantes, quando podia estar aqui a fazer um monte de dinheiro. - Paige escutava, incrdula. - Conheci um mdico que tem um consultrio na Park Avenue, em Nova Iorque. Sabes quanto  ganha ele por ano? Mais de quinhentos mil dlares! Ouviste bem? Quinhentos mil dlares por ano! - Paige olhava para ele. - Disse para comigo mesmo: "Onde esteve esse dinheiro durante toda a minha vida?" Ofereceu-me um lugar como associado - disse Alfred com orgulho - e eu aceitei.  por isso que tu e eu vamos para Nova Iorque. Paige no conseguia acreditar no que acabara de ouvir, - Conseguirei pagar um apartamento de cobertura para ns e poderei comprar-te vestidos bonitos e tudo o que sempre te 
prometi. - Sorria. - Bem, ficaste surpreendida?  A boca de Paige estava seca:
- Eu... nem sei o que dizer, Alfred.
-  claro que no - riu. - Quinhentos mil dlares por ano  suficiente para deixar qualquer um sem palavras.
- No estava a pensar no dinheiro - afirmou Paige, lentamente.
- No?
Estudou-o como se o tivesse visto pela primeira vez.
- Alfred, quando trabalhavas para a OMS no sentias que estavas a ajudar os outros?
Ele encolheu os ombros:
- Nada pode ajudar aquela gente. E quem se importa realmente com isso? Acreditas que Karen queria que eu ficasse em Bangladesh? Disse-lhe que no havia hiptese, por isso ela regressou. - E, pegando na mo de Paige, disse: - Assim, aqui estou eu... Ficaste um tanto calada. Penso que ests um tanto acabrunhada com tudo isto, hem? Paige lembrou-se do pai: "Teria tido muito xito na Park Avenue, mas no estava interessado em dinheiro. Tudo o que queria era ajudar os outros." 
- J me divorciei de Karen e por isso podemos casar imediatamente. - Tocou-lhe na mo. - Que achas da ideia de vivermos em Nova Iorque?
Paige respirou fundo:
- Alfred...
Havia no rosto dele um sorriso de expectativa:
- Sim?
- Vai-te embora.
O sorriso desapareceu lentamente:
- O qu?
Paige levantou-se:
- Quero que saias imediatamente.
Ficou confuso:
- Para onde queres que eu v?
- No te vou dizer - replicou Paige. - Magoaria os teus sentimentos.
Depois de Alfred ter sado, Paige sentou-se a pensar. Kat tinha razo. Tinha estado presa a um fantasma. "A ajudar aqueles selvagens ignorantes, quando podia ter estado a fazer um monte de dinheiro aqui... Quinhentos mil dlares por ano!  "Foi a isso que estive presa", pensou Paige. Podia ter-se sentido deprimida mas, em vez disso, estava muito animada. Subitamente, sentiu-se livre. Sabia agora o que eLe queria. Dirigiu-se ao telefone e discou o nmero de Jason
- Estou.
- Jason, daqui Paige. Lembras-te de me teres falado sobre a tua casa em Noe Valley?
- Sim...
- Gostaria muito de a conhecer. Ests livre esta noite, Jason  - perguntou, lentamente:
- Queres dizer-me o que est a acontecer, Paige? Estou confuso.
- Eu  que estou confusa. Pensei que estava apaixonada por um homem que conheci h muito tempo, mas ele j no  a mesma pessoa. Agora sei o que quero.
- Sim?
- Quero ver a tua casa.
Noe Valley pertencia a outro sculo. Era um osis colorido, no corao de uma das mais cosmopolitas cidades do mundo. A casa de Jason era um reflexo dele - confortvel, arrumada e encantadora. Conduziu Paige pela casa:
- Aqui  a sala de estar, a cozinha, a casa de banho das visitas, a biblioteca... - Olhou para ela e disse: - O quarto fica l em cima. Queres v-lo?
Paige respondeu baixinho:
- Quero muito.
Subiram at ao quarto. O corao de Paige batia desordenadamente. Mas o que estava a acontecer parecia inevitvel. "Devia ter sabido desde o incio", pensou. Paige nunca soube quem tinha dado o primeiro passo, mas subitamente encontravam-se nos braos um do outro e os lbios
de Jason estavam sobre os seus, parecendo ser a coisa mais natural do mundo. Comearam a despir-se e ambos pareciam  estar cheios de pressa. Pouco depois, estavam na cama e ele fazia amor com ela.
- Meu Deus - sussurrou ele. - Amo-te tanto.
- Eu sei - brincou Paige. - Desde que te mandei vestir uma bata branca.
Depois de terem feito amor, Paige disse:
- Gostava de passar a noite aqui.
Jason sorriu:
- E no me vais odiar de manh?
- Prometo.
Paige passou a noite com Jason, a conversar... a fazer amor... a conversar. De manh, fez-lhe o pequeno-almoo.
Jason ficou a v-la e disse:
- No sei como tive tanta sorte, mas obrigada.
- Eu  que sou a sortuda - respondeu-lhe Paige.
- Sabes uma coisa? Ainda no recebi a resposta ao meu pedido.
- Ters uma resposta esta tarde.
Nessa tarde, chegou ao escritrio de Jason um mensageiro com um sobrescrito. Dentro, encontrava-se o carto que Jason  tinha enviado com a casa-modelo.

Minha ( )
Nossa (x)
Coloca uma cruz.

Lou Dinetto ia ter alta do hospital. Kat foi ao quarto dele para se despedir. Rhino e o Sombra estavam l. Quando entrou, Dinetto voltou-se para eles e ordenou:
- Desapaream!
Kat ficou a v-los deixarem o quarto. Dinetto olhou para ela e disse:
- Fico em dvida para consigo.
- No me deve nada.
-  esse o valor que d  minha vida? Soube que se vai casar.
- Exacto.
- Com um mdico.
- Sim.
- Bem, diga-lhe para cuidar bem de si, ou ter de se haver comigo.
- Dir-lhe-ei.
Houve uma pequena pausa:
- Lamento o que sucedeu a Mike.
- Ele vai ficar bom - disse Kat. - Tive uma longa conversa com ele. Ficar bem.
- Ainda bem. - Dinetto estendeu-lhe um sobrescrito volumoso:
- Um pequeno presente de casamento para si.
Kat abanou a cabea:
- No, obrigada.
- Mas...
- Cuide bem de si.
- Voc, tambm. Sabe uma coisa? A senhora  uma mulher s direitas. Vou dizer-lhe algo que quero que se lembre sempre. Se alguma vez precisar de um favor, seja ele qual for, venha ter comigo. Entendido?
- Entendido.
Sabia que ele dizia a verdade. E tambm sabia que nunca iria ter com ele. Durante as semanas que se seguiram, Paige e Jason falavam por telefone trs ou quatro vezes ao dia e viam-se sempre que ela no estava de servio. O hospital estava mais movimentado do que nunca. Paige tinha estado de servio trinta e seis horas cheias de urgncias. Tinha acabado de adormecer no quarto dos mdicos  de servio quando foi acordada pela campainha do telefone. Encostou o auscultador ao ouvido:
- 'Tou?
- Doutora Taylor, pode vir ao quarto quatrocentos e vinte e dois, stat?
Paige procurou despertar. "Quarto 422. Um dos doentes do Dr. Barker. Lance Kelly. Tinha acabado de fazer uma substituio da vlvula mitral. Qualquer coisa deve ter corrido mal." Paige levantou-se e saiu para o corredor deserto. Decidiu no esperar pelo elevador e subiu as escadas a correr. "Talvez seja apenas uma enfermeira nervosa. Se for grave, telefonarei ao Dr. Barker", pensou. Entrou no quarto 422 e ficou  entrada, a olhar. O doente tentava respirar e gemia. A enfermeira voltou-se  para Paige, obviamente aliviada:
- No sabia o que fazer, doutora. Eu...
Paige correu para junto da cama.
- O senhor vai ficar bom - disse, tentando tranquiliz-lo.
Tomou-lhe o pulso. A pulsao estava bastante irregular e rpida. A vlvula mitral estava a funcionar mal.
- Vamos dar-lhe um sedativo - ordenou Paige. A enfermeira estendeu uma seringa e Paige injectou-a numa veia.
Paige voltou-se para a enfermeira: - Pea  enfermeira-chefe para reunir uma equipa operatria, stat. E mande chamar o doutor Barker! Quinze minutos mais tarde, Kelly estava na mesa de operaes. A equipa era constituda por duas enfermeiras-assistentes, uma auxiliar e dois  residentes.  Havia  um monitor colocado ao alto do canto da sala, para mostrar o ritmo cardaco, o ECG e a presso arterial. O anestesista entrou e Paige teve vontade de o insultar. A maioria dos anestesistas do hospital eram mdicos peritos, mas Herman Koch era uma excepo. Paige j tinha trabalhado com ele antes e tentava evit-lo o mais possvel. No confiava em Koch. Agora, no tinha outra opo. Viu-o prender um tubo  garganta do doente, enquanto ela desdobrava um pedao de papel com uma janela recortada e o colocava sobre o peito do doente. 
- Metam um fio na veia jugular - pediu Paige.
Koch anuiu:
- Certo.
Um dos residentes perguntou:
- Qual  o problema?
- Ontem o doutor Barker substituiu a vlvula mitral.
Penso que rebentou. - Paige olhou para o Dr. Koch. - J est inconsciente?
Koch anuiu:
- A dormir como se estivesse em casa, na sua prpria cama.
"Quem me dera que voc estivesse" pensou Paige.
- O que  que est a utilizar?
- Propofol.
Ela concordou:
- Est bem.
Viu Kelly ser ligado ao pulmo artificial para que ela pudesse efectuar o desvio cardiopulmonar. Paige estudou os monitores da parede. Pulsao 140... saturao de oxignio no sangue 92 por cento... presso arterial 80/60.
- Vamos - disse.
Um dos residentes ligou a msica. Paige aproximou-se da mesa de operaes, colocada sob mil e cem watts de luz quente, e pediu  enfermeira-assistente:
- Bisturi, por favor.
A operao comeou. Paige retirou todas as ligaes externas que tinham sido feitas no dia anterior. Em seguida, cortou desde a base do pescoo at  extremidade inferior do esterno, enquanto um residente limpava o sangue com compressas de gaze. Cuidadosamente, atravessou as camadas de gordura e msculo e,  sua frente, surgiu o corao, que batia irregularmente.
- Aqui est o problema - disse Paige. - O trio est perfurado. O sangue est a acumular-se em volta do corao, comprimindo-o. - Paige olhou para o monitor da parede. A presso tinha cado perigosamente.
- Aumentem a intensidade - ordenou Paige.
A porta da sala de operaes abriu-se para dar passagem a Lawrence Barker. Aproximou-se de um dos lados para ver o que estava a acontecer.
Paige perguntou:
- Doutor Barker. Quer fazer...?
- A operao  sua.
Paige verificou rapidamente o que Koch estava a fazer:
-Tenha cuidado. Vai anestesi-lo de mais, merda!
Tenha calma!
- Mas eu...
- Ele entrou em choque! A presso est a cair!
- Que quer que faa? - perguntou Koch, impotente.
"Devias saber", pensou Paige furiosa.
- D-lhe lidocana e epinefrina! J! - gritou.
- Certo.
Paige viu Koch pegar numa seringa e inject-la no doente.
Um residente olhou para o monitor e disse em voz alta:
- A presso arterial est a cair.
Paige tentava freneticamente estancar o sangue. Olhou para Koch e disse:
- Intensidade a mais! Disse-lhe para...
O rudo da batida cardaca no monitor tornou-se subitamente catico.
- Meu Deus! Alguma coisa correu mal!
- Passem-me o desfibrilador! - gritou Paige.
A enfermeira auxiliar retirou o desfibrilador do carrinho de mo, abriu duas almofadas esterilizadas e aplicou-as no  devido lugar. Rodou os botes para as carregar e, dez segundos mais tarde, entregou-as a Paige. Esta pegou nas almofadas e colocou-as directamente sobre o corao de Kelly. O corpo do doente deu um solavanco e depois caiu. Paige tentou novamente, esperando que ele voltasse a viver, esperando que ele voltasse a respirar. Nada. O corao continuou parado: um rgo morto e intil. Paige estava furiosa. O seu papel na operao tinha sido bem sucedido, mas Koch anestesiara de mais o doente. Enquanto Paige aplicava o desfibrilador no corpo de Lance Kelly pela terceira e intil vez, o Dr. Barker aproximou-se  da mesa de operaes e voltou-se para Paige: 
- Voc matou-o.
Jason estava a meio de uma reunio de design quando a secretria informou:
- A doutora Taylor est ao telefone. Digo que lhe ligar mais tarde?
- No, eu atendo. - Paige levantou o telefone. - Paige?
-Jason... preciso de ti! - soluava.
- O que foi que aconteceu?
- Podes vir ao meu apartamento?
- Claro. Vou j para a. - Levantou-se. - A reunio est terminada. Amanh de manh continuaremos.
Meia hora mais tarde, Jason chegava ao apartamento. Paige abriu-lhe a porta e atirou-se ao pescoo dele. Tinha os olhos vermelhos de chorar. - O que foi que aconteceu? - perguntou Jason.
-  horrvel! O doutor Barker disse que eu... eu matei um doente e, sinceramente, no tive a culpa! - A voz comeou a fugir. - No consigo suportar mais nenhuma das suas...
- Paige - disse Jason, suavemente -, tu contaste-me como ele   sempre mau.  o carcter dele.
Paige abanou a cabea:
-  mais do que isso. Tem tentado obrigar-me a abandonar tudo, desde o dia em que comecei a trabalhar com ele. Jason, se ele fosse um mau mdico e pensasse que eu no servia para nada, no me importaria tanto; mas o homem  brilhante. Tenho de respeitar a sua opinio. Penso somente que no sou suficientemente boa para isto. - Disparate - disse Jason, zangado. - Claro que s boa. Toda a gente com quem conversei me disse que s uma mdica maravilhosa.
- Mas no Lawrence Barker.
- Esquece o Barker.
- Vou esquecer - disse Paige. - Vou deixar o hospital.
Jason abraou-a.
- Paige, sei que gostas de mais da tua profisso para desistires dela.
- No vou desistir. S no quero ver mais aquele hospital.
- Jason tirou o leno e limpou as lgrimas de Paige.
- Perdoa-me por te incomodar com tudo isto - disse Paige.
-  para isso que servem os futuros maridos, no ?
Conseguiu sorrir:
- Gosto de ouvir isso. Est bem. - Paige respirou fundo.
- J me sinto melhor. Obrigada por teres conversado comigo.
Telefonei ao doutor Wallace e disse-lhe que me retirava. Vou agora falar com ele.
- Vemo-nos logo ao jantar.
Paige atravessou os corredores do hospital, sabendo que os via pela ltima vez. Ali estavam os sons familiares e as pessoas a correrem ao longo dos corredores, de um lado para o outro. Para ela, tinha-se transformado mais num lar do que aquilo que imaginava. Lembrou-se de Jimmy e de Chang, bem  como de todos os mdicos maravilhosos com quem tinha trabalhado. O querido Jason a fazer a ronda com ela na sua bata branca. Passou pela cafetaria, onde ela, Honey e Kat tinham tomado centenas de pequenos-almoos e pela sala de reunies, onde tentaram fazer uma festa. Os corredores e os quartos estavam repletos de tantas recordaes. "Vou ter saudades disto", pensou, "mas recuso-me trabalhar debaixo do mesmo tecto que aquele monstro."
Dirigiu-se ao gabinete do Dr. Wallace. Ele esperava-a.
- Bem, devo dizer que a sua chamada telefnica surpreendeu-me, Paige! Est completamente decidida?
- Sim.
Benjamin Wallace suspirou:
- Muito bem. Antes de ir, o doutor Barker quer v-la. 
- Eu  que o quero ver. - Toda a fria reprimida subiu  superfcie.
- Ele est no laboratrio. Bem... boa sorte.
- Obrigada. - Paige comeou a caminhar em direco ao laboratrio.
O Dr. Barker estava a examinar alguns exemplares sob o microscpio, quando Paige entrou. Ele levantou a cabea.
- Disseram-me que decidiu deixar o hospital.
- Exacto. Finalmente conseguiu o que queria.
-E o que foi que eu quis? - perguntou Barker.
- Quis-me fora daqui desde o primeiro momento em que me viu.
Bem, venceu. J no consigo lutar mais contra si. Quando  disse que matei o doente, eu... - a voz de Paige comeou a falhar. - Penso que  um sdico filho da puta com corao de pedra e
eu odeio-o.
- Sente-se - disse o Dr. Barker.
- No. No tenho mais nada para dizer.
- Bom, mas eu tenho. Quem diabo julga que...?
Parou subitamente e comeou a ficar sufocado. Enquanto Paige olhava horrorizada, ele agarrou-se ao peito e conseguiu sentar-se na cadeira, com o rosto torcido para um lado num grito pavoroso. Paige aproximou-se de imediato:
- Doutor Barker! - Pegou no telefone e gritou: - Cdigo  vermelho! Cdigo vermelho!
O Dr. Peterson disse:
- Sofreu um enfarte massivo.  muito cedo para dizer se ir conseguir superar.
"A culpa  minha", pensou Paige. "Quis que morresse."
Sentiu-se miservel.
Voltou ao gabinete do Dr. Wallace:
- Lamento o que sucedeu - disse Paige. - Era um bom mdico.
- Sim.  lamentvel. Muito... - Wallace estudou-a por momentos. - Paige, se o doutor Barker no puder exercer mais, no quer pensar em continuar c?
Paige hesitou:
- Sim. Claro.
No grfico lia-se: "John Cronin, sexo masculino, raa branca, idade 70. Diagnstico: Tumor cardaco." Paige ainda no conhecia John Cronin. Estava marcado para uma cirurgia cardaca. Ela entrou no quarto juntamente com  uma enfermeira e um mdico auxiliar. Sorriu cortesmente e saudou: - Bom dia, senhor Cronin. Tinham acabado de retirar os tubos e havia marcas de adesivo  volta da boca. As garrafas IV estavam suspensas sobre a cabea e a tubagem fora inserida no brao esquerdo. Cronin olhou para Paige:
- Quem diabo  a senhora?
- Sou a doutora Taylor. Vou examin-lo e...
- O diabo  que vai! Mantenha a merda das suas mos longe de mim. Porque  que no me mandaram um verdadeiro mdico?
O sorriso de Paige desvaneceu-se:
- Sou cirurgi cardaca. Vou fazer tudo o que puder para que volte a ficar bem.
- A senhora vai operar o meu corao?
- Exacto. Eu...
John Cronin olhou para o mdico auxiliar e disse:
- Por amor de Deus, isto  o melhor que este hospital pode fazer?
- Garanto-lhe que a doutora Taylor  bastante qualificada - respondeu o mdico.
- Tambm o meu cu.
Paige perguntou em tom seco:
- Quer mandar vir o seu prprio cirurgio?
- No tenho nenhum. No posso pagar o que eles pedem. Vocs mdicos so todos iguais. S vos interessa o dinheiro. Querem l saber das pessoas. Para vocs, ns somos apenas uns  pedaos de carne, no  assim? Paige tentava conservar a calma:
- Sei que neste preciso momento o senhor est nervoso, mas...
- Nervoso? S porque me vai cortar o corao? - gritou.
- Sei que vou morrer na mesa de operaes. Voc vai matar-me e espero que a condenem por assassnio!
- Basta! - disse Paige.
Ele sorriu maliciosamente:
- No ficaria bem na sua ficha se eu morresse, no , doutora? Talvez resolva deixar que me opere.
Paige sentiu que comeava a arfar. Voltou-se para a enfermeira:
- Quero um electrocardiograma e um painel qumico. - Olhou pela ltima vez para John Cronin e, em seguida, voltou-se e saiu do quarto.
Quando Paige regressou uma hora mais tarde com os relatrios dos exames, John Cronin afirmou:
- Oh, a puta est de volta!
Paige operou John Cronin s seis horas da manh seguinte. Assim que o abriu, soube que no havia esperana. O problema principal no era o corao. Os rgos de Cronin apresentavam sinais de melanoma. Um residente disse:
- Oh, meu Deus! Que podemos fazer?
- Podemos rezar para que no viva assim muito tempo. 
Quando Paige saiu da sala de operaes, uma mulher e dois homens esperavam-na no corredor. A mulher tinha trinta e muitos anos. Era ruiva, estava demasiado maquilhada e usava  um perfume barato e muito intenso. Trazia um vestido justo, que acentuava a sua figura voluptuosa. Os homens estavam na casa dos quarenta anos e eram ambos ruivos. Para Paige, os trs pareciam fazer parte de um grupo de circo.
A mulher disse a Paige:
- A doutora Taylor  a senhora?
- Sim.
- Sou a senhora Cronin. Estes so os meus irmos.
Como est o meu marido?
Paige hesitou. Disse, cuidadosamente:
-A operao correu to bem quanto espervamos.
- Oh, graas a Deus! - disse melodramaticamente a Sra. Cronin, limpando os olhos com um leno. - Morreria se acontecesse algo a John!
Paige sentiu que estava a presenciar uma cena de teatro, representada por uma actriz barata.
-J posso ver o meu querido?
- Ainda no, senhora Cronin. Ele est na sala de recuperao. Sugiro que regresse amanh.
- Voltarei. - Voltou-se para os homens: - Venham da, filhos.
Paige ficou a v-los afastarem-se. "Pobre John Cronin", pensou. Paige recebeu o relatrio na manh seguinte. O cancro tinha-se disseminado por todo o corpo do doente. J era demasiado tarde para um tratamento de irradiao. O oncologista disse a Paige: 
- S nos resta tentar fazer com que se sinta confortvel.
Vai ter dores infernais.
- Quanto tempo lhe resta?
- Uma a duas semanas no mximo.
Paige foi visitar John Cronin nos cuidados intensivos. Estava a dormir. J no era um homem amargo e mordaz, mas um ser humano a lutar desesperadamente pela vida. Estava ligado ao pulmo artificial e a ser alimentado por via intravenosa. Paige sentou-se ao lado, a observ-lo. Parecia cansado e derrotado. " um dos azarados,, pensou Paige. "Mesmo com todos os milagres da medicina, nada podemos fazer para o salvar." Paige tocou-lhe suavemente no brao. Aps algum tempo, saiu. Mais tarde, Paige tornou a visitar John Cronin. J no estava ligado ao pulmo artificial. Quando abriu os olhos e viu Paige, perguntou ainda tonto:
- A operao j terminou, hem?
Paige sorriu tranquilizadoramente:
- Sim. Passei por aqui s para saber se se sente confortvel.
- Confortvel? - desdenhou. - O que  que isso Lhe interessa?
Paige afirmou:
- Por favor. No vamos brigar.
Cronin ficou silencioso, estudando-a:
- O outro mdico disse-me que voc fez um bom trabalho. -
Paige nada disse. - Tenho cancro, no ?
- Sim.
- Qual  a gravidade?
A pergunta colocou um dilema que todos os cirurgies tinham
de enfrentar, mais cedo ou mais tarde.
Paige respondeu:
-  bastante grave.
Houve um longo silncio.
- E a irradiao ou quimioterapia?
- Lamento. Faria com que se sentisse ainda pior e isso no
ajudaria em nada.
- Compreendi. Bem... tive uma vida boa.
- Tenho a certeza que sim.
-Talvez julgue que no, olhando para mim agora;
mas tive muitas mulheres.
- Acredito.
- Sim. Mulheres... bons bifes... bons charutos...  casada?
- No.
- Devia ser. Todos deviam casar. Fui casado. Duas vezes.
Primeiro, durante trinta e cinco anos. Ela era uma mulher
maravilhosa. Morreu de ataque cardaco.
- Lamento.
- Est tudo bem - suspirou. - Depois fui obrigado a casar
com uma bimba. Ela e os seus dois famintos irmos. Errei por
ter sido to estpido, julgo eu. O cabelo ruivo dela
excitava-me. Ela  c um pedao de mulher.
- Tenho a certeza que ela...
- Sem ofensas, mas sabe porque  que estou nesta merda de
hospital? Foi ela quem me trouxe para c. No queria gastar
dinheiro com um hospital particular. - Olhou para Paige.
- Quanto tempo tenho ainda?
- Quer ouvir a verdade?
- No... sim.
- De uma a duas semanas.
- Meu Deus! As dores vo piorar, no ?
- Vou tentar mant-lo o mais confortvel possvel, senhor
Cronin.
- Trate-me por John.
- John.
- A vida  uma merda, no ?
- O senhor disse que teve uma boa vida.
- Tive. Torna-se cmico saber que tudo acabou. Para onde
julga que vamos?
- No sei.
Forou um sorriso:
- Dir-lhe-ei quando l chegar.
- Vem a o medicamento. Posso fazer alguma coisa para o tornar mais confortvel?
-" Sim. Volte logo  noite para conversar comigo.
Era a folga de Paige e ela estava exausta.
- Voltarei mais logo.
Quando nessa noite Paige foi visitar John Cronin, este estava acordado.
- Como se sente?
Ele estremeceu:
- Terrvel. Nunca suportei muito bem as dores. Acho que sou um fracalhote.
- Eu compreendo.
- Sei que j conhece a Hazel, hem?
- Hazel?
- A minha mulher. A bimba. Ela e os irmos vieram ver-me.
Disseram-me que tinham falado consigo.
- Sim.
- Ela  boazona, no ? Tenho a certeza que me meti num monte de sarilhos por causa dela. Esto s  espera que eu bata a bota.
- No diga isso.
-  verdade. A nica razo por que Hazel se casou comigo foi por dinheiro. Para dizer a verdade, no me importei muito. Passmos juntos muitos bons momentos na cama, mas depois ela  e os irmos comearam a ficar gananciosos. Estavam sempre a querer mais. Os dois ficaram ali num confortvel silncio.
-J lhe disse que costumava viajar muito?
- No.
- Sim. Estive na Sucia... Dinamarca... Alemanha. J esteve na Europa?
Lembrou-se do dia em que fora  agncia de viagens. "Estou ansiosa por conhecer Londres. Paris  para onde gostaria de ir. Quero passear ao luar numa gndola em Veneza. 
- No. Nunca.
- Devia ir.
- Talvez v um dia.
-Julgo que no ganha muito dinheiro a trabalhar num hospital como este, hem?
- Ganho o suficiente.
Anuiu para si mesmo:
- Sim. Tem de ir  Europa. Faa-me um favor. V a Paris...
fique no Crillon, jante no Maxim, pea um bife grande e alto  e uma garrafa de champanhe e, quando estiver a comer esse bife  e a beber o champanhe, quero que pense em mim. Faze-me esse favor? Paige respondeu lentamente:
- Um dia farei isso.
John Cronin estudou-a:
- Muito bem. Agora estou cansado. Voltar amanh para conversar comigo?
- Voltarei - respondeu Paige.
John Cronin adormeceu.
Ken Mallory acreditava piamente na dona sorte e, depois de ter conhecido os Harrisons, passou a acreditar ainda mais que esta estava do seu lado. Era impensvel que um homem to rico quanto Alex Harrison fosse alguma vez parar ao Embarcadero County Hospital. "Fui eu quem lhe salvou a vida e ele pretende demonstrar a sua gratido", pensou Mallory,  jubiloso. Tinha pedido a um amigo que lhe fornecesse informaes sobre os Harrisons. 
- A palavra rico nem sequer o define bem - disse o amigo.
-  uma dzia de vezes mais rico do que qualquer milionrio. 
E tem uma filha muito bonita. J foi casada trs ou quatro vezes. A ltima, com um conde.
-J conheces os Harrisons?
- No. No se misturam com zs-ningum.
Um sbado de manh, Alex Harrison telefonou a Ken Mallory.
- Ken, acha que estarei em forma para dar um jantar daqui a uma semana?
- Se no abusar, no vejo qualquer objeco - respondeu Mallory. Alex Harrison sorriu:
- Ainda bem. Voc  o convidado de honra. Mallory sentiu-se subitamente excitado. "O velho sentiu mesmo o que disse." 
- Bem... obrigado.
- Lauren e eu contamos consigo s sete e meia do prximo sbado  noite. - E deu a Mallory uma morada na Nob Hill.
- L estarei - afirmou Mallory. "Podem ter a certeza! " Tinha prometido levar Kat ao teatro nessa noite, mas seria fcil cancelar. Recebera o dinheiro da aposta e gostara de  ter relaes sexuais com ela. Vrias vezes por semana,  conseguiram escapar para um dos quartos para mdicos de servio ou um dos quartos vazios do hospital, para o apartamento dele ou para o dela. "O fogo dela estivera muito tempo guardado", pensou Mallory, alegremente, mas quando a exploso surgiu... uau! Bem, um destes dias terei de lhe dizer arrivederci". Quando chegou o dia do jantar em casa dos Harrisons, Mallory telefonou a Kat:
- Ms notcias, querida.
- O que se passa, amor?
- Um dos mdicos est doente e pediram-me que o substitusse. Lamento, mas vamos ter de cancelar a sada de hoje. Kat no quis que percebesse o seu desapontamento nem o quanto queria estar com ele. Disse em voz normal:
- Esse  o negcio dos mdicos, no ?
- Sim. Hei-de compensar-te.
- No tens de me compensar de nada - disse, calorosamente.
- Amo-te.
- Ken, quando vamos falar de ns?
- O que queres dizer com isso?
Sabia exactamente a resposta. Um compromisso. Eram todas iguais. "Utilizam a rata como isca, na esperana de convencer um parvalho a passar a vida com elas.," Bem, ele era demasiado esperto para cair numa dessas. Quando chegasse o momento, terminaria tudo, tal como j tinha feito uma dzia  de vezes. Kat perguntou:
- No achas que devamos marcar a data, Ken? Tenho muitos planos a fazer.
- Claro. Faremos isso.
- Pensei em Junho. O que  que achas?
"No queiras saber o que  que eu acho. Se jogar as cartas certas haver um casamento, mas no ser contigo." - Falaremos disso mais tarde, querida. Agora tenho mesmo de ir.
A casa dos Harrisons era uma manso s vista em cinema, situada num vasto terreno muito bem cuidado. A casa por si s parecia nunca mais acabar. Estavam l cerca de duas dzias de convidados e, no enorme salo de visitas, tocava uma orquestra. Quando Mallory entrou, Lauren correu a cumpriment-lo. Trazia um vestido de seda de ombros cados. Apertou a mo de Mallory e disse:
- Bem-vindo, convidado de honra. Fico feliz por aqui estar.
- Tambm eu. Como est o seu pai?
- Muito vivo, graas a si. O senhor  um verdadeiro heri nesta casa.
Mallory sorriu modestamente:
- Apenas cumpri o meu dever.
- Julgo que  isso que Deus diz todos os dias. - Pegou-lhe na mo e comeou a apresent-lo aos outros convidados.
Estes pertenciam  alta sociedade. Encontravam-se ali o governador da Califrnia, o embaixador francs, um juiz do Supremo Tribunal e uma dzia de outras pessoas, como polticos, artistas e grandes homens de negcios. Mallory sentia o poder na sala e isso causou-lhe um calafrio. " aqui que eu perteno", pensou. "Exactamente aqui, no meio desta gente."
O jantar foi delicioso e elegantemente servido. No final da noite, quando os convidados comearam a sair, Harrison disse  a Mallory:
- No tenha pressa de sair, Ken. Gostaria de falar consigo.
- Com todo o prazer.
Harrison, Lauren e Mallory foram para a biblioteca.
Harrison sentou-se numa cadeira prximo da filha.
- Quando no hospital lhe disse que achava que tinha um grande futuro, disse-o sinceramente.
- Agradeo muito a sua confidncia, sir.
- Devia estar a praticar clnica privada.
Mallory sorriu, autodesvalorizando-se:
- Infelizmente, no  assim to fcil, senhor Harrison.  preciso muito tempo para se obter prtica e eu... 
- Vulgarmente, sim. Mas voc no  um homem vulgar.
- No compreendo.
- Quando terminar a residncia, o pai quer montar-lhe a sua prpria clnica - disse Lauren.
Por um momento Mallory ficou sem saber o que dizer. Era fcil de mais. Sentiu que estava a viver um sonho  maravilhoso.
- Eu... nem sei o que dizer.
- Tenho vrios amigos muito ricos. J falei sobre si com alguns deles. Garanto-lhe que ser famoso no minuto em que pendurar a sua tabuleta.
- Pai, os advogados penduram tabuletas - disse Lauren.
-  claro. De qualquer modo, gostaria de o financiar.
Est interessado?
Mallory tinha dificuldade em respirar:
- Bastante. Mas... no sei quando poderei pagar-lhe.
- Voc no entendeu. Eu  que estou a pagar-lhe. Voc no ir ficar a dever-me nada.
Lauren olhou melanclica para Mallory:
- Por favor, diga sim.
- Seria estpido se recusasse, no seria?
- Exacto - respondeu Lauren, suavemente. - E tenho a certeza de que no  estpido.
a caminho de casa, Ken Mallory estava eufrico. " o mximo que vais conseguir", pensou. Mas estava errado. Tornou-se ainda melhor. Lauren telefonou-lhe:
- Espero que no se importe de misturar os negcios com o prazer.
Sorriu para si prprio:
- De modo algum. O que tem em mente?
- H uma festa de caridade no prximo sbado  noite. Quer acompanhar-me?
"Oh, filha, vou acompanhar-te durante toda a noite. 
- Com todo o prazer. - Estava de servio no sbado  noite, mas iria telefonar a dizer que estava doente e eles teriam de arranjar algum que o substitusse. 
Mallory era um homem que acreditava em planeamento antecipado e o que lhe estava a acontecer agora ultrapassava os seus mais remotos sonhos. Dentro de poucos dias seria introduzido no crculo social de Lauren e a sua vida daria um enorme passo em frente. Iria danar com ela metade da noite e esperar que os dias de hospital passassem. Cada vez havia mais queixas do seu trabalho, mas ele no se importava com isso. "Em breve estarei fora daqui", disse para consigo. A ideia de deixar aquele medonho hospital estatal e possuir a sua prpria clnica era suficientemente excitante, mas Lauren era o bnus que a dona sorte lhe tinha dado. Kat estava a tornar-se um estorvo. Mallory tinha de estar sempre a arranjar desculpas para no a ver. Quando ela o pressionava, ele respondia: 
- Querida, estou louco por ti... claro que quero casar contigo, mas neste momento eu... - e inventava uma quantidade  de desculpas.
Foi Lauren quem sugeriu que os dois passassem o fim-de-semana na casa de campo da famlia, em Big Sur.  Mallory adorou a ideia. "Est tudo a correr num mar de rosas", pensou. "Vou ser o dono de todo este mundo!" A casa situava-se no meio de colinas cobertas de pinheiros e era uma construo de madeira, azulejos e pedra, virada para  o oceano Pacfico. Tinha um amplo quarto de casal, oito quartos para convidados, uma espaosa sala de estar com lareira de pedra, uma piscina interior e um enorme tanque de gua  quente. Tudo cheirava a dinheiro antigo. Quando entraram, Lauren virou-se para Mallory e disse:
- Dei o fim-de-semana de folga aos empregados.
Mallory sorriu:
- Bem pensado.
Abraou-a e acrescentou, suavemente:
- Estou louco por ti.
- Demonstra-me - afirmou Lauren.
Passaram o dia na cama e Lauren era quase to insacivel como Kat.
- Ests a acabar comigo! - disse Mallory a rir.
-Ainda bem. Quero que no consigas fazer amor com mais ningum. - Sentou-se na cama. - No existe mais ningum, existe, Ken?
- Claro que no - respondeu Mallory com sinceridade. - Para mim, no existe mais ningum no mundo seno tu. Estou apaixonado por ti, Lauren. - Tinha chegado o momento de se atirar, de resolver o seu futuro de uma vez por todas. Uma coisa era ser um mdico famoso com clnica prpria e outra  era ser o genro de Alex Harrison.
- Quero casar contigo.
Susteve a respirao, at ouvir a resposta dela.
- Oh, sim, querido - respondeu Lauren. - Sim.
No apartamento, Kat tentava desesperadamente encontrar Mallory. Ligou para o hospital.
- Lamento, doutora Hunter, mas o doutor Mallory no est de servio e no responde ao telebip.
- Ele no disse onde poderia ser encontrado?
- No temos aqui nada.
Kat desligou o telefone e voltou-se para Paige:
- Pressinto que lhe aconteceu alguma coisa. Caso contrrio, j me teria ligado.
- Kat, pode haver centenas de motivos por ainda no te ter ligado. Talvez tivesse de sair subitamente da cidade, ou...
- Tens razo. Tenho a certeza que haver uma boa desculpa. 
Kat olhou para o telefone e desejou que tocasse. Quando Mallory regressou a So Francisco, telefonou para o hospital para falar com Kat.
- A doutora Hunter no est de servio - informou a recepcionista.
- Obrigado. - Mallory ligou para o apartamento.
Kat estava l.
- Ol, querida!
- Ken! Onde estiveste? Tenho estado preocupada contigo.
Liguei para todo o lado  tua procura...
- Tive uma urgncia familiar - disse lentamente.
- Desculpa. No pude avisar-te. Tive de sair da cidade.
Posso ir a?
- Sabes que sim. Fico feliz por saber que ests bem.
Eu...
- Daqui a meia hora. - Pousou o auscultador e pensou, feliz:
"Chegou o momento", disse, "de falar de muitas coisas. Kat querida, foi muito bom, mas..., sabes como ." Quando Mallory chegou ao apartamento, Kat agarrou-se-lhe ao pescoo:
- Tive tantas saudades tuas! - No lhe podia dizer como tinha estado to desesperadamente preocupada. Os homens detestavam esse tipo de coisas. Afastou-se um pouco:
- Querido, pareces absolutamente exausto.
Mallory suspirou:
- Estou acordado h vinte e quatro horas. "Essa parte  verdade", pensou.
Kat abraou-o:
- Pobrezinho. Queres que te arranje alguma coisa?
- No, estou bem. Tudo o que preciso  de uma boa noite de sono. Vamos sentar-nos, Kat. Temos de ter uma conversa.
- Sentou-se no sof, ao lado dela.
- Passa-se alguma coisa? - perguntou Kat.
Mallory respirou fundo.
- Kat, ultimamente tenho pensado muito em ns.
Ela sorriu:
- Tambm eu. Tenho novidades para te dar...
- No, espera. Deixa-me acabar. Kat, acho que estamos a precipitar os acontecimentos. Acho... acho que te pedi em casamento demasiado cedo.
Ela ficou plida:
- Que... que ests tu a dizer?
- Estou a dizer que acho que devamos adiar tudo.
Ela sentiu que o cho lhe fugia. Tinha dificuldade em respirar.
- Ken, no podemos adiar nada. Vou ter um filho teu.
Paige chegou a casa  meia-noite, esgotada. Tivera um dia exaustivo. Nem sequer conseguira almoar e ao jantar comera apenas sanduches entre as operaes. Caiu na cama e  adormeceu instantaneamente. Foi acordada pela campainha do telefone. Tonta de sono, pegou no aparelho e automaticamente olhou para o relgio da mesinha-de-cabeceira. Eram trs da manh.
- Doutora Taylor? Peo desculpa por incomod-la, mas um dos seus doentes insiste em que a quer ver imediatamente.
A garganta de Paige estava to seca que mal podia falar.
-J sa de servio - murmurou. - No consegue arranjar mais algum...?
- Ele no fala com mais ningum. Diz que tem de ser a senhora.
- Quem ?
- John Cronin.
Endireitou-se:
- Que foi que aconteceu?
- No sei. Recusa falar com mais algum a no ser consigo.
- Est bem - disse, fatigada. - Vou j.
Trinta minutos mais tarde, Paige chegou ao hospital.
Foi directamente ao quarto de John Cronin. Ele estava  deitado,
mas acordado. Tinha tubos ligados ao nariz e aos braos.
- Obrigado por ter vindo. - A voz soou fraca e rouca.
Paige sentou-se numa cadeira ao lado da cama. Sorriu:
- No faz mal, John. De qualquer modo, no tinha mais nada para fazer a no ser dormir. O que  que posso fazer por si, que mais ningum neste imenso hospital poderia ter feito?
- Quero que converse comigo.
Paige resmungou:
- A esta hora? Pensei que fosse alguma emergncia.
- . Quero partir.
Ela abanou a cabea:
- Isso  impossvel. No pode ir para casa agora. No poderia recebr o tipo de tratamento...
Ele interrompeu-a:
- No quero ir para casa. Quero partir.
Olhou para ele e disse lentamente:
- O que  que est a dizer?
- Voc sabe o que estou a dizer. Os medicamentos j no actuam. No consigo suportar esta dor. Quero acabar com tudo.
Paige inclinou-se para a frente e pegou-lhe na mo:
-John, no posso fazer isso. Vou dar-lhe um...
- No. Estou farto, Paige. Quero ir para onde quer que seja e no quero ficar aqui a sofrer assim. J estou farto.
- John...
- Quanto tempo me resta? Alguns dias mais? J lhe disse, no suporto bem as dores. Estou aqui deitado como um animal encurralado, cheio destes malditos tubos. O meu corpo est a ser consumido por dentro. Isto no   viver;  morrer. Por amor de Deus, ajude-me! Contorceu-se todo devido a um espasmo sbito. Quando tornou a falar, a voz estava ainda mais fraca.
- Ajude-me... por favor...
Paige sabia o que tinha a fazer. Tinha de comunicar o pedido de John Cronin a Wallace Benjamin. Ele pass-lo-ia  comisso  administrativa. Esta iria reunir um grupo de mdicos para  estudar o estado de Cronin e depois tomariam uma deciso.  Depois disso, teria de ser aprovado pelo...
- Paige... a vida  minha. Deixe-me fazer com ela o que me apetecer.
Ela olhou para a figura indefesa que gemia de dores.
- Imploro-lhe...
Ela pegou-lhe na mo e segurou-a durante um longo tempo.
Quando falou, disse:
- Est bem, John. F-lo-ei.
Ele conseguiu sorrir ligeiramente:
- Sabia que podia contar consigo.
Paige inclinou-se e deu-lhe um beijo na testa:
- Feche os olhos e tente dormir.
- Boa noite, Paige.
- Boa noite, John.
John Cronin suspirou e fechou os olhos, com um sorriso beatfico no rosto. Paige ficou a v-lo, pensando naquilo que estava prestes a fazer. Lembrou-se de como tinha ficado horrorizada no seu primeiro dia de rondas com o Dr. Radnor. "H seis semanas que ela est em coma. Os sinais vitais esto a falhar. Nada mais podemos fazer por ela. Vamos desligar a mquina esta tarde. Que mal h em libertar um ser humano do sofrimento? Lentamente, como se estivesse a caminhar debaixo de gua, Paige levantou-se e dirigiu-se a um armrio do canto, onde estava guardado um frasco de insulina para ser utilizado em caso de emergncia. Pegou no frasco e ficou a olhar para ele. Em seguida, abriu-o. Encheu uma seringa de insulina e aproximou-se de John Cronin. Ainda tinha tempo para recuar. "Estou aqui deitado como um animal encurralado... Isto no  viver;  morrer. Por amor de Deus, ajude-me!" Paige inclinou-se para a frente e, lentamente, injectou a insulina no sistema IV ligado ao brao de Cronin. - Durma bem - sussurrou Paige. Nem sequer tinha percebido que soluava. Paige foi para casa e ficou acordada o resto da noite, a pensar no que tinha acabado de fazer. s seis horas da manh, recebeu uma chamada telefnica de um dos residentes do hospital. 
- Lamento dar-lhe uma m notcia, doutora Taylor.
O seu doente John Cronin morreu de ataque cardaco esta manh, muito cedo. O mdico de servio nessa manh era o Dr. Arthur Kane. Numa das vezes que Ken Mallory fora ver uma pera, tinha adormecido. Nessa noite estava a ver Rigoletto no So Francisco Opera House, com todo o prazer. Estava sentado num camarote com Lauren Harrison e o pai. Durante um intervalo,  no vestbulo da casa de pera, Alex Harrison apresentou-o a um grande nmero de amigos. 
- Este  Ken Mallory, meu futuro genro e mdico brilhante. 
Ser genro de Alex Harrison era suficiente para o tornar brilhante. Depois do espectculo, os Harrisons e Mallory foram cear na elegante sala de jantar principal do Hotel Fairmont. Mallory gostou da deferncia com que o maitre tratou Alex Harrison quando os conduziu ao lugar. "Daqui em diante, poderei entrar em lugares como este", pensou Mallory, "e todos iro saber quem sou". Depois de terem feito os pedidos, Lauren disse:
- Querido, acho que devamos fazer uma festa para anunciar o nosso noivado.
-  uma boa ideia! - afirmou o pai. - Ser uma festa  altura. O que  que acha, Ken?
Soou uma campainha de alerta na mente de Mallory. Uma festa de noivado significaria publicidade. "Primeiro, tenho de terminar tudo com Kat. Algum dinheiro e o assunto ficar arrumado." Mallory amaldioou a aposta estpida que fizera. Por uns meros dez mil dlares, talvez todo o seu brilhante futuro estivesse em risco. Imaginava o que aconteceria se tentasse explicar a existncia de Kat aos Harrisons. "A propsito, esqueci-me de dizer que j estou comprometido com uma mdica do hospital. Ela  negra..." Ou: "Querem ouvir uma coisa engraada? Apostei dez mil dlares com os rapazes do hospital que conseguiria foder esta mdica negra..."; Ou: "J tenho um casamento planeado..." "No", pensou, "tenho de descobrir uma forma de afastar Kat." Olhavam na expectativa para Mallory, que sorriu:
- Uma festa, parece-me uma ideia maravilhosa.
Lauren acrescentou, entusiasticamente:
- Ainda bem. Vou fazer os preparativos. Vocs homens nem calculam o trabalho que d organizar uma festa.
Alex Harrison voltou-se para Mallory:
-J dei um empurro em seu favor, Ken.
- Sir?
- Gary Gitlin, o director do North Shore Hospital,  um velho companheiro de golfe. Falei-lhe de si e ele disse-me  que no via qualquer inconveniente em sab-lo integrado no hospital. Isso  bastante prestigioso, sabe? Por outro lado, vou tratar da sua prpria clnica. Mallory escutou, sentindo uma enorme euforia.
- Maravilhoso.
-  claro que so precisos alguns anos para construir uma clnica verdadeiramente lucrativa, mas penso que conseguir fazer duzentos ou trezentos mil dlares no primeiro ou  segundo ano. "Duzentos ou trezentos mil dlares! Meu Deus! pensou Mallory. "Diz isso como se fossem amendoins.", 
- Isso... seria muito bom, sir.
Alex Harrison sorriu:
- Ken, uma vez que vou ser seu sogro, deixemos os sir de fora. Trate-me por Alex.
- Certo, Alex.
- Sabes, nunca fui uma noiva de Junho - disse Lauren. - Junho est bem para ti, querido?
Lembrou-se da voz de Kat: "No achas que devamos marcar a data? Pensei em Junho." Mallory apertou a mo de Lauren.
- Por mim est tudo bem. - "Isso d-me bastante tempo para resolver o assunto com Kat", decidiu. Sorriu para si. "Vou oferecer-lhe algum do dinheiro que ganhei por a ter levado para a cama."
- Temos um iate no Sul de Frana - dizia Alex. - Vocs gostariam de passar a lua-de-mel na Riviera Francesa? Podem  ir de avio at ao nosso Gulfstream. Um iate. A Riviera Francesa. Era como o sonho tornado realidade. Mallory olhou para Lauren. 
- Passaria a lua-de-mel com Lauren em qualquer lugar. 
Alex Harrison concordou:
- Bem, parece que est tudo resolvido. - Sorriu para a filha: - Vou sentir saudades, querida.
- No me est a perder, pai. Est a ganhar um mdico!
Alex Harrison concordou:
- E um muitssimo bom. Nunca poderei agradecer o suficiente por ter salvo a minha vida, Ken.
Lauren afagou a mo de Mallory:
- Agradeo-lhe por si.
- Ken, porque no almoamos juntos na prxima semana?
- perguntou Alex Harrison. - Poderemos escolher um local decente para o seu consultrio, talvez no Post Building, e marcar-lhe-ei um encontro com Gary Gitlin. Muitos dos meus amigos esto ansiosos por o conhecer.
- Acho melhor repetir isso, pai - sugeriu Lauren e voltou-se para Ken. - Tenho conversado sobre ti com as minhas amigas e tambm elas no vem o momento de te conhecerem; s que eu  no lhes vou permitir isso.
- S estou interessado em ti - respondeu Mallory, calorosamente.
Quando entraram no seu Rolls-Royce com motorista, Lauren perguntou:
- Onde podemos deixar-te, querido?
- No hospital. Tenho de ver alguns doentes. - No tinha a inteno de ver qualquer doente. Kat estava de servio no hospital.
Lauren afagou-lhe o queixo:
- Meu pobre querido. Trabalhas demasiado.
Mallory suspirou:
- No tem importncia. Desde que ajude os outros...
Mallory foi rapidamente ao vestirio dos mdicos e trocou o casaco de jantar. Encontrou Kat na ala geritrica.
- Ol, Kat.
Estava zangada:
- Tnhamos um encontro a noite passada, Ken.
- Eu sei. Desculpa. No pude aparecer e...
- a terceira vez numa semana. O que se passa?
Ela estava a tornar-se um impecilho.
- Kat, tenho de falar contigo. H por a algum quarto vazio?
Pensou por momentos:
- Saiu um doente do quarto trezentos e quinze. Vamos para l.
Comearam a atravessar o corredor. Uma enfermeira aproximou-se deles.
- Doutor Mallory! O doutor Peterson tem andado  sua procura. Ele...
- Diga-lhe que estou ocupado. - Pegou no brao de Kat e conduziu-a at ao elevador.
Quando chegaram ao terceiro andar, percorreram silenciosamente o corredor e entraram no quarto 315. Mallory fechou a porta atrs deles. Estava a arfar. Todo o seu futuro dourado dependia dos prximos minutos. Pegou na mo de Kat. Chegara o momento de ser sincero.
- Kat, sabes que sou louco por ti. Nunca senti por ningum o que sinto por ti. Mas, querida, a ideia de termos agora um filho... bem... no vs que  o momento errado? 'Quero dizer... ambos trabalhamos dia e noite, no ganhamos o suficiente para...
- Mas c nos arranjaremos - afirmou Kat. - Amo-te, Ken, e eu...
- Espera. S estou a pedir para adiar tudo por uns tempos.
Deixa-me terminar o estgio no hospital e comear a praticar clnica privada em qualquer lugar. Talvez regressemos para o leste. Dentro de alguns anos j estaremos em condies para casar e ter um filho.
- Dentro de alguns anos? Mas j te disse que estou grvida.
- Eu sei, querida, mas s passaram quantos... dois meses?
Ainda tens muito tempo para fazer um aborto. Kat olhou para ele, chocada:
- No! No farei nenhum aborto. Quero que nos casemos imediatamente. J. "Temos um iate no Sul de Frana. Gostariam de passar a  lua-de-mel na Riviera Francesa? Podem ir de avio at ao 
nosso Guljstream."
-J disse a Paige e a Honey que nos vamos casar.
Elas sero as minhas damas de honor. E j lhes contei tudo sobre o beb. Mallory sentiu um calafrio a percorrer-lhe o corpo. As coisas estavam a fugir do seu controlo. Se os Harrisons soubessem disto, acabariam consigo.
- No o devias ter feito.
- Porque no?
Mallory forou um sorriso:
- Quero manter privada a nossa vida particular. - "Vou montar a sua prpria clnica... Deve conseguir fazer duzentos a trezentos mil dlares no primeiro ou segundo ano." - Kat, vou pedir-te pela ltima vez. Fazes um aborto? - Esperava que ela dissesse sim e fez a pergunta tentando esconder o desespero que sentia.
- No.
- Kat...
- No posso, Ken. Contei-te o que senti no aborto que fiz quando era garota. Jurei que nunca mais passaria pelo mesmo.  No me peas isso. E foi nesse momento que Ken Mallory percebeu que no podia correr riscos. No havia alternativa. Teria de a matar. 
Todos os dias Honey sentia-se ansiosa por ver o doente do quarto 316. Chamava-se Sean Kelly e era um irlands bem-parecido, de cabelos e olhos negros muito brilhantes. Honey calculava que ele tivesse cerca de quarenta anos. Quando o conheceu numa das rondas, olhou para o grfico  dele e disse:
- Vejo que est aqui devido a uma colecistectomia.
- Pensei que me fosse tirar a vescula biliar.
Honey sorriu:
-  a mesma coisa.
Sean fixou nela os seus olhos negros:
- Podem tirar tudo o que quiserem, menos o meu corao. Esse pertence-lhe.
Honey desatou a rir:
- Os elogios ho-de lev-lo a todos os lados.
- Assim o espero, querida.
Sempre que Honey tinha tempo, ia ao quarto para conversar com Sean. Era encantador e divertido.
- Vale a pena ser operado s para a ter por perto, queridinha.
- No est nervoso por causa da operao? - perguntou.
- No, se for voc a operar, amor.
- No sou cirurgi. Sou interna.
- Os internos tm permisso para jantar com os seus doentes?
- No. H uma regra contra isso.
- Os internos cumprem sempre as regras?
- Sempre - respondeu Honey a sorrir.
- Acho-a bonita - disse Sean.
Nunca ningum lhe tinha dito isso. Ficou corada.
- Obrigada.
- Voc faz-me lembrar o orvalho fresco da manh nos campos de Killarney.
-J esteve na Irlanda? - perguntou Honey.
Ele riu-se:
- No, mas prometo-lhe que iremos at l juntos. Ver.
Era uma ridcula bajulao irlandesa e, no entanto...
Quando nessa tarde foi ver Sean, Honey perguntou:
- Como se sente?
-Melhor, s de a ver. J pensou no nosso jantar?
- No - disse Honey. Estava a mentir.
- Pensei que, depois da minha operao, a pudesse convidar.
No  comprometida, casada ou qualquer coisa estpida dessas, ?
Honey sorriu:
- Nada dessas coisas estpidas.
- Ainda bem! Nem eu. Quem havia de me querer?
"Muitas mulheres", pensou Honey.
- Se gosta de comida caseira, acontece que sou boa cozinheira.
- Veremos.
Quando foi ver Sean na manh seguinte, ele disse:
-Tenho um pequeno presente para si. - E entregou-lhe uma folha de papel de desenho. Nele estava um esboo leve e idealizado de Honey.
- Est lindo! - disse Honey. - Voc  um artista maravilhoso! - E subitamente lembrou-se das palavras da mdium: "Voc vai apaixonar-se. Ele  artista." Olhou de forma estranha para Sean.
- Passa-se algo de errado?
- No - respondeu Honey, lentamente. - No.
Cinco minutos mais tarde, Honey entrava no quarto de Frarlces  Gordon. A mdium estava sempre a ser readmitida para fazer uma srie de exames.
- Aqui vem a virgem!
Honey perguntou:
- Lembra-se de me ter dito que iria apaixonar-me por algum... por um artista?
- Sim.
- Bem, eu... eu penso que acabei de o conhecer.
Frances Gordon sorriu:
- V? As estrelas nunca mentem.
- Pode... pode falar-me um pouco sobre ele? Sobre ns?
- Existem cartas de tarot naquela gaveta alm. Pode trazer-mas, por favor?
Quando Honey entregou as cartas, pensou: "Isto  ridculo! No acredito nisto!" Frances Gordon estava a espalhar as cartas. Abanava constantemente a cabea, abanava e sorria e subitamente 
parou. O rosto ficou plido.
- Oh, meu Deus! - Olhou para Honey.
- O que ... que aconteceu? - perguntou Honey.
- Este artista. Diz que j o conhece?
- Penso que sim.
A voz de Frances Gordon soou triste:
- Pobre homem. - Fitou Honey. - Lamento... lamento muito.
Sean Reilly tinha a operao marcada para a manh do dia seguinte. Oito e quinze da manh. O Dr. William Radnor j se encontrava na SO dois a preparar-se para a operao. Oito e vinte e cinco da manh. Um camio que transportava o carregamento semanal de sacos de sangue parou na entrada das urgncias do Embarcadero County Hospital. O condutor levou os sacos para o banco de sangue, situado na cave. Eric Foster, o mdico residente de servio, estava a tomar caf com uma bonita e jovem enfermeira, de nome Andrea.
- Onde quer isto? - perguntou o condutor.
- Deixe-os a - respondeu Foster, apontando para um canto.
- Certo. - O condutor poisou os sacos e puxou de um formulrio. - Preciso do seu autgrafo.
- Certo. - Foster assinou o formulrio. - Obrigado.
- No tem de qu. - E o condutor saiu.
Foster virou-se para Andrea:
- Onde estvamos?
- Estavas a dizer-me como sou adorvel.
- Exacto. Se no fosses casada, andaria atrs de ti - disse o residente. - Nunca sais por a?
- No. O meu marido  pugilista.
- Oh. Tens alguma irm?
- Na realidade, tenho.
- Ela  to bonita quanto tu?
- Ainda mais.
- Como  que se chama?
- Marilyn.
- Porque no samos os quatro numa destas noites?
Enquanto conversavam, a mquina de telefax comeou a fazer barulho. Foster ignorou-a. Oito e quarenta e cinco da manh. O Dr. Radnor comeou a operar Sean Reilly. No incio, tudo correu bem.  A sala de operaes funcionou como uma mquina bem oleada, conduzida por profissionais que sabiam o que estavam a fazer. nove e cinco da manh. O Dr. Radnor atingiu o canal cstico. At esse momento, a operao correra como mandavam os livros. Quando comeou a extirpar a vescula biliar, a mo escorregou-lhe e o bisturi cortou uma artria. O sangue comeou a correr.
- Meu Deus! - disse, tentando parar a hemorragia.
O anestesista avisou em voz alta:
- A presso arterial acaba de cair para noventa e cinco. Vai entrar em estado de choque!
Radnor voltou-se para a enfermeira auxiliar:
- Mande vir mais sangue para cima, stat!
- Imediatamente, doutor.
Nove e seis da manh. O telefone tocou no banco de sangue. - No te vs embora - disse Foster a Andrea. Passou pela mquina de fax, que tinha parado de fazer barulho, e atendeu  o telefone: - Banco de sangue.
- Precisamos de quatro unidades do tipo O para a sala de operaes dois, stat.
- Certo.
Foster desligou o telefone e dirigiu-se ao canto onde fora depositado o novo sangue. Pegou em quatro sacos e colocou-os na prateleira superior do carro de transporte metlico, utilizado em caso de emergncia. Tornou a verificar os sacos. "Tipo O", disse em voz alta. Mandou chamar um funcionrio.
- O que se passa? - perguntou Andrea.
Foster olhou para o horrio  sua frente.
- Parece que um dos doentes est a dar trabalho ao doutor Radnor.
Nove e dez da manh. O funcionrio entrou no banco de sangue.
- Que temos aqui?
- Leve isto  sala de operaes dois. Esto  espera.
Ficou a ver o funcionrio afastar-se com o carro e depois voltou-se para Andrea:
- Fala-me da tua irm.
- Tambm  casada.
-Oh...
Andrea sorriu:
- Mas sai de vez em quando.
- Sai mesmo?
- Estou s a brincar. Tenho de voltar para o trabalho, Eric.
Obrigada pelo caf.
- De nada. - Ficou a v-la sair e pensou: "Que cu to bom!"
Nove e doze da manh. O funcionrio esperava pelo elevador que o levaria ao segundo andar. Nove e treze da manh. O Dr. Radnor tentava tudo por tudo para minimizar a catstrofe.
- Onde est o maldito sangue?
Nove e quinze da manh. O funcionrio bateu  porta da SO dois e a enfermeira auxiliar abriu-a.
- Obrigada - disse. Levou os sacos para a sala. - Aqui est, doutor.
- Comecem a fazer a transfuso. Rpido!
No banco de sangue, Eric Foster terminou o caf enquanto pensava em Andrea. "Todas as mulheres bonitas so casadas.  Quando se dirigiu  secretria, passou pela mquina de fax. Puxou a mensagem e leu: Chamada de Alerta 687, Junho 25: Glbulos Vermelhos, Plasma Fresco Congelado. Unidades CB83711, CB800007. Community Blood Bank of California, Arizona, Washington, Oregon. Foram distribudos produtos sanguneos repetidamente examinados e provado serem reactivos ao Anticorpo HIV tipo 1. Olhou um momento para o fax, depois aproximou-se da secretria e pegou na factura que assinara quando os sacos de sangue foram entregues. Olhou para o nmero desta. O nmero  do alerta era idntico.
- Oh, meu Deus! - disse. Pegou no telefone. - Ligue-me para a sala de operaes dois, rpido!
Atendeu uma enfermeira.
- Daqui fala o banco de sangue. Acabei de mandar para cima quatro unidades do tipo O. No utilizem! Vou j mandar outro sangue.
A enfermeira respondeu:
- Lamento mas j  demasiado tarde.
O Dr. Radnor deu a notcia a Sean Reilly.
- Foi um erro - disse Radnor. - Um erro terrvel.
Dava tudo para que no tivesse acontecido. Sean olhou para ele, chocado:
- Meu Deus! Vou morrer.
- S saberemos se  HIV positivo dentro de seis a oito semanas. E mesmo que seja, isso no significa necessariamente que ir ter sida. Iremos fazer tudo o que pudermos.
- Que mais podero fazer por mim que j no tenham feito?
- perguntou Sean em tom amargo. - Sou um homem morto.
Quando Honey soube da notcia, ficou arrasada. Lembrou-se das palavras de Frances Gordon. "Pobre homem." Sean Reilly estava a dormir quando Honey entrou no quarto. Sentou-se ao lado da cama durante muito tempo, a olhar para ele. Quando abriu os olhos, viu Honey:
- Sonhei que estava a sonhar e que no ia morrer.
- Sean...
- Veio ver o cadver?
- Por favor, no fale assim.
- Como  que isto pde acontecer? - gritou.
- Algum cometeu um erro, Sean.
- Meu Deus, no quero morrer de sida!
- Algumas pessoas com HIV nunca sofrem de sida.
Os Irlandeses so tipos com sorte!
- Quem me dera poder acreditar em si.
Honey pegou na mo dele e disse:
- Tem de acreditar.
- No sou homem para rezar - disse Sean -, mas pode ter a certeza de que passarei a faz-lo a partir deste momento.
- Rezarei consigo - afirmou Honey.
Ele sorriu de esguelha:
-Julgo que podemos esquecer aquele jantar, eh?
- Oh, no. No se livra dele com essa facilidade. Estou  ansiosa por isso.
Estudou-a por momentos:
- Est a dizer a verdade, no est?
- Pode crer que sim! Acontea o que acontecer. Lembre-se, prometeu levar-me  Irlanda.
- Sentes-te bem, Ken? - perguntou Lauren. - Pareces tenso, querido.
Estavam ss na ampla biblioteca de Alex Harrison. Uma criada e o mordomo tinham servido um jantar de seis  pratos e, durante a refeio, ele e Alex Harrison (Trate-me por Alex") tinham conversado sobre o seu brilhante futuro. - Porque ests to tenso? "Porque a puta de uma negra grvida espera que me case com ela. Porque a qualquer momento ir espalhar-se a notcia do nosso noivado e ela ficar a saber e deitar tudo por terra. Porque todo o meu futuro poder ser destrudo." Pegou na mo de Lauren:
- Acho que estou a trabalhar de mais. Para mim, os meus doentes no so apenas doentes, Lauren. So seres que sofrem  e eu no consigo deixar de me preocupar com eles. Ela afagou-lhe o rosto:
- Essa  uma das coisas que adoro em ti, Ken. Preocupas-te tanto.
- Acho que foi por isso que nasci.
- Oh, esqueci-me de te dizer. O editor social da Chronicle e um fotgrafo vm c na segunda-feira para fazerem uma entrevista.
Foi como um soco no estmago.
- H alguma possibilidade de poderes estar aqui comigo, querido? Querem tirar-te uma fotografia.
- Gostaria... de poder, mas tenho muito trabalho marcado no hospital. - O raciocnio corria veloz. - Lauren, achas boa a ideia de dar uma entrevista agora? Quero dizer, no devamos esperar at...?
Lauren deu uma gargalhada:
-No conheces a imprensa, querido. So como sanguessugas.
No,  melhor acabar com isso de uma vez. "Segunda-feira! Na manh seguinte, Mallory encontrou Kat num quarto utilitrio. Parecia cansada e abatida. No trazia maquilhagem e o cabelo no estava enrolado. "Lauren nunca sairia assim", pensou Mallory.
- Ol, querida!
Kat no respondeu.
Mallory abraou-a:
- Tenho pensado muito em ns, Kat. Ontem  noite nem consegui dormir. Para mim, no existe mais ningum.
Tu tinhas razo e eu estava errado. Acho que a notcia foi  uma espcie de choque para mim. Quero que tenhas o nosso filho.
Reparou no brilho sbito que surgiu no rosto de Kat.
- Sentes mesmo o que dizes, Ken?
- Podes crer que sim.
Atirou-se ao pescoo dele:
- Graas a Deus! Oh, querido. Estava to preocupada. No sei o que faria sem ti.
-No tens de te preocupar com isso. Daqui em diante, tudo vai ser maravilhoso. - "Nem calculas como." - Estou de folga no domingo  noite. Ests livre?
Apertou-lhe a mo:
- Farei tudo para estar livre.
- ptimo! Jantaremos num lugar sossegado e depois iremos para tua casa, para uma ltima bebida. Achas que consegues livrar-te de Paige e Honey? Quero estar sozinho contigo.
Kat sorriu:
- No h problema. No calculas como me fizeste feliz. J alguma vez te disse o quanto te amo?
- Eu tambm te amo. Mostrar-te-ei quanto no domingo  noite.
Analisando tudo de novo, Mallory decidiu que o plano era infalvel. Tinha-o preparado at ao mais pequeno pormenor. De maneira alguma poderia ser acusado da morte de Kat. Era demasiado arriscado conseguir o que queria da farmcia do hospital, pois a segurana tinha sido reforada depois do caso de Bowman. Assim, no domingo de manh muito cedo,  Mallory foi procurar uma farmcia longe das redondezas onde morava. Grande parte delas estavam fechadas ao domingo. Percorreu vrias at encontrar uma que estivesse aberta. O farmacutico atrs do balco disse:
- Bom dia. Posso servi-lo?
- Sim. Vou ver um doente nesta zona e quero aviar-Lhe uma receita. - Tirou o bloco de receitas e escreveu algo.
O farmacutico sorriu:
- Actualmente, poucos so os mdicos que fazem visitas domicilirias.
- Eu sei.  pena, no ? J ningum se preocupa. - Entregou a folha de papel ao farmacutico.
Este leu e anuiu com a cabea:
- Isto leva apenas alguns minutos.
- Obrigado.
Primeiro passo.
Nessa tarde, Mallory deu um salto ao hospital. No esteve l mais de dez minutos e, quando saiu, transportava um pequeno pacote. Segundo passo. Mallory tinha combinado encontrar-se com Kat no Trader Vic para jantar e j estava  espera quando ela chegou. Viu-a aproximar-se da mesa e pensou: " a ltima ceia, puta. Levantou-se e sorriu-lhe calorosamente:
- Ol, boneca. Ests linda. - Teve de se render: tinha um aspecto sensacional. "Poderia ter sido modelo. E  ptima na cama. Tudo o que lhe falta", pensou Mallory, "so cerca de vinte milhes de dlares, mais coisa ou menos coisa". Kat percebeu mais uma vez como as outras mulheres do restaurante olhavam para Ken, invejando-a. Mas ele s tinha olhos para ela. Era o velho Ken, amoroso e atencioso.
- Que tal foi o teu dia? - perguntou ele.
- Tive muito trabalho - suspirou Kat -, trs operaes de manh e duas  tarde. - Inclinou-se para a frente. - Sei que ainda  muito cedo, mas podia jurar que senti o beb a dar um pontap quando estava a vestir-me.
Mallory sorriu:
- Talvez queira sair c para fora.
- Devamos fazer uma ecografia para saber se  rapaz ou rapariga. Nessa altura, j poderei comear a comprar-lhe as roupinhas.
- Boa ideia.
- Ken, podemos marcar a data de casamento? Gostaria de casar o mais depressa possvel.
- No h problema - respondeu Mallory com a maior das facilidades. - Podemos pedir uma licena para a prxima semana.
- Maravilhoso! - De repente, teve uma ideia: - Talvez pudssemos tirar uns dias para irmos a qualquer lado passar a nossa lua-de-mel. Num stio no muito longe... at Oregon ou Washington.
"Errado, querida. Eu estarei em lua-de-mel em Junho, no meu iate e na Riviera Francesa.
- A ideia parece-me ptima. Vou falar com Wallace.
Kat apertou-Lhe a mo:
- Obrigada - disse baixinho. - Serei para ti a melhor esposa  do mundo.
- Tenho a certeza disso. - Mallory sorriu: - Agora come os teus legumes. Queremos que o beb seja saudvel, no  assim?
Saram do restaurante s nove da noite. Quando se aproximavam do prdio onde Kat vivia, Mallory perguntou:
- Tens a certeza que Paige e Honey no estaro em casa?
- Certifiquei-me disso - respondeu Kat. - Paige est de servio no hospital e disse a Honey que queramos estar sozinhos. "Merda!" Kat notou a expresso no rosto dele:
- Aconteceu alguma coisa?
- No, querida. J te tinha dito, gosto de manter a nossa privacidade! - "Preciso de ter cuidado", pensou.
"Muito cuidado." - Vamos depressa.
A impacincia dele excitou Kat.
J no apartamento, Mallory pediu:
- Vamos para o quarto.
- Parece-me uma ptima ideia - concordou Kat. Mallory viu Kat despir-se e pensou: "Ainda tem um corpo magnfico. Um beb iria estrag-lo."
- No te despes, Ken?
- Claro. - Lembrou-se do dia em que ela o fez despir-se e depois o abandonou. Bem, iria pagar por isso.
Tirou lentamente a roupa. "Saberei fazer teatro?"pensou. Quase tremia de nervoso. "O que vou fazer  culpa dela. No minha. Dei-lhe a oportunidade de voltar atrs e ela foi demasiado estpida em no ter aceite." Deitou-se ao seu lado na cama e sentiu-lhe o corpo contra o seu. Comearam a acariciar-se um ao outro e ele sentiu que estava a ficar excitado. Penetrou nela e ela comeou a gemer de prazer.
- Oh, querido...  to bom - Ela comeou a mover-se cada vez mais depressa. - Sim... sim... oh, meu Deus!... No pares... 
- O seu corpo comeou a mover-se bruscamente, em seguida estremeceu e permaneceu imvel nos seus braos.
Virou-se para ele e perguntou, ansiosa:
- Tu...?
- Claro - mentiu Mallory. Estava demasiado tenso.
- Que tal uma bebida?
-No. No devo beber. O beb...
- Mas, amor, isto  uma celebrao. Uma bebida curta no vai fazer mal.
Kat hesitou:
- Est bem. Uma muito curta. - Kat comeou a levantar-se.
Mallory impediu-a:
- No, no. Tu ficas na cama, "mam,". Tens de te habituar a seres mimada.
Kat olhou para Mallory enquanto este se dirigia  sala de estar e pensou: "Sou a mulher com mais sorte do mundo! Mallory aproximou-se do pequeno bar e deitou um pouco de usque em dois copos. Espreitou o quarto para se certificar  de que no podia ser visto e depois dirigiu-se ao sof, onde pousara o casaco. Tirou um pequeno frasco do bolso e deitou o contedo na bebida de Kat. Regressou ao bar, misturou a  bebida e cheirou-a. No havia qualquer odor. Levou os dois copos 
Para o quarto e entregou um a Kat.
- Vamos fazer um brinde ao nosso filho - pediu Kat.
- Certo. Ao nosso filho.
Ken viu Kat tomar um gole da bebida.
- Havemos de encontrar algures um bom apartamento - disse ela, com ar sonhador. - Montarei um berrio. Vamos estragar  o nosso filho com mimos, no vamos? - Deu outro gole.
Mallory concordou:
- Absolutamente. - Examinou-a. - Como te sentes?
- Maravilhosa. Tenho estado to preocupada connosco, querido, mas agora j no estou.
- Ainda bem - afirmou Mallory. - No tens de te preocupar com nada.
Os olhos de Kat estavam a ficar pesados.
- No - disse. - No tenho de me preocupar com nada. - As palavras comearam a fugir. - Ken, sinto-me esquisita.
- Comeava a desfalecer.
- No devias ter ficado grvida.
Olhou para ele, aparvalhada:
- O qu?
- Estragaste tudo, Kat.
- Estraguei...? - Tinha dificuldade em concentrar-se.
- Meteste-te no meu caminho.
- Qu..."
- Ningum se mete no meu caminho.
- Ken, sinto-me tonta.
Ficou ali, a v-la.
- Ken... ajuda-me, Ken... - A cabea caiu sobre a almofada.
Mallory olhou de novo para o relgio. Ainda tinha muito tempo. Honey foi a primeira a chegar ao apartamento e a encontrar o corpo mutilado de Kat cado numa poa de sangue no cho da casa de banho, de frios azulejos brancos. A seu lado, uma cureta suja de sangue. Tinha-se esvado em 
sangue pelo ventre. Honey permaneceu ali em estado de choque. - Oh, meu Deus! - A voz soou como um sussurro estrangulado. Ajoelhou-se ao lado do corpo e, a tremer, colocou o polegar contra a cartida. No havia pulsao. Honey correu para a sala de estar, pegou no telefone e discou 115. Uma voz masculina respondeu;
- Um-um-cinco, urgncias.
Honey ficou paralisada, incapaz de falar.
- Um-um-cinco, urgncias... Est l...?
- So... corro! Eu... est aqui... - Engasgara-se com as suas prprias palavras. - El... ela est morta.
- Quem est morta, miss?
- Kat.
- A sua gata (em ingls, cat) morreu?
- No! - gritou Honey. - Kat est morta. Mande algum para c, imediatamente.
- Minha senhora...
Honey desligou o telefone. Com os dedos a tremer, discou o nmero do hospital.
- A doutora Taylor. - A voz parecia um murmrio de agonia.
- Um momento, por favor.
Honey apertou o telefone e esperou dois minutos at ouvir a voz de Paige:
- Doutora Taylor.
- Paige! Tens... tens de vir imediatamente para casa!
- Honey? O que aconteceu?
- A Kat est... morta.
- O qu? - A voz de Paige soou incrdula. - Como?
-Parece... parece que tentou fazer ela mesma um aborto.
- Oh, meu Deus! Est bem. Estarei a o mais depressa possvel.

Quando Paige chegou ao apartamento, estavam l dois polcias, um detective e um inspector. Honey estava no quarto dela, com uma grande dose de calmantes. O inspector estava inclinado sobre o corpo nu de Kat. O detective levantou a cabea quando Paige entrou na casa de banho ensanguentada.
- Quem  a senhora?
Paige olhou para o corpo sem vida. Estava plida.
- Sou a doutora Taylor. Vivo aqui.
- Talvez a senhora possa ajudar-me. Sou o inspector Burns.
J tentei falar com a outra senhora que vive aqui.
Est histrica. O mdico deu-lhe um calmante.
Paige desviou o olhar da terrvel cena que estava no cho.
- O que... que deseja saber?
- Ela morava aqui?
- Sim.
"Vou ter o filho de Ken. At que ponto ser bom?"
- Parece que ela tentou livrar-se da criana e estragou tudo - disse o detective.
Paige ficou ali, com a cabea a rodar. Quando conseguiu falar, disse:
- No acredito nisso.
O inspector Burns estudou-a por momentos:
- Porque  que no acredita nisso, doutora?
- Ela queria ter o beb. - Comeava de novo a pensar com clareza. - O pai  que no queria.
- O pai?
- O doutor Ken Mallory. Trabalha no Embarcadero County Hospital. No queria casar-se com ela. Oia, Kat ... era... - tornava-se doloroso dizer que "era" - mdica. Se ela quisesse fazer um aborto, de modo algum tentaria faz-lo ela prpria na casa de banho. - Paige abanou a cabea. - Aqui h algo errado. O mdico levantou-se, afastando-se do corpo.
- Talvez tivesse tentado sozinha por no querer que mais ningum soubesse da existncia do beb.
- Isso no  verdade. Foi ela quem nos contou.
O inspector Burns olhou para Paige e perguntou:
- Ela passou a noite sozinha?
- No. Tinha um encontro com o doutor Mallory.
Ken Mallory estava deitado, a rever cuidadosamente os acontecimentos dessa noite. Reviu todos os passos, certificando-se de que no havia pontas soltas. "Perfeito" decidiu. Permaneceu deitado, a pensar no porqu da polcia levar tanto tempo a chegar e, enquanto pensava nisso, a campainha tocou. Mallory deixou-a tocar trs vezes e depois levantou-se, vestiu um roupo e dirigiu-se  sala de estar. Aproximou-se da porta:
- Quem ? - A voz soou ensonada.
Algum perguntou:
- Doutor Mallory?
- Sim.
- Inspector Burns. Departamento da Polcia de So Francisco.
- Departamento da Polcia? - Deu  voz o tom de surpresa exacto. Mallory abriu a porta.
O homem que ali se encontrava mostrou o distintivo.
- Posso entrar?
- Sim. O que se passa?
- Conhece uma doutora Hunter?
- Claro que sim. - Surgiu-lhe no rosto uma expresso de alarme. - Aconteceu alguma coisa a Kat?
- Esteve com ela esta noite?
-Sim. Meu Deus! Diga-me o que aconteceu! Ela est bem?
- Lamento, mas tenho uma m notcia. A doutora Hunter morreu.
- Morreu? No posso acreditar. Como?
- Aparentemente, tentou fazer sozinha um aborto e correu mal.
- Oh, meu Deus! - disse Mallory. Afundou-se numa cadeira.
- A culpa  minha.
O inspector examinava-o:
- Sua a culpa?
- Sim. Eu... A doutora Hunter e eu amos casar. Disse-lhe que achava que no era muito boa ideia ter um filho agora. 
Quis esperar e ela concordou. Sugeri-Lhe que fosse para o hospital para cuidarem dela, mas ela deve ter decidido... no... no consigo acreditar.
- A que horas saiu, doutor Mallory?
- Deviam ser cerca das dez horas. Deixei-a  porta e parti.
- No entrou no apartamento?
- No.
- A doutora Hunter falou sobre o que tinha planeado fazer?
- Quer dizer, sobre o...? No. Nem uma nica palavra.
O inspector Burns tirou um carto do bolso.
- Doutor, se se lembrar de mais alguma coisa que possa ser til, agradeo-lhe que me telefone.
- Com certeza. Eu... nem calcula o choque que isto foi.
Paige e Honey passaram toda a noite acordadas, a conversar sobre o que sucedera a Kat, a rever tudo uma e outra vez, sem conseguirem acreditar. s nove horas, apareceu o inspector Burns.
- Bom dia. Quis comunicar-lhes de que falei ontem  noite com o doutor Mallory.
- Ele est a mentir - assegurou Paige. Ficou pensativa:
- Espere! Encontraram algum vestgio de smen no corpo de Kat?
- Sim, de facto encontraram.
- Bem, ento - disse Paige, excitada -, isso prova que ele est a mentir. Ele levou-a mesmo para a cama e...
- Esta manh fui falar com ele sobre isso. Diz que tiveram relaes antes de sarem para jantar.
- Oh. - No iria desistir. - As impresses digitais dele estaro na cureta que utilizou para a matar. - A voz soou ansiosa. - Encontrou impresses digitais?
- Sim, doutora - respondeu, pacientemente. - Eram dela.
- Isso  imp... Espere! Ento, ele usou luvas e quando terminou, colocou as impresses dela na cureta. O que  que acha?
- Acho que algum andou a ver demasiados episdios da srie televisiva Crime, Disse ele.
- O senhor no acredita que Kat foi assassinada, no ?
- Lamento, mas no.
-J fizeram a autpsia?
- Sim.
-E?
- O mdico classificou a morte de acidental. O doutor Mallory disse-me que ela decidiu no ter o beb, por isso aparentemente ela...
- Foi para a casa de banho e golpeou-se a si prpria?
- interrompeu Paige. - Por amor de Deus, inspector! Ela era mdica, uma cirurgi! De modo algum faria uma coisa dessas a si prpria.
O inspector Burns perguntou, pensativamente:
- Acha que Mallory a persuadiu a fazer um aborto, tentou ajud-la e depois saiu quando as coisas correram mal?
Paige abanou a cabea:
- No. No podia ter acontecido assim. Kat nunca teria concordado. Ele matou-a premeditadamente. - Estava a pensar  em voz alta: - Kat era forte. Teria de estar inconsciente para
que ele... conseguisse fazer o que fez. 
- A autpsia no apresenta sinais de pancada ou de qualquer outra coisa que pudesse t-la deixado inconsciente. Nenhuma ndoa negra na garganta...
- Havia vestgios de sonferos ou...?
- Nada. - Reparou na expresso do rosto de Paige.
- No me parece que tivesse sido um assassnio. Julgo que a doutora Hunter fez um mau juzo e... desculpe.
Viu-o dirigir-se para a porta.
- Espere! - disse Paige. - O senhor tem um motivo.
Ele voltou-se.
- Nem por isso. Mallory diz que ela concordou em fazer o aborto. Isso no nos deixa muita coisa, no ?
- Deixa-vos com um assassnio - respondeu Paige, insistentemente.
- Doutora, o que no temos  qualquer prova.  a palavra dele contra a da vtima e esta morreu. Lamento imenso.
Paige viu-o retirar-se.
"No deixarei que Ken Mallory se escape desta", pensou, desesperada.
Jason foi visitar Paige.
- Soube o que aconteceu - disse. - Nem consigo acreditar!
Como  que ela foi capaz de fazer o que fez?
- No foi ela - disse Paige. - Foi assassinada. - E contou a Jason a conversa que tivera com o inspector Burns" - A  Polcia no vai fazer nada quanto a este assunto. Pensam que foi um acidente. Jason, foi por minha culpa que Kat morreu.
- Tua culpa?
- Alm do mais, fui eu que a persuadi a sair com Mallory.
Ela no queria. Tudo comeou com uma brincadeira estpida e ela depois... apaixonou-se por ele. Oh, Jason!
- No podes sentir-te culpada por isso - disse com firmeza.
Paige olhou em volta, desolada:
- No consigo continuar a viver neste apartamento.
Tenho que sair daqui.
Jason abraou-a:
- Vamo-nos casar imediatamente.
- Ainda  muito cedo. Quero dizer, Kat nem sequer foi...
- Eu sei. Esperaremos uma ou duas semanas.
- Est bem.
- Amo-te, Paige.
- Tambm te amo, querido. No  estpido? Sinto-me culpada porque tanto Kat como eu nos apaixonmos, mas ela est morta  e eu estou viva.
A fotografia surgiu na primeira pgina do San Francisco Chronicle de tera-feira. Mostrava Ken Mallory a sorrir, com  o brao  volta de Lauren Harrison. No ttulo lia-se: "Herdeira vai casar com mdico." Paige olhou, incrdula. Kat tinha morrido h apenas dois dias e Ken Mallory j anunciava o seu noivado com outra mulher! Embora estivesse sempre a prometer casar-se com Kat, j estava a planear faz-lo com mais algum. "Foi por isso que matou Kat. Para a afastar do caminho!" Paige pegou no telefone e discou o nmero da Polcia. 
- O inspector Burns, por favor.
Pouco depois, conversava com o inspector.
- Sou a doutora Taylor.
- Sim, doutora.
-J viu a fotografia que est no Chronicle desta manh?
- Sim.
- Bem, a est o seu motivo! - exclamou Paige. - Ken Mallory teve de calar Kat antes que Lauren Harrison soubesse da existncia dela. O senhor tem de o prender. - Estava quase a gritar ao telefone.
- Espere a. Acalme-se, doutora. Talvez tenhamos um mbil, mas, como lhe disse, no temos a menor prova.
A senhora mesmo disse que a doutora Hunter teria de estar inconsciente para que Mallory pudesse fazer-lhe o aborto. Depois de ter falado consigo, conversei novamente com o nosso patologista legal. No havia qualquer sinal de pancada que pudesse ter causado inconscincia.
- Ento ele deve ter-lhe dado um sedativo - insistiu Paige.
- Provavelmente hidrato de cloral. Actua rapidamente e...
O inspector Burns respondeu, pacientemente:
- Doutora, no havia vestgios de hidrato de cloral no organismo. Lamento, lamento sinceramente, mas no podemos prender um homem s porque se vai casar. Tinha mais alguma coisa para me dizer?
"Tudo.
- No - disse Paige. Furiosa, desligou e sentou-se a pensar.
"Mallory tem de ter dado alguma droga a Kat.
O lugar onde ele a poderia ter adquirido mais facilmente era  a farmcia do hospital." Quinze minutos mais tarde, Paige estava a caminho do Embarcadero County Hospital. Pete Samuels, o farmacutico-chefe, estava atrs do balco. 
- Bom dia, doutora Taylor. Em que posso ajud-la?
- Penso que o doutor Mallory esteve aqui h alguns dias atrs e levou um medicamento. Ele disse-me o nome, mas esqueci-me qual era.
Samuels franziu as sobrancelhas:
- No me lembro de ter visto aqui o doutor Mallory h pelo menos um ms.
- Tem a certeza?
Samuels anuiu:
- Absoluta. Lembrar-me-ia dele. Conversamos sempre sobre futebol.
Paige ficou deprimida.
- Obrigada.
"Deve ter entregue uma receita numa outra farmcia." Paige sabia que a lei obrigava a que todas as receitas de narcticos fossem feitas em triplicado - uma cpia para o doente, outra para ser enviada ao Bureau of Controlled Substances e uma terceira para os ficheiros da farmcia. "Algures", pensou Paige, "Ken Mallory passou uma receita. Existem provavelmente duzentas ou trezentas farmcias em So Francisco. No tinha qualquer possibilidade de descobrir a receita. O mais provvel era que Mallory a tivesse aviado pouco antes de ter assassinado Kat. Isso teria acontecido num sbado ou num domingo. Se foi no domingo, talvez haja uma possibilidade", animou-se ela. "Poucas so as farmcias que abrem ao domingo. Isso diminui a lista." Subiu ao gabinete onde se guardavam as folhas de servio e examinou a correspondente a sbado. O Dr. Mallory tinha  estado de servio nesse dia e, assim sendo, a hiptese era de ele  ter aviado a receita no domingo. Quantas farmcias estavam  abertas ao domingo em So Francisco? Paige levantou o telefone e ligou para a associao de farmcias.
- Daqui fala a doutora Taylor - disse Paige. - No domingo passado, uma amiga minha entregou uma receita numa farmcia.
Ela pediu-me para levantar os medicamentos, mas no consigo lembrar-me do nome da farmcia. Ser que me podem ajudar?
- Bem, no sei como, doutora. Se no sabe...
- Grande parte das farmcias esto fechadas ao domingo, no  assim?
- Sim, mas...
- Agradecia que me fornecessem uma lista das que abrem.
Houve uma pausa.
- Bem, se isso  importante...
-  muito importante - garantiu-lhe Paige.
- Aguarde um momento, por favor.
Na lista constavam trinta e seis farmcias, espalhadas pela cidade. Teria sido mais simples se ela pudesse ter pedido ajuda  Polcia, mas o inspector Burns no acreditava nela. "Honey e eu teremos de fazer isto sozinhas", decidiu. Explicou a Honey o que tinha em mente.
-  realmente um caso difcil, no ? - disse Honey.
- Nem sequer sabes se ele passou a receita no domingo.
-  a nossa nica esperana. - "E tambm de Kat."
- Vou verificar as de Richmond, Marina, North Beach, Upper Market, Mission e Potrero; tu verificas as da zona de Excelsior, Ingleside, Lake Merced, Western Addition e Sunset.
Na primeira farmcia onde entrou, Paige identificou-se e disse:
- Um colega meu, o doutor Ken Mallory, esteve aqui no domingo para aviar uma receita. Ele foi para fora da cidade e pediu-me para levantar mais uma dose do medicamento, mas esqueci-me do nome. Importa-se de verificar, por favor?
- Doutor Ken Mallory?  s um momento. - Regressou minutos mais tarde. - Lamento, no domingo no avimos qualquer  receita do doutor Mallory.
- Obrigada.
Paige obteve a mesma resposta nas quatro farmcias seguintes. Honey no estava a ter melhor sorte.
- Sabe, temos aqui milhares de receitas.
- Sei, mas esta foi no domingo.
- Bem, no temos nenhuma receita desse tal doutor Mallory.
Lamento. As duas passaram o dia a ir de farmcia em farmcia. Ambas estavam a ficar desencorajadas. S no final da tarde, pouco antes da hora de fecho,  que Paige encontrou o que procurava numa pequena farmcia do distrito de Potrero. O farmacutico disse:
- Oh, sim, aqui est. Doutor Ken Mallory. Lembro-me dele . Ia fazer uma visita mdica a um doente. Fiquei impressionado porque actualmente poucos so os mdicos que fazem isso. "Um residente nunca faz visitas mdicas."
- A receita era para qu?
Paige ficou em suspense.
- Hidrato de cloral.
Quase tremia de excitao:
- Tem a certeza?
- Pelo menos,  o que diz aqui.
- Quem era o doente?
Ele olhou para a cpia da receita e disse:
- Spyros Levathes.
- Importa-se de me dar uma cpia dessa receita? - perguntou Paige.
- De modo algum, doutora.
Uma hora mais tarde, Paige encontrava-se no gabinete do inspector Burns. Pousou a receita na secretria.
- Aqui est a sua prova - disse Paige. - No domingo, o doutor Mallory foi a uma farmcia longe do local onde vive e aviou esta receita de hidrato de cloral. Ele deitou o hidrato de cloral na bebida de Kat e, quando ela ficou inconsciente, esfaqueou-a de forma a parecer acidental.
- Existe apenas um problema, doutora Taylor. No havia qualquer vestgio de hidrato de cloral no organismo dela.
- Tem de haver. O seu patologista cometeu um erro.
Pea-lhe para verificar de novo.
O inspector comeava a perder a pacincia:
- Doutora...
- Por favor! Sei que tenho razo.
- A senhora est a fazer com que todos percam tempo.
Paige sentou-se  frente, com os olhos fixos nele.
O inspector suspirou:
- Est bem. Vou falar outra vez com ele. Talvez tenha cometido mesmo um erro.
Jason foi buscar Paige para jantarem juntos.
- Vamos jantar em minha casa - disse. - Tenho uma coisa que gostaria que visses.
Durante o trajecto, Paige contou a Jason tudo o que descobrira.
- Ho-de descobrir o hidrato de cloral no organismo dela - disse Paige. - E Ken Mallory h-de receber o que bem merece.
- Lamento tanto tudo isto, Paige.
- Eu sei. - Pegou na mo dele e encostou-a  sua prpria cara. - Graas a Deus que existes.
O carro parou em frente  casa de Jason. Paige olhou pela janela e deu um salto.  volta do relvado havia uma vedao branca. Estava sozinha no apartamento, com as luzes apagadas. Ken Mallory utilizou a chave que Kat lhe tinha dado e dirigiu-se rapidamente ao quarto. Paige ouviu os passos na sua direco mas, antes de se poder mover, j ele saltara sobre ela e colocara as mos em volta do pescoo.
- Sua cabra! Ests a tentar destruir-me. Bem, no vais vasculhar mais nada. - Comeou a apertar com mais fora. -  Fui mais esperto do que todos vs, no fui? - As mos apertaram ainda mais. - Ningum conseguir provar que matei Kat. Ela tentou gritar, mas era impossvel respirar. Lutou para se libertar e, subitamente, acordou. Estava sozinha no seu quarto. Paige sentou-se na cama, a tremer.  Passou o resto da noite acordada,  espera da chamada do inspector Burns. Esta chegou s dez da manh.
- Doutora Taylor?
- Sim. - Susteve a respirao.
- Acabei de receber o terceiro relatrio do patologista legal.
- E? - O corao comeou a bater mais depressa.
- No havia nenhum vestgio de hidrato de cloral ou de qualquer outro sedativo no organismo da doutora Hunter. Nenhum. Isso era impossvel! Tinha de ser. No havia sinais de pancada ou qualquer outra coisa que a tivesse deixado inconsciente. Nenhuma ndoa negra na garganta. Nada daquilo fazia sentido. Kat tinha de estar inconsciente quando Mallory a matou. O patologista legal estava errado. Paige decidiu ir falar ela prpria com o patologista. O Dr. Dolan estava irritado:
- No gosto que duvidem assim - disse. - Verifiquei trs vezes. Disse ao inspector Burns que no havia qualquer vestgio de hidrato de cloral em nenhum dos rgos dela, e realmente no havia.
- Mas...
- Mais alguma coisa, doutora?
Paige olhou para ele, desolada. Tinha perdido a sua ltima esperana. Ken Mallory iria safar-se do assassnio que cometera.
-Julgo... que no. Se no encontrou nenhum produto qumico no organismo dela, eu no...
- No disse que no tinha encontrado nenhum produto qumico.
Olhou um momento para ele:
- Encontrou alguma coisa?
- Apenas um vestgio de tricloroetileno. Na descrio lia-se: "Um lquido voltil, incolor e transparente, com a  gravidade especfica de 1,47 a 59 graus F. E um hidrocarbono halogenizado, com a frmula qumica CCl2, CHCl. E finalmente, no ltimo minuto, ela encontrou o que procurava. "Quando o hidrato de cloral se metaboliza produz tricloroetileno como subproduto."
- Inspector, est aqui a doutora Taylor.
- Outra vez? - Sentiu vontade de no a receber. Estava obcecada com a ideia do assassnio. Tinha de acabar com aquilo. - Mande-a entrar. - Quando Paige entrou no gabinete, ele adiantou-se: - Olhe, doutora, acho que isto j foi longe de mais. O doutor Dolan queixou-se de que...
- Eu sei como  que Ken Mallory fez tudo! - A voz soou bastante excitada. - Havia tricloroetileno no organismo de Kat.
Ele anuiu:
- O doutor Dolan disse-me isso - concordou Burns. - Mas tambm me disse que no podia t-la deixado inconsciente.
Ele...
- O hidrato de cloral transforma-se em tricloroetileno!
- disse Paige, triunfante. - Mallory mentiu quando disse que no regressou com Kat ao apartamento. Deitou o hidrato de cloral na bebida dela. No tem sabor quando misturado com lcool e leva apenas alguns minutos a actuar. Depois, quando ela ficou inconsciente, matou-a e fez com que parecesse um aborto mal sucedido.
- Doutora, peo desculpa pelo que vou dizer, mas isso  muita especulao junta.
- No, no . Ele escreveu a receita para um doente chamado Spyros Levathes, mas nunca lhe deu.
- Como sabe isso?
- Porque no podia. Verifiquei o Spyros Levathes.
Sofre de erythropoietir porphyria.
- O que  isso?
-  um problema metablico gentico. Causa fotossensibilidade e leses, hipertenso, taquicardia e  alguns outros sintomas desagradveis.  o resultado de um gene defeituoso.
- Ainda no compreendo.
- O doutor Mallory no deu hidrato de cloral ao doente porque mat-lo-ia! O hidrato de cloral  contra-indicado para a porphyria. Teria causado convulses imediatas.
Pela primeira vez, o inspector Burns ficou impressionado.
- A senhora trabalhou mesmo bem, no foi?
Paige continuou:
- Porque  que Ken Mallory iria a uma farmcia distante aviar uma receita a um doente que sabia que no podia tomar esse medicamento? O senhor tem de o prender.
Tinha as mos apoiadas na secretria:
- No  assim to simples.
- O senhor tem de...
O inspector Burns levantou uma mo:
- Est bem. Digo-lhe o que irei fazer. Entrarei em contacto com o gabinete do promotor pblico e verei se acham que temos aqui um caso.
Paige sabia que tinha feito tudo o que podia.
- Obrigada, inspector.
- Falarei consigo depois.
Assim que Paige Taylor saiu, o inspector Burns ficou a pensar na conversa. No havia qualquer prova insofismvel contra o Dr. Mallory, mas apenas a suspeita de uma mulher persistente. Reviu os poucos factos que possua. O Dr. Mallory tinha-se comprometido com Kat Hunter. Dois dias depois de ela ter morrido, estava comprometido com  a filha de Alex Harrison. Interessante, mas no contra a lei. Mallory dissera que deixara a Dra. Hunter  porta do apartamento e que no entrara. Foi encontrado smen no corpo dela, mas ele deu uma explicao plausvel para isso. Depois surgiu o hidrato de cloral. Mallory tinha aviado uma receita desse medicamento para um doente que, se o tivesse tomado, morreria. Era culpado de assassnio? Ou no? Burns chamou a secretria atravs do intercomunicador. - Brbara, marque-me uma reunio com o promotor pblico para esta tarde. Estavam quatro homens no gabinete, quando Paige entrou: o promotor pblico, o seu assistente, um homem chamado Warren e o inspector Burns. - Obrigada por ter vindo, doutora Taylor - agradeceu o promotor pblico. - O inspector Burns falou-me do seu interesse na morte da doutora Hunter. Admiro isso. A doutora Hunter era sua companheira e a senhora quer que a justia  seja cumprida. "Ento, apesar de tudo, vo prender Ken Mallory!"
- Sim - afirmou Paige. - No h qualquer dvida.
O doutor Mallory matou-a. Quando o prenderem, ele...
- Lamento, mas no podemos fazer isso.
Paige ficou plida a olhar para ele:
- O qu?
- No podemos prender o doutor Mallory.
- Mas porqu?
- No temos caso.
-  claro que tm! - exclamou Paige. - O tricloroetileno prova que...
- Doutora, no tribunal, a ignorncia da lei no  desculpa.
Mas ignorncia em medicina .
- No compreendo.
-  simples. Significa que o doutor Mallory poderia afirmar que cometeu um erro ou que no sabia que efeitos o hidrato de cloral causaria ao doente com porphyria. Ningum conseguiria provar que estava a mentir. Isso pode provar que  um pssimo mdico, mas no provaria que   culpado de assassnio. Paige olhou para ele, frustrada:
- Vai deix-lo escapar do que fez?
Ele estudou-a por momentos:
- Vou dizer-lhe o que pretendo fazer. J conversei sobre este assunto com o inspector Burns. Se nos autorizar, enviaremos algum ao seu apartamento para ir buscar os copos do bar. Se encontrarmos vestgios de hidrato de cloral, daremos o passo seguinte.
- E se ele os lavou?
O inspector Burns respondeu, secamente:
- No acredito que ele tivesse tempo para utilizar detergente. Se tiver apenas passado os copos por gua, descobriremos o que estamos  procura.
Duas horas mais tarde, o inspector Burns falava ao telefone com Paige.
- Fizemos uma anlise clnica de todos os copos do bar, doutora - disse Burns. Paige estava to desapontada que ficou esttica. - Encontrmos um com vestgios de hidrato de  cloral.
Paige fechou os olhos e fez uma silenciosa orao de agradecimento.
-E havia impresses digitais nesse copo. Vamos compar-las com as do doutor Mallory.
Paige sentiu uma onda de excitao. O inspector continuou:
- Quando a matou, se realmente a matou, calava luvas para que as suas impresses digitais no fossem encontradas na cureta. Mas no podia ter servido a bebida com as luvas caladas e talvez no as tivesse quando voltou a colocar os copos no lugar, depois de os ter passado por gua.
- No - disse Paige. - No podia, pois no?
- tenho de admitir que, no incio, no acreditei que a sua teoria resultasse nalguma coisa. Agora penso que o doutor Mallory pode ser o nosso homem. Mas prov-lo vai ser outro assunto. - E continuou. - O promotor pblico tem razo. Ser difcil levar Mallory a tribunal. Ainda pode afirmar que a receita era para o doente dele. No existe qualquer lei contra um erro mdico. No vejo como...
- Espere a! - disse Paige, excitada. - Acho que sei como!
Ken Mallory ouvia o que Lauren dizia ao telefone. 
- O pai e eu encontrmos um escritrio que vais adorar, querido!  uma suite magnfica do Post Building quatrocentos  e noventa. Vou contratar uma recepcionista para ti; algum que no seja muito bonita. Mallory deu uma gargalhada:
- No tens de te preocupar com isso, doura. Para mim, no existe mais ningum no mundo seno tu.
- Estou ansiosa que o vejas. Consegues sair agora?
- Saio dentro de duas horas.
- Maravilha! Porque no me vens buscar a casa?
- Est bem. Estarei a. - Mallory desligou o telefone. " impossvel tornar-se melhor do que isto", pensou.
"Existe no um deus mas uma deusa, e ela adora-me." Ouviu o seu nome no sistema de altifalantes: "Dr. Mallory... Quarto 430... Dr. Mallory... Quarto 430." Deixou-se ficar sentado a sonhar acordado e a pensar no futuro dourado que o esperava. "Uma suite magnfica do Post Building 490, cheio de velhas ricas e ansiosas por lhe atirarem o seu dinheiro." Ouviu de novo o seu nome. "Dr. Mallory... Quarto 430." Suspirou e levantou-se. "Muito em breve estarei longe desta maldita casa de loucos", pensou. E dirigiu-se ao quarto 430. Um residente esperava-o no corredor, junto ao quarto. 
- Julgo que temos aqui um problema - disse. -  um dos doentes do doutor Peterson, mas o doutor no est aqui. Tive uma discusso com um dos outros mdicos.
Entraram. Estavam mais trs pessoas no quarto: um homem deitado, uma enfermeira e um mdico que Mallory nunca tinha visto antes. O residente apresentou-os:
- Este  o doutor Edwards. Precisamos dos seus conselhos, doutor Mallory.
- Qual  o problema?
O residente explicou:
- Este doente sofre de erythropoietic porphyria e o doutor Edwards insiste em dar-lhe um sedativo.
- No vejo onde est o problema.
- Obrigado - disse o Dr. Edwards. - O homem no dorme h quarenta e oito horas. Receitei-lhe hidrato de cloral para  que possa descansar e...
Mallory olhou para ele, incrdulo:
- Est louco? Isso pode mat-lo! Teria convulses, taquicardia e provavelmente acabaria por morrer. Onde diabo estudou medicina?
O homem olhou para Mallory e respondeu calmamente:
- No estudei. - Puxou do distintivo. - Trabalho no Departamento de Polcia de So Francisco, Homicdios.
- Voltou-se para o homem que estava deitado.
- Captou tudo?
O homem retirou um gravador colocado debaixo da almofada:
- Tudo.
Mallory olhava de um para o outro, de sobrancelhas franzidas:
- No compreendo. O que  isto? O que se passa?
O inspector voltou-se para ele:
- Doutor Mallory, o senhor est preso pelo assassnio da doutora Kat Hunter.
Na primeira pgina do San Francisco Chronicle lia-se:
MDICO PRESO NUM TRINGULO AMOROSO. A histria por baixo era bastante longa, para relatar em pormenor os factos lridos do caso. Mallory leu o jornal na cela. Atirou com ele para o cho. O companheiro de cela disse:
- Tudo indica que foste apanhado em cheio, amigo.
- No acredite nisso - disse Mallory, confidencialmente.
- Tenho bons conhecimentos e eles iro contratar o melhor advogado do mundo. Sairei daqui dentro de vinte e quatro horas. S tenho de fazer um telefonema.
Os Harrisons liam o jornal  mesa do pequeno-almoo. 
- Meu Deus! - exclamou Lauren. - Ken! No posso acreditar!
O mordomo aproximou-se com o tabuleiro do pequeno-almoo.
- Desculpe, Miss Harrison. O doutor Mallory est ao telefone. Julgo que est a telefonar da cadeia.
- Eu atendo.
Lauren comeou a levantar-se da mesa.
- Tu ficas aqui a tomar o pequeno-almoo - disse Alex Harrison com firmeza. Virou-se para o mordomo:
- No conhecemos nenhum doutor Mallory.
Paige leu o jornal enquanto se vestia. Mallory iria ser castigado pelo terrvel acto que cometera, mas isso no  causou satisfao a Paige. Nada do que lhe pudessem fazer traria Kat de volta. A campainha da porta soou e ela foi atender. Deparou-se-Lhe um estranho. Vestia fato escuro e trazia uma pasta.
- Doutora Taylor?
- Sim...
- Chamo-me Roderick Pelham. Sou advogado da Rothman Rothman.
Posso entrar?
Paige estudou-o, confusa:
- Sim.
Ele entrou no apartamento.
- O que deseja de mim?
Viu-o abrir a pasta e retirar alguns papis.
- Tem conhecimento, claro, de que  a principal beneficiria do testamento de John Cronin?
Paige ficou branca a olhar para ele:
- De que  que est a falar? Deve haver algum erro.
- Oh, no existe qualquer erro. O senhor Cronin deixou-lhe a soma de um milho de dlares.
Paige afundou-se na cadeira, estupefacta, tentando lembrar-se. "Tem de ir  Europa. Faa-me um favor. V a Paris... fique no Crillon, jante no Maxim's, pea um bife grande e espesso e uma garrafa de champanhe e, quando estiver a comer  o bife e a beber o champanhe, quero que pense em mim." 
- Se fizer o favor de assinar aqui, poderemos tratar de toda a papelada necessria.
Paige levantou a cabea:
- Eu... no sei o que dizer. Eu... ele tinha famlia.
- De acordo com os termos do testamento, eles recebero apenas o restante dos bens, que no perfazem uma importncia muito grande.
- No posso aceitar isto - disse-lhe Paige.
Pelham olhou para ela, surpreendido:
- Porque no?
No soube responder. John Cronin tinha querido que ela ficasse com esse dinheiro.
- No sei. De... certa maneira, isso parece-me pouco tico.
Ele era meu doente.
- Bem, vou deixar o cheque aqui consigo. A senhora poder decidir o que fazer com ele. Assine aqui, por favor.
Paige assinou o papel ainda confusa.
- Adeus, doutora.
Acompanhou-o  porta e sentou-se a pensar em John Cronin. A notcia da herana de Paige era tema de conversa em todo o hospital. Por um lado, Paige desejara que ningum soubesse do assunto. Ainda no tinha decidido o que fazer com o dinheiro. "No me pertence", pensou. "Ele tinha famlia." Paige ainda no estava emocionalmente apta a regressar ao trabalho, mas os doentes precisavam dela. Tinha uma operao marcada para essa manh. Arthur Kane esperava por Paige no corredor. Nunca mais tinham falado um com o outro, desde o incidente das radiografias invertidas. Embora Paige no tivesse provas de que fora Kane, o acontecimento tinha-a marcado profundamente.
- Ol, Paige. Vamos esquecer tudo o que se passou.
O que diz a isso?
Paige encolheu os ombros: - Est bem.
- No acha terrvel o caso de Ken Mallory? - perguntou.
- Sim - respondeu Paige.
Kane olhou para ela, pelo canto do olho:
- Consegue imaginar um mdico a matar deliberadamente um ser humano?  horrvel, no acha?
- Sim.
- "A propsito - disse - parabns. Soube que  milionria. - No vejo...
- Tenho bilhetes para a pea de teatro desta noite, Paige.
Pensei que pudssemos ir os dois.
- Obrigada - agradeceu Paige. - Estou comprometida com outra pessoa.
- Ento, sugiro que quebre o compromisso.
Olhou para ele, surpreendida:
- Como disse?
Kane aproximou-se mais dela:
- Mandei fazer uma autpsia a John Cronin.
Paige sentiu que o corao batia mais depressa:
- Sim? 
- No morreu de ataque cardaco. Algum lhe deuuma dose excessiva de insulina. Acho que esse algum em particular no contou com uma autpsia. A boca de Paige ficou subitamente seca.
- Voc estava presente quando ele morreu, no estava?
Hesitou:
- Sim.
- S eu sei disso e s eu tenho o relatrio. - Deu-lhe uma palmadinha no ombro. - E a minha boca est selada. Agora, quanto aos bilhetes desta noite...
Paige afastou-se dele:
- No!
- Tem a certeza de que sabe o que est a fazer?
Respirou fundo:
- Sim. Agora, se me der licena... - E afastou-se.
Kane olhou para ela e o rosto endureceu. Deu meia volta e dirigiu-se ao gabinete do Dr. Benjamin Wallace. O telefone acordou-a  uma da manh, no apartamento.
- Foste outra vez muito malandra.
Era de novo a mesma voz rouca, tentando disfarar falando num sussurro, mas desta vez Paige reconheceu-a.
"Meu Deus", pensou, eu tinha razo em ter medo.
Na manh seguinte, quando Paige chegou ao hospital, dois homens esperavam-na.
- Doutora Paige Taylor?
- Sim.
- Tem de nos acompanhar. Est presa pelo assassnio de John Cronin.
Era o ltimo dia do julgamento de Paige. Alan Penn, o advogado de defesa, expunha o seu sumrio ao jri. - Senhoras e senhores, j ouviram muitos testemunhos acerca da competncia ou incompetncia da doutora Taylor. Bom, a juza Young dir-vos- que no  esse o assunto que se est a tratar neste julgamento. Tenho a certeza que, para cada  mdico que no aprovou o trabalho dela, poderamos arranjar uma  dzia que aprovou. Mas no se trata disso. "Paige Taylor est a ser julgada pela morte de John Cronin. Admitiu t-lo ajudado a morrer. F-lo porque ele sofria muito e porque lhe pediu que o fizesse. Isso  eutansia, cada vez mais aceite em todo o mundo. No ano passado, o Tribunal Superior de Califrnia defendeu o direito de um adulto mentalmente competente recusar ou exigir a retirada de qualquer tipo de tratamento mdico.  o indivduo que tem de viver ou morrer durante o curso do tratamento escolhido ou rejeitado. - Olhou para o rosto dos jurados: - A eutansia  um crime de compaixo, de misericrdia, e atrevo-me a dizer que acontece de uma ou  outra maneira em hospitais de todo o mundo. O advogado de acusao apela  pena de morte. No o deixem confundir o assunto. Nunca houve pena de morte para a eutansia. Sessenta e trs por cento dos Americanos acreditam que a eutansia devia ser legal e, em dezoito estados deste pas,  legal. A pergunta : temos o direito de obrigar doentes indefesos a viver com dores, for-los a manterem-se vivos e a sofrer? A pergunta tornou-se complicada devido aos grandes avanos ocorridos na tecnologia mdica. Entregmos a mquinas os cuidados a ter com os doentes. As mquinas no  so misericordiosas. Se um cavalo partir uma pata, acabamos com o seu sofrimento dando-lhe um tiro. Com um ser humano, condenamo-lo a metade da vida, o que  infernal. "A doutora Taylor no decidiu quando  que John Cronin deveria morrer. John Cronin  que decidiu. No confundam o caso; o que a doutora Taylor fez foi um acto de misericrdia. Assumiu toda a responsabilidade desse acto. Mas podem ter a certeza de que ela nada sabia da herana que lhe fora  deixada. O que fez, f-lo num esprito de compaixo. John Cronin era  um homem de corao fraco com um cancro incurvel que se espalhara por todo o corpo, causando-lhe agonia. Perguntem-se a vs prprios. Nessas circunstncias, gostariam de continuar a viver? Obrigado. - Deu meia volta, regressou  mesa e sentou-se ao lado de Paige.  Venable levantou-se e aproximou-se do jri:
-Compaixo? Misericrdia? - Olhou para Paige, abanou a cabea e tornou a virar-se para o jri: - Senhoras e  senhores, exero direito em tribunais h mais de vinte anos e devo dizer-lhes que, durante todos esses anos nunca, mas nunca, vi um caso to claro de assassnio deliberado a sangue-frio e s por dinheiro. Paige, tensa e plida, escutava cada palavra.
- A defesa falou de eutansia. Ser que a doutora Taylor fez o que fez por compaixo? No acredito. A doutora Taylor e outros testemunharam que o senhor Cronin tinha apenas mais alguns dias de vida. Porque  que ela no o deixou viver esses dias? Talvez tenha sido porque a doutora Taylor receou que a senhora Cronin viesse a saber das alteraes ao testamento do marido, e assim acabou com o problema. " uma coincidncia bastante notvel que, imediatamente aps o senhor Cronin ter alterado o testamento e deixado  doutora Taylor a soma de um milho de dlares, ela lhe d uma dose excessiva de insulina para o matar. "Uma e outra vez, a r condenou-se a si mesma com as suas prprias palavras. Afirmou que tinha um relacionamento amigvel com John Cronin, que ele gostava dela e a  respeitava. Mas ouviram testemunhas afirmarem que ele odiava a doutora Taylor, que a chamou de "aquela puta" e lhe disse `para  manter a merda das suas mos longe dele. Gus Venable olhou novamente para a r. Notava-se um ar de desespero no rosto de Paige. Voltou-se para o jri: 
- Um advogado testemunhou que a doutora Taylor disse, sobre o milho de dlares que lhe tinham sido deixados: " pouco tico. Ele era meu doente." Mas aceitou o dinheiro. Precisava
dele. Tinha em casa uma gaveta cheia de revistas de  viagens... Paris, Londres, a Riviera. E no se esqueam de que ela no voltou  agncia de viagens depois de receber o dinheiro. Oh, no. Planeou essas viagens antes. Tudo o que precisava era de dinheiro e de uma oportunidade; e John Cronin forneceu ambas as coisas. Um  homem indefeso e moribundo a quem podia controlar. Tinha  sua  merc um homem que admitiu estar a sofrer muito... isto , estar em agonia, segundo o que ela mesmo admitiu. Quando se sofre assim, pode-se imaginar como  difcil pensar com clareza.  No sabemos como  que a doutora Taylor persuadiu John Cronin a alterar o testamento, retirando a famlia a quem amava e tornando-a na sua principal beneficiria. O que realmente sabemos  que a chamou para junto de si nessa noite fatal. De que  que falaram? Ter ele oferecido um milho de dlares para que ela acabasse com o seu sofrimento?  uma possibilidade que temos de encarar. Em qualquer dos casos,  foi um assassnio a sangue-frio. "Senhoras e senhores, sabem quem foi a testemunha mais redundante de todas, durante este julgamento? - Apontou um dedo acusador a Paige: - A prpria r! Ouviram-na testemunhar que nunca violara o sagrado juramento de Hipcrates, mas mentiu. Ouvimos testemunhos de que ela fizera uma transfuso ilegal e mais tarde falsificara o registo. Afirmou nunca ter morto qualquer doente  excepo  de John Cronin, mas ouvimos testemunhos de que o doutor Barker, um mdico respeitado por todos, a acusara de ter morto um seu doente. "Infelizmente, senhoras e senhores, Lawrence Barker sofreu um enfarte e no pode estar aqui hoje para testemunhar contra a r. Mas permitam que vos recorde a opinio que o doutor Barker tinha da r. Este  o doutor Peterson, que testemunha sobre um doente a quem a doutora Taylor operou. Leu a transcrio: - "O doutor Barker entrou na sala de operaes durante a cirurgia?" - "Sim." E o doutor Barker disse alguma coisa? - Resposta: "Voltou-se para a doutora Taylor e disse: `Voc matou-o. - Esta  da enfermeira Berry. "Conte algumas coisas especficas que ouviu o doutor Barker dizer  doutora Taylor. - Resposta: "Disse que ela era incompetente... Noutra altura afirmou que no a deixaria operar o seu co." Gus Venable levantou a cabea: - Ou existe alguma conspirao, onde todos estes mdicos e enfermeiras de boa reputao mentem acerca da r, ou a  doutora Taylor  uma mentirosa. No s mentirosa, como patologicamente... A porta do fundo da sala de tribunal abriu-se, dando passagem a um ajudante. Parou um momento  entrada, tentando tomar uma deciso. Em seguida, percorreu a passagem entre as cadeiras e aproximou-se de Gus Venable. - Sir...
Gus Venable voltou-se, furioso:
- No v que eu...?
O ajudante segredou-lhe ao ouvido.
Gus Venable olhou para ele, abismado:
- O qu? Isso  maravilhoso.
A juza Young inclinou-se para a frente e disse muito baixinho:
- Perdoem a interrupo, mas o que esto exactamente a fazer?
Gus Venable virou-se para a magistrada, excitado:
- Meritssima, acabei de ser informado que o doutor Lawrence Barker est no lado de fora desta sala. Veio numa cadeira de rodas, mas est em condies de testemunhar. Gostaria de o chamar ao banco das testemunhas. Levantou-se um murmrio na sala.  Alan Penn levantou-se:
- Protesto! - gritou. - A acusao est a meio do seu sumrio. No h motivo para chamar uma nova testemunha numa hora to tardia. Eu... A juza Young bateu com o martelo:
- Queiram fazer o favor de se aproximarem da tribuna. 
Penn e Venable dirigiram-se  tribuna.
- Isto  bastante irregular, meritssima. Oponho-me...
A juza Young disse:
- Tem razo quando diz ser irregular, doutor Penn, mas est enganado quando diz no haver motivo. Posso citar uma dzia  de casos por todo o pas, onde as testemunhas materiais foram autorizadas a testemunhar em circunstncias especiais. Na realidade, se est to interessado em motivos, dever ler o caso que teve lugar nesta sala h cinco anos. Aconteceu que fui eu a juza.
Alan Penn engoliu em seco: 
- Isso significa que vai autorizar que ele testemunhe?
A juza Young ficou pensativa:
- Uma vez que o doutor Barker  uma testemunha material para este caso e estava impossibilitado de testemunhar mais cedo, no interesse da justia vou permitir que ele apresente o seu testemunho.
- Excepo! Nada prova que a testemunha  competente para testemunhar. Exijo uma equipa de psiquiatras...
- Doutor Penn, nesta sala de tribunal, ns no exigimos. Ns pedimos. - Voltou-se para Gus Venable. - Pode mandar entrar a sua testemunha.
Alan Penn permaneceu imvel, sentindo-se derrotado. "Acabou tudo", pensou. "Tudo se desmoronou." Gus Venable virou-se para o ajudante.
- Mande entrar o doutor Barker.
A porta abriu-se lentamente e o Dr. Lawrence Barker, numa cadeira de rodas, entrou na sala de tribunal. Tinha a cabea inclinada e num dos lados do rosto notava-se um ligeiro  ricto. Todos olharam para a figura plida e frgil a ser empurrada at  frente da sala. Quando passou por Paige, levantou a cabea e olhou para ela. Nada havia de amigvel no seu olhar, o que fez com que Paige se lembrasse das suas ltimas palavras: "Quem raio julga que...?" Quando Lawrence Barker j se encontrava perante o banco, a juza Young inclinou-se para a frente e perguntou  gentilmente:
- Doutor Barker, est em condies de testemunhar hoje?
Quando Barker falou, mal se lhe ouviam as palavras:
- Estou, meritssima.
- Est totalmente ciente do que se passa nesta sala de tribunal?
- Sim, meritssima. - Olhou para onde Paige estava sentada.
- Aquela mulher est a ser julgada pelo assassnio de um doente.
Paige estremeceu. "Aquela mulher!"
A juza Young tomou a deciso. Virou-se para o almoxarife.
- Por favor, pode fazer a testemunha prestar juramento?
Depois de o Dr. Barker ter prestado juramento, a juza Young disse:
- Pode ficar na cadeira, doutor Barker. A acusao poder prosseguir e ir permitir que a defesa contra-interrogue.
Gus Venable sorriu:
- Obrigado, meritssima. - Aproximou-se da cadeira de rodas.
- Doutor, no vamos empat-lo muito tempo e o tribunal agradece-lhe sinceramente que tenha vindo testemunhar nestas circunstncias to penosas. Tem conhecimento de algum dos testemunhos que aqui foram apresentados durante o ltimo ms?
O Dr. Barker anuiu:
- Tenho seguido o caso pela televiso e atravs dos jornais e ficado enojado com tudo.
Paige tapou a cara com as mos. Era tudo o que Gus Venable podia fazer para esconder a sensao de triunfo.
- Tenho a certeza de que muitos de ns se sentem da mesma maneira, doutor - disse a acusao, respeitosamente.
- Vim aqui porque quero que a justia seja feita.
Venable sorriu:
- Exactamente. Tal como ns.
Lawrence Barker respirou fundo e, quando falou, a voz soou cheia de fria:
- Ento, por que raio levou a doutora Taylor a julgamento?
Venable julgou ter percebido mal:
- Como disse?
- Este julgamento  uma farsa!
Paige e Alan Penn olharam-se entre si, abismados.
Gus Venable empalideceu:
- Doutor Barker...
- No me interrompa - afirmou Barker. - O senhor utilizou o testemunho de muitas pessoas tendenciosas e invejosas para atacar uma cirurgi brilhante. Ela...
- Um momento! - Venable comeava a entrar em pnico. - No  verdade que criticou as capacidades da doutora Taylor de tal forma que a deixou pronta para deixar o Embarcadero Hospital?
- Sim.
Gus Venable comeou a sentir-se melhor:
- Bem, ento - disse em tom benevolente - como pode afirmar que Paige Taylor  uma mdica brilhante?
- Porque acontece que  a verdade.
Barker virou-se para olhar para Paige e, quando tornou a falar, conversava com ela como se estivessem somente duas pessoas na sala:
- Algumas pessoas nascem para ser mdicas. Voc  uma dessas raridades. Desde o incio que percebi como voc era capaz. Dificultei-lhe a vida, talvez de mais, porque voc era boa. Fui duro para si porque quis que fosse mais dura consigo mesma. Quis que fosse perfeita porque, na nossa profisso,  no existe espao para erros. Nenhum. Paige olhava para ele, mesmerizada, com a mente s voltas. Tudo estava a acontecer muito depressa. A sala ficou silenciosa. - Nunca permitiria que deixasse o hospital. Gus Venable comeava a sentir que a vitria lhe fugia. A sua grande testemunha tinha-se tornado no seu pior  pesadelo.
-Doutor Barker... foi testemunhado que o senhor acusou a doutora Taylor de ter morto o seu doente Lance Kelly. 
Como...?
- Disse-lhe isso porque ela era a cirurgi encarregada. 
Era a sua grande responsabilidade. Na realidade, o  anestesista  que causou a morte de Kelly.
Nesse momento, a sala ficou em alvoroo. Paige ficou boquiaberta. O Dr. Barker continuou a falar lentamente, mas com esforo:
- E quanto ao facto de John Cronin lhe ter deixado dinheiro, a doutora Taylor nada sabia disso. Eu prprio falei com o senhor Cronin. Disse-me que iria deixar essa quantia   doutora Taylor porque odiava a famlia e tambm me disse que iria pedir-lhe que o libertasse da sua agonia. Eu concordei. Houve um enorme alvoroo entre os espectadores. Gus Venable permaneceu ali, com uma expresso de fria. Alan Penn ergueu-se:
- Meritssima, peo que este assunto seja encerrado.
A juza Young bateu com o martelo:
- Silncio! - gritou. Olhou para os dois advogados:
- Venham ao meu gabinete.
A juza Young, Alan Penn e Gus Venable encontravam-se no gabinete da magistrada. Gus Venable estava em estado de choque:
-Eu... nem sei o que dizer. Ele est obviamente doente, meritssima. Est confuso. Quero uma equipa de psiquiatras para o examinar e...
- No pode querer tudo, Gus. Tudo indica que o seu caso se transformou em fumo. Vamos evitar-lhe mais situaes embaraosas, est bem? Vou retirar a acusao de assassnio e encerrar o caso. Alguma objeco? Houve um silncio prolongado. Finalmente, Venable concordou:
-Julgo que no.
A juza Young afirmou:
- Bem decidido. Vou dar-lhe um conselho. Nunca, mas nunca chame uma testemunha sem saber o que ela ir dizer.
O tribunal estava novamente em sesso. A magistrada disse: - Senhoras e senhores membros do jri, obrigada pelo vosso tempo e pacincia. O tribunal vai retirar todas as acusaes. A r est livre. Paige virou-se para atirar um beijo a Jason e depois correu at onde o Dr. Barker estava sentado. Ajoelhou-se e abraou-o.
- No sei como lhe agradecer - sussurrou.
- Em primeiro lugar, nunca devia ter-se envolvido nesta confuso - resmungou. - Que coisa to estpida para se fazer.
Vamos sair daqui e vamos a qualquer lado onde possamos conversar.
A juza Young ouviu. Levantou-se e disse:
- Pode utilizar o meu gabinete, se quiser.  o mnimo que podemos fazer.
S Paige, Jason e o Dr. Barker se encontravam no gabinete da juza. O Dr. Barker disse:
- Lamento que no me tivessem deixado vir aqui mais cedo. Sabem como so estes malditos mdicos. Paige estava prestes a romper em lgrimas:
- No sei como dizer o que...
-Ento, no diga nada! - replicou ele, grosseiramente. 
Paige estudou-o, lembrando-se subitamente de algo.
- Quando  que falou com John Cronin?
- O qu?
- O senhor ouviu-me. Quando  que falou com John Cronin?
- Quando?
Ela respondeu lentamente:
- O senhor nem sequer viu John Cronin. No o conheceu.
Surgiu um ligeiro sorriso nos lbios de Barker:
- No. Mas conheo-a a si.
Paige inclinou-se para a frente e deu-lhe um forte abrao.
- No seja piegas - resmungou. Olhou para Jason.
- s vezes torna-se piegas. Cuide bem dela, ou ter de se haver comigo.
Jason respondeu:
- No se preocupe, sir. Cuidarei bem dela.
Paige e Jason casaram-se no dia seguinte. O Dr. Barker foi o padrinho.

EPLOGO

Paige Curtis abriu um consultrio particular e est filiada no prestigioso North Shore Hospital. Paige utilizou o milho de dlares que John Cronin Lhe deixara para criar em frica uma fundao mdica em nome do pai. Lawrence Barker partilha um escritrio com Paige, como consultor de cirurgia. Arthur Kane viu a sua licena ser-lhe retirada pela Ordem dos Mdicos de Califrnia. Jimmy Ford recuperou totalmente e casou-se com Betsy. Deram  sua primeira filha o nome de Paige. Honey Taft foi viver para a Irlanda com Sean Reilly e trabalha como enfermeira em Dublin. Sean Reilly  um artista famoso e no apresenta quaisquer sintomas de sida, pelo menos por enquanto. Mike Hunter foi condenado a priso por assalto  mo armada e ainda cumpre a pena. Alfred Turner juntou-se a um grupo da Park Avenue e tem tido bastante xito. Benjamin Wallace foi despedido do cargo de administrador do Embarcadero County Hospital. Lauren Harrison casou-se com um tenista profissional. Lou Dinetto foi condenado a quinze anos de cadeia por fuga aos impostos. Ken Mallory foi condenado a priso perptua. Uma semana aps a chegada de Dinetto, Mallory foi encontrado morto   punhalada na sua cela. O Embarcadero Hospital ali continua,  espera do prximo terramoto.


Fim


NADA  ETERNO
Sidney Sheldon





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